Blog do Matias http://matias.blogosfera.uol.com.br A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Wed, 24 May 2017 20:38:06 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Enquanto Stranger Things não recomeça, um de seus jovens protagonistas vive a vida de rock star http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/24/enquanto-stranger-things-nao-recomeca-um-de-seus-jovens-protagonistas-vive-a-vida-de-rock-star-tocando-com-mac-demarco-fazendo-cover-the-new-order/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/24/enquanto-stranger-things-nao-recomeca-um-de-seus-jovens-protagonistas-vive-a-vida-de-rock-star-tocando-com-mac-demarco-fazendo-cover-the-new-order/#respond Wed, 24 May 2017 19:18:02 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3687

O ator Finn Wolfhard, que faz o jovem Mike Wheeler na série de terror adolescente Stranger Things, sucesso no ano passado, está tendo um semestre agitado. Além de marcar presença no remake do filme It, inspirado no livro de Stephen King, e na adaptação para o cinema de Carmen Sandiego, o ator ainda consegue arrumar tempo para exercitar seus dotes de rockstar. Foi o que aconteceu no domingo passado, quando ele participou do show do herói indie da vez, o ótimo Mac DeMarco, na cidade de Atlanta, nos EUA, e mostrou que não é apenas um aluno da escola do rock, como dá pra ver nesses dois vídeos postados no Instagram da atriz Natalia Dyer, a Nancy de Stranger Things:

this lil monster shredding at the @macdemarco show last night ⚡️👹⚡️

A post shared by @nattyiceofficial on

and then this happened 💀

A post shared by @nattyiceofficial on

Isso sem contar a participação que a própria banda do ator fez no festival nostálgico Strange 80s, tocando uma versão para “Age of Consent”, do New Order, no início deste mês.

O garoto tem futuro.

]]>
0
Kid Vinil contrabandeava a música pop para um Brasil isolado do resto do mundo http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/19/kid-vinil-contrabandeava-a-evolucao-da-musica-pop-para-um-brasil-isolado-do-resto-do-mundo/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/19/kid-vinil-contrabandeava-a-evolucao-da-musica-pop-para-um-brasil-isolado-do-resto-do-mundo/#respond Fri, 19 May 2017 21:43:15 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3681

Todo mundo se lembra de “Eu Sou Boy”, talvez o grande hit new wave brasileiro, sem dúvida o grande hit da new wave paulista. Uma geração lembra de vê-lo apresentando bandas novas que não tocavam no rádio ao vivo em diferentes programas da TV Cultura, outra lembra de vê-lo apresentando clipes de bandas que não tocavam no rádio na MTV. Poucos o conheceram como um dos primeiros punks do Brasil, que reuniu os codinomes de dois dos DJs que discotecavam antes dos shows do Clash para eternizar uma persona que, meio nerd, meio rocker, carregava a cultura da música em seu próprio nome. Mas quem o conheceu sabe o quanto Kid Vinil, que morreu nesta sexta-feira, foi memorável – e crucial para alimentar gerações de fãs de música numa época em que era difícil descobrir qualquer outro tipo de música que não tocasse no rádio.

Para a geração que nasceu com a internet à mão, aplicativos de streaming, torrents de discografias, megastores, lojas especializadas e música digital, os tempos pré-digitais eram uma espécie de Idade Média cultural, especificamente no Brasil. Os poucos sortudos que conseguiam sair do país traziam na bagagem de volta discos que nunca foram vistos na América do Sul, testemunhos de shows de artistas que nunca tocariam – nem tocaram – sequer no rádio brasileiro. Uma época em que música estrangeira era vista como alienante, imperialista e descartável que atrasou a evolução musical brasileira deixando a programação musical do país na mão de poucas gravadoras, rádios e emissoras de TV.

Kid Vinil furava este bloqueio. Era um Napster humano, trazendo notícias do front da cultura pop para um país isolado culturalmente do resto do mundo. Radialista, DJ, jornalista, crítico musical, apresentador, curador, programador musical – o velho Antônio Carlos Senefonte sempre buscava uma brecha para mostrar novidades que ele sempre trazia em primeira mão. Se não eram discos, eram as canções, se não eram as canções, eram as histórias, se não eram as histórias, as ideias. Ele é um dos personagens centrais na história do punk brasileiro e também uma das forças por trás do novíssimo rock que surgiu por aqui durante os anos 80 – quando não era apenas agente, mas protagonista. Liderando o grupo Magazine, ele furou o bloqueio do rádio para falar da vida estressante em São Paulo com os hits “Eu Sou Boy” e “Tic-Tic Nervoso”, além de ter uma música (escrita por Caetano Veloso!) na abertura de uma novela da Globo.

Passados os anos 80, ele entrou nos anos 90 disposto a desbravar a fronteira do rock alternativo e aos poucos cruzava o Brasil para espalhar novidades. Espertamente usava programas de rádio e de TV para mostrar que era possível viver de música longe dos rádios e das TVs, mostrando como funcionavam as coisas na Europa e nos Estados Unidos e traçando paralelos com a novíssima cena indie no Brasil. Na década seguinte foi diretor de lançamentos internacionais da gravadora Trama e seguiu traçando pontes entre a gravadora brasileira e tradicionais selos alternativos estrangeiros.

O conheci pessoalmente quando ele apresentava o programa Lado B, da MTV, logo após a fase clássica do programa, liderada por Fabio Massari. Kid – escudado do guitarrista do Pin Ups, então diretor na MTV Brasil, José Antonio Algodoal – mudou o foco do programa para dar mais atenção às bandas brasileiras que comiam pelas beiradas. Já o conhecia sem conhecê-lo – sua personalidade midiática era uma versão idêntica à sua identidade pessoal. Uma enciclopédia musical, um poço de saber, mas, principalmente, um coração incrível, uma dessas raras pessoas que conectam-se facilmente com todos.

Kid nunca era a alma da festa nem o centro das atenções, preferia ficar no canto, puxando papo para conversar sobre discos, artistas e, claro, sobre a vida. Isso só mudava quando ia para o palco e se esbaldava ao brincar com essa possibilidade que, no fundo, sabíamos que era real: ele era o protagonista de uma história subterrânea que só brincava com os holofotes para sentir o gostinho de estar lá. Como ficou eternizado no título de uma de suas bandas e em sua própria biografia, ele era um herói do Brasil. De um Brasil moderno, plural e musical, que fugia dos centro para valorizar uma cultural essencialmente marginal. Deixa um legado e uma saudade tão grandes quanto sua coleção de discos.

]]>
0
Última música que Chris Cornell tocou antes de morrer foi In My Time of Dying, do Led Zeppelin – assista http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/19/ultima-musica-que-chris-cornell-tocou-antes-de-morrer-foi-in-my-time-of-dying-do-led-zeppelin-assista/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/19/ultima-musica-que-chris-cornell-tocou-antes-de-morrer-foi-in-my-time-of-dying-do-led-zeppelin-assista/#respond Fri, 19 May 2017 06:10:37 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3678

Não bastasse ter morrido enforcado exatamente no mesmo dia em que outro suicida do rock tirou sua vida (Ian Curtis, do Joy Division, se enforcou em 18 de maio de 1980), a surpreendente notícia morte de Chris Cornell, vocalista do Soundgarden, veio acompanhada de outra infeliz coincidência, quando ele incluiu trechos da letra do épico “In My Time of Dying”, do Led Zeppelin (cujo título pode ser traduzido como “Na Hora em Que Eu Morrer”) no meio da canção “Slaves and Bulldozers”, última canção que tocou com sua banda, no Fox Theatre, em Detroit, poucas horas antes de se matar. Assista ao vídeo filmado por alguém no público:

O trecho da letra do Led Zeppelin é mencionado a partir dos seis minutos e meio do vídeo – mas isso não queria dizer que ele teria anunciado sua morte, pois Cornell já havia citado “In My Time of Dying”, um clássico do rock pesado, em outras versões desta mesma música.

Outro fã gravou a íntegra do show e é desconcertante ver como Cornell estava bem no palco – nada indicava que aquela seria sua última apresentação ou que ele se mataria em algumas horas.

Eis o setlist deste último show:

“Ugly Truth”
“Hunted Down”
“Spoonman”
“Outshined”
“The Day I Tried to Live”
“My Wave”
“Burden in My Hand”
“Jesus Christ Pose”
“Rusty Cage”
“Slaves & Bulldozers”

]]>
0
O baile de Mano Brown é um epicentro da cultura negra brasileira http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/17/o-baile-de-mano-brown-e-um-epicentro-da-cultura-negra-brasileira/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/17/o-baile-de-mano-brown-e-um-epicentro-da-cultura-negra-brasileira/#respond Wed, 17 May 2017 14:43:50 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3666

Fotos: Willian Alves (Divulgação)

Carlos Dafé, Seu Jorge, Ed Motta, Max de Castro, Hyldon – um verdadeiro panteão da música negra brasileira desfilou no palco de Mano Brown em sua primeira apresentação solo, na sexta passada, no Citibank Hall. E eles não eram os únicos a circular pelo palco – o maior nome do rap nacional veio cercado de uma banda com mais de dez músicos, sem contar dançarinos. E, no centro de tudo, ele sorria.

Brown não conseguia disfarçar – nem tinha por quê. Ele estava ali vivendo seu sonho de infância, uma versão pós-moderna para os espetáculos do Earth Wind & Fire, uma versão maiúsculas dos antigos bailes black nas periferias e no centro de São Paulo. Uma banda da pesada, com naipe de metais, backing vocals, dois guitarristas, tecladista, baterista, baixista DJ e percussionista, puxando um funk clássico, que ia groove orgânico dos anos 70 ao suíngue sintético dos anos 80, aquele clima entre o início da disco music e sua implosão que Brown sublinha ao chamar seu disco solo de Boogie Naipe. É uma noite dedicada à dança, ao flerte, à alegria e ao prazer, bem longe da cara amarrada e do clima denso que Brown criou dentro dos Racionais MCs.

Os shows de abertura – de Rincon Sapiência e Rael – não trouxeram todo o público para o local, deixando transitável a pista da casa de shows. Mas bastou começar a espera pelo show principal que logo o lugar começou a ficar lotado – nunca vi tanta gente na enorme casa de shows da zona sul de São Paulo. As cortinas se abriram pouco mais de uma hora após o horário anunciado (meia-noite), o que foi praticamente pontual levando em conta os atrasos intermináveis característicos dos shows dos Racionais.

Cortinas abertas, luzes passeando entre os músicos e o público e uma lotação de pessoas no palco também semelhante à multidão no palco dos shows dos Racionais. Mas ali não era a entourage dos rappers e sim uma big band que descia a lenha para o público se esbaldar. À frente da banda, o rapper e cantor Lino Crizz, principal parceiro de Brown nesta nova fase, funcionava como o maestro da banda: vestido na estica, cabelo e vocais impecáveis, Crizz funcionava como a liga entre a banda e o dono da festa, sob o néon colorido que reproduzia de forma gigantesca a capa gráfica do álbum.

Brown sorria, rimava e cantava. É nítida sua vontade de deixar a persona criada com o grupo de rap num segundo plano, mostrando que mais do que um rapper implacável, ele também pode cantar – e bem. Seguindo à risca a mesma ordem de músicas do disco, ele chamava aos palcos praticamente todos os convidados que tocaram nas faixas de Boogie Naipe.

E, ao vivo, Boogie Naipe é um claro bailão, com direito a locutor anunciando atrações (interpretado por Wilson Simoninha), solos de instrumentos, números de dança e climas diferentes de música – da introspecção à festa, do romantismo à exaltação, nunca optando pelo confronto. É um momento de celebração que Brown sublinha para o mesmo público dos Racionais que a vida não é só desgraça, só tragédia, só problemas. É preciso saber se divertir.

E assim ele vai chamando os convidados um a um, seguindo a ordem do disco, até que em dado momento, ele os reúne todos ao redor de uma mesa de boteco, tomando uísque e falando sobre a vida. O alívio de Brown ao ver que, depois de muito tempo de expectativa, deu tudo certo é transparente. Depois que Lino Crizz e Ed Motta dividiram o vocal no improviso de “This Masquerade” de Leon Russell, depois que Seu Jorge reapareceu tocando uma flauta transversal e Max de Castro e Duani desfilavam suas guitarras lado a lado, ele sentou-se num banquinho e desabafou: “Uma hora dessas o script já foi pro saco”, riu. Não tinha problema. Não tinha marra. Essa era a grande marca da noite – era o show de Brown, não do Brown dos Racionais.

E embora o público pedisse músicas do grupo de rap, Brown não fugiu do script. Terminou o show tirando o gorro que usou toda a noite numa pequena barbearia cenográfica instalada à esquerda do palco e se era para cantar músicas que não fossem de seu disco solo, preferiu “I Want You”, de Marvin Gaye. A extensão do show poderia ser reduzida pois em dados momento o excesso de virtuosismo dos músicos, o excesso de improviso dos convidados e as coreografias no palco se tornavam repetitivas – mas isso também é característica tanto dos bailes black quanto dos shows de funk dos anos 70 e das apresentações da discoteca no fim daquela década.

O principal era o claro momento de celebração da cultura negra brasileira, que sublinhava uma verdade importante: Mano Brown é o polo magnético e unânime de diferentes gêneros e gerações desta cultura. Talvez apenas Jorge Ben e alguns nomes da velha guarda do samba provoquem tanta comoção e reverência. E como foi bom ver que Brown soube conduzir esta energia sem fechar a cara, sorrindo.

]]>
0
Há 50 anos, Jimi Hendrix capturava a psicodelia para o coração da música negra e inventava o rock clássico com Are You Experienced? http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/12/ha-50-anos-jimi-hendrix-capturava-a-psicodelia-para-o-coracao-da-musica-negra-e-inventava-o-rock-classico-com-are-you-experienced/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/12/ha-50-anos-jimi-hendrix-capturava-a-psicodelia-para-o-coracao-da-musica-negra-e-inventava-o-rock-classico-com-are-you-experienced/#respond Fri, 12 May 2017 12:35:10 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3660

É fácil entender porque Jimi Hendrix ainda é um ícone imbatível da cultura, mesmo passado meio século desde o que o primeiro registro de sua força emocional e sonora foi disponibilizado em escala industrial. Are You Experienced?, que chegou às lojas de disco no dia 12 de maio de 1967, concentra as principais qualidades do guitarrista, mas, visto à distância, cinquenta anos depois, é essencialmente um disco pop. Canções como “Purple Haze”, “Fire”, “Foxy Lady” e a faixa-título já se embrenharam na textura sonora do inconsciente coletivo a ponto de serem consideradas, sem dúvida, hits. Fora a figura encantadora de Hendrix, um trickster armado com uma guitarra, um soul man psicodélico, um xamã elétrico.

Difícil, no entanto, é entender o impacto que Jimi Hendrix exerceu sobre os anos 60 – e como sua presença foi capital para sincronizar dois continentes em uma nova perspectiva de vida, alinhando a contracultura de Londres (e consequentemente a da Europa) à de Nova York e da Califórnia (e consequentemente a da América) ao redor de o despertar de uma nova consciência. Não por acaso o disco foi lançado no mítico 1967 – é um dos discos que ajudou a transformar aquele ano numa época de ouro para a música, para o rock e para a cultura contemporânea, como um todo.

E isso aconteceu num estalo. Um ano antes de seu lançamento, Jimi Hendrix sequer era Jimi Hendrix. Tocava em uma banda chamada Jimmy James and the Blue Flames onde exercitava todo seu virtuosismo rock aprendido na marra ao lado de titãs da música negra, como os Isley Brothers e Little Richards, de quem foi guitarrista de suas bandas de apoio. Mas estava longe do alienígena musical que se transformou em poucos meses. Já estava acompanhando o que seus contemporâneos brancos dos Estados Unidos e da Inglaterra estavam fazendo, principalmente Dylan, uma de suas principais influências, e os Beatles. Mas a barreira racial o impedia de ir para além da fronteira onde atuava, até que Linda Keith surgiu em sua vida.

A história de Linda com Hendrix parece um conto de fadas. Ela o viu se apresentando no Cafe Wha, em Nova York, e imediatamente reconheceu seu talento cru. Modelo e it girl inglesa, Linda era namorada de Keith Richards dos Rolling Stones e passava uma temporada na costa leste americana quando percebeu que poderia lapidar aquele guitarrista. Foi ela quem o convenceu a deixar o cabelo crescer e a cantar, usando Dylan como parâmetro para estas mudanças no guitarrista. Ela insistiu que adotasse seu verdadeiro sobrenome e não se escondesse atrás de uma banda – além de assinar seu prenome de forma singular, Jimi, e não como todos os outros James, que assinavam o próprio apelido como Jimmy. Ela lhe sugeriu que usasse roupas menos comportadas e que experimentasse o ácido lisérgico. Em outras palavras, Linda lhe aplicou uma dose expressa da Swinging London, a transformação comportamental que tirava Londres do pós-guerra e puxava a capital inglesa para a era psicodélica. O encontro de Jimi e Linda é crucial para a transformação de Hendrix em um ícone da música e da contracultura global.

Ela usou suas conexões para tentar chamar atenção da indústria fonográfica para o músico, mas nem Andrew Loog Oldham (empresário dos Rolling Stones) e Seymour Stein (dono da gravadora Sire Records) não viram grande coisa no guitarrista. Foi preciso que Linda o apresentasse a um amigo músico que estava insatisfeito com a vida dos palcos e queria experimentar a vida nos bastidores, empresariando um novo artista. Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, havia ouvido a música “Hey Joe” e sabia que ela seria o hit do primeiro artista que empresariasse. E ele conseguiu ver exatamente o que Linda dizia quando assistiu Jimi Hendrix ao vivo.

Mitch Mitchell, Jimi Hendrix e Noel Redding

Chandler é a segunda ferramenta para a ascensão de Hendrix. É ele quem banca a viagem do guitarrista para Londres, suas primeiras apresentações. É Chandler quem apresenta Hendrix a seus novos músicos, os ingleses Noel Redding, guitarrista que começava a tocar baixo, e Mitch Mitchell, baterista que também havia tocado com uma banda chamada Blue Flames (Georgie Fame and the Blue Flames). A química entre os três é instantânea e logo que eles começam a gravar, Chandler vê que não precisa alugar sala de ensaio para os três, que agora se chamavam The Jimi Hendrix Experience, pois os novos músicos aprendiam rapidamente as músicas de Jimi logo que estavam testando os instrumentos no estúdio.

O impacto ao vivo de Jimi Hendrix em Londres, ainda em 1967, foi avassalador. Guitarristas contemporâneos, como Jeff Beck, Eric Clapton e Pete Townshend sentiram o baque na hora e em menos de um mês todos os instrumentistas da cidade se viam confrontados com um novo patamar de excelência – todos mesmo, inclusive músicos que não se consideram virtuosos, como integrantes dos Beatles e dos Rolling Stones que puderam assistir aos primeiros show de Hendrix na Inglaterra.

Em frente a uma plateia progressista e sem preconceitos, o guitarrista explorava todos os limites de sua performance, assumindo o holofote como Linda Keith havia profetizado, não apenas como instrumentista, mas como showman, líder carismático no palco. Ele e sua guitarra Fender Stratocaster eram um só e ele ficava cada vez mais consciente e confiante de sua força artística, seja cuspindo frases de apresentação no começo de suas músicas ou narrativas melódicas completas nos intervalos entre os refrões. A guitarra também era a batuta com a qual regia a microfonia, o barulho dissonante dos instrumentos elétricos que Hendrix aos poucos domou. Hércules sonoro, desafiava bestas sonoras inomináveis e transformava estas lutas em solos memoráveis, deslumbrantes, transcendentais.

Era uma força ancestral. O que Hendrix mostrava para os ingleses era a versão atual da geração de músicos norte-americanos que a Swinging London venerava. Uma geração que surgiu com o rock’n’roll de Elvis Presley, Chuck Berry, Buddy Holly e Little Richards, mas que logo foi atrás dos discos anteriores, dos primeiros bluesmen elétricos, dos discos da gravadora Chess. Hendrix era um daqueles monstros sagrados, só que não vivia no passado, mas no presente, apontando para o futuro.

Sua importância é maior do que apenas para o rock. Hendrix faz a ponte entre as ragas indianas mencionadas por John Coltrane e o espaço sideral de Sun Ra com as viagens intergaláticas de George Clinton e a força política de Sly & The Family Stone. Não à toa foi parar com Miles Davis no momento em que o Picasso da música norte-americana começava sua fase elétrica. Hendrix não é apenas a consagração da união das novas consciências na cultura pop da América e da Europa, a consolidação do que Dylan dizia quando batizou um de seus discos de 1965 de “trazer tudo de volta pra casa”, em relação à cultura urbana que teria sido “roubada” pela geração dos Beatles. Ele também é a evolução improvável de uma consciência musical, que, por mais difícil que possa parecer, soa facílima uma vez apresentada pelo guitarrista e vocalista. E está tudo ali, encerrado no primeiro disco de seu power trio. “Você já experimentou?”, pergunta desafiador na faixa-título, para responder sorrindo. “Eu já.”

]]>
0
A escolha do líder do Chromatics para a trilha sonora de Twin Peaks é um ótimo sinal sobre a próxima temporada http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/11/a-escolha-do-lider-do-chromatics-para-a-trilha-sonora-de-twin-peaks-e-um-otimo-sinal-sobre-a-proxima-temporada/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/11/a-escolha-do-lider-do-chromatics-para-a-trilha-sonora-de-twin-peaks-e-um-otimo-sinal-sobre-a-proxima-temporada/#respond Thu, 11 May 2017 18:31:21 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3654

Estamos às vésperas de voltar a um universo fictício em que a realidade e o sobrenatural se superpõem com estilo. A terceira temporada de Twin Peaks está a algumas semanas de distância entre seus criadores e, nós, seu público. A série que David Lynch produziu no início dos anos 90 era um alienígena na TV norte-americana e subvertia a estética de telefilme dos anos 80 ao misturar um assassinato numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos que começa a ser investigado por um agente do FBI com uma camada de surrealismo de horror inimaginável até para a TV de hoje em da.

Foi, no entanto, um alienígena viral: contaminou o DNA das séries de TV de tal forma que mudou a perspectiva para todos os profissionais da área. A partir de Twin Peaks, que teve meras duas temporadas e terminou de forma abrupta, toda produção de TV nos Estados Unidos começou a mudar e os seriados, antes meros passatempos temáticos com gêneros bem estabelecidos (como o próprio conceito de sitcom, a “comédia de situação”), se tornaram obras autorais, com nível de complexidade mais exigente que o cinema. Twin Peaks abriu um caminho que foi percorrido por Arquivo X, Seinfeld e Buffy – A Caça-Vampiros (que, não parece, mas é bem importante), cada um contribuindo à sua maneira, para chegarmos à chamada nova era de ouro da televisão, que pariu obras como Sopranos, The Wire, Lost, Mad Men, Walking Dead, Six Feet Under, Breaking Bad, Game of Thrones. Todos estes seriam bem diferentes – outros talvez nem existissem – não fosse a série do início dos anos 90. É o que nos lembra mais um teaser da próxima temporada, que menciona indiretamente alguns destes programas:

E são tantos teasers… Além dos que já haviam mostrado o Agente Cooper em 2017 e a volta de Angelo Badalamenti à trilha sonora, a série também lançou o teaser sobre locações que eu publiquei na semana passada e este sobre os velhos personagens hoje:

Esse outro abaixo – e, presumidamente, outros – está escondido no canal do YouTube onde a série vem publicando estes teasers e só aparece para os americanos que procuram “What is the Black Lodge?” no Google.

E vão continuar surgindo novos teasers até a data da exibição do primeiro episódio da terceira temporada, dia 21 de maio, no canal norte-americano Showtime. Mas esse excesso de publicidade me preocupa.

Porque alimenta uma expectativa que invariavelmente nos leva à frustração. E várias histórias clássicas foram ressuscitadas recentemente com alarde para encontrar produções fracas (a décima temporada de Arquivo X), forçadas (a última temporada de Arrested Development) ou vazias (como os filmes mais recentes da série Alien). Claro que há exemplos bem-sucedidos do outro lado (como a empolgante ressurreição de Battlestar Galactica, a brilhante reinvenção de Westworld e os filmes mais recentes da série Jornada e Guerra nas Estrelas), mas esse incessante bumbo batido pelo marketing da empresa me causa uma sensação ruim – além da lista de novos atores da série que inclui dezenas de nomes conhecidos (Michael Cera, Monica Belucci e até o Eddie Vedder!). Isso sem contar a inevitável máquina de memes da internet, que já está ligada no tema faz tempo – e, com a proximidade da estreia, irá aumentar sua produção consideravelmente. Como esta bela recriação que ilustrador Pakoto Martinez fez para a abertura da série:

Mas essa má sensação foi embora a partir do anúncio de que Johnny Jewell, líder do grupo norte-americano Chromatics, iria tomar conta da trilha sonora da série que não fosse escrita por seu compositor original, Angelo Badalamenti. Jewell é conhecido por sintetizar tensões em teclados vintage e vozes femininas sussurradas sobre guitarras que ecoam no espaço, em diferentes bandas sendo o Chromatics, a mais conhecida delas. E para quem questiona essa escolha, ouça o disco Windswept, que ele já lançou nas plataformas digitais. Eis sua capa:

E o disco pode ser ouvido na íntegra na playlist abaixo:

Aí tudo faz sentido. Mesmo a Monica Belucci, o Eddie Vedder, o Michael Cera. Tudo se encaixa nesse ambiente bizarro chamado Twin Peaks.

]]>
0
Gorillaz na TV: Uma série com dez episódios, ao vivo com Noel Gallagher e com Stephen Colbert no lugar do De La Soul! http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/06/gorillaz-na-tv-uma-serie-com-dez-episodios-ao-vivo-com-noel-gallagher-e-com-stephen-colbert-no-lugar-do-de-la-soul/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/06/gorillaz-na-tv-uma-serie-com-dez-episodios-ao-vivo-com-noel-gallagher-e-com-stephen-colbert-no-lugar-do-de-la-soul/#respond Sun, 07 May 2017 01:43:04 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3648

Depois de saírem da ficção para os palcos, os Gorillaz querem chegar na TV. A banda de desenho animado inventada pelo líder do Blur Damon Albarn e pelo criador da Tank Girl Jamie Hewlett acaba de lançar um novo álbum – o melancólico e moderno Humanz, que deve ter seu grande momento durante o próprio festival do grupo -, mas é só o começo desta nova fase.

Pelo menos foi o que o desenhista Hewlett disse em entrevista ao site canadense Exclaim, que lhe encomendaram dez episódios de série em desenho animado com o grupo símio. “Eu vou dirigir o primeiro e o último, mas teremos que ter alguém pra dirigir os outros episódios. Acho que se eu tentasse fazer tudo sozinho, iria morrer.”

Mas o desenho deve permanecer bidimensional, apesar da recente aventura em 3D para o clipe de lançamento do novo disco. “Eles serão assim de agora em diante. Acho que é um estilo bonito de animação”, continuou. “Todo mundo faz tudo no computador agora e é realmente ótimo para fazer cenários, como ambientes e paisagens, mas não os próprios personagens. Eu ainda sou muito inspirado pelo estilo de Chuck Jones, eu amo esse tipo de animação. É arte. Eu preferia deixar os personagens desse jeito pelo resto dessa campanha. Então os personagens serão em duas dimensões, mas todo o resto está em aberto”. Hewlett não descarta nem a possibilidade do resto da série ser filmada em vez de desenhada. “Ou pode ser uma mistura de colagem e fotografia e um pouco de computação gráfica”, completou. Ele também mencionou a possilidade do grupo ter sua própria grife, com roupas feitas pelo próprio desenhista.

Enquanto isso, o grupo continua sua rodada de lançamento, se apresentando ao vivo em diferentes programas de TV sem usar o recurso do desenho animado em vez da banda. O que provocou uma incrível apresentação no programa The Graham Norton Show, da emissora inglesa BBC, em que Damon Albarn cantou ao lado de seu ex-desafeto Noel Gallagher, um dos colaboradores do novo álbum, e da cantora Jehnny Beth, do grupo Savages.

Em outra apresentação na TV, o grupo tocou o velho hit “Feel Good Inc.” no programa do apresentador norte-americano Stephen Colbert na emissora CBS, e no lugar do grupo De La Soul, o próprio Colbert assumiu a parte rap da música.

Fora que há um rumor que o grupo talvez venha mesmo para a América do Sul este ano – mas talvez não toque no Brasil.

]]>
0
Roger Waters não se considera amigo de David Gilmour, seu ex-parceiro no Pink Floyd: “E duvido que algum dia vamos ser” http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/05/roger-waters-nao-se-considera-amigo-de-david-gilmour-seu-ex-parceiro-no-pink-floyd-e-duvido-que-algum-dia-vamos-ser/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/05/roger-waters-nao-se-considera-amigo-de-david-gilmour-seu-ex-parceiro-no-pink-floyd-e-duvido-que-algum-dia-vamos-ser/#respond Sat, 06 May 2017 02:22:37 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3630

Roger Waters e David Gilmour

Às vésperas de dois lançamentos importantes, o ex-baixista do Pink Floyd não está muito preocupado em manter as aparências para ajudar a publicidade. “Dave e eu não somos amigos, nunca fomos e duvido que um dia seremos”, disse Roger Waters em entrevista ao jornal inglês Telegraph, em referência ao ex-parceiro de banda, o guitarrista David Gilmour. “E tudo bem, não há razão para sermos”.

“Você pode ser criativo sem ser amigo”, acrescentou. “David e eu fizemos ótimos trabalhos juntos, que nunca teria acontecido nós dois não estivéssemos lá.” O baixista está prestes a lançar seu primeiro disco solo em mais de dez anos e para isso convocou o produtor do Radiohead, Nigel Godrich, para ajudá-lo a polir sua nova sonoridade. O disco Is This the Life We Really Want? está agendado para ser lançado no início de junho e o músico já apresentou o primeiro single, “Smell the Roses”, que ecoa bons momentos de seu grupo original.

Além do novo disco, Roger também está por trás da exposição The Pink Floyd Exhibition: Their Mortal Remains, que será inaugurada no próximo sábado, dia 13, no museu Victoria and Albert Museum, em Londres, e celebra o cinquentenário da banda reunindo todo tipo de memorabilia sobre a banda inglesa, de objetos pessoais de seus integrantes a equipamentos de shows e gravação, passando por rascunhos de canções e capas de discos, entre outras curiosidades. O jornal inglês The Guardian publicou algumas imagens que estarão na exposição, que reproduzo abaixo:

A bengala usada para punir fisicamente os alunos da escola Cambridgeshire quando Roger Waters, Syd Barrett e Storm Thorgerson (que depois iria fazer as capas do Pink Floyd) estudavam lá

Uma das fotos tiradas na sessão para a capa de discos do primeiro disco da banda, em 1967

A formação clássica do Pink Floyd – Rick Wright, Nick Mason, Roger Waters e David Gilmour – em 1970

Uma pintura abstrata feita pelo líder original da banda, Syd Barrett, em 1965

Um cartaz para uma apresentação do grupo no Royal Festival Hall, dia 14 de abril de 1969

O baterista Nick Mason guardando seu instrumento em 1965

O Azymuth Coordinator, uma espécie de controle de som quadrafônico criado para um show da banda no Queen Elizabeth Hall, em maio de 1967

Cartaz feito para o lançamento do primeiro disco da banda, The Piper at the Gates of Dawn, em 1967

Projetor de luz usado entre 1966 e 1967 pela banda

Uma flor espelhada que fazia parte do palco da banda entre 1973 e 1975

Ilustração de Roger Waters, da época do disco The Wall

]]>
0
O dia em que o universo de Guerra nas Estrelas misturou-se com o Sgt. Pepper’s dos Beatles http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/04/o-dia-em-que-o-universo-de-guerra-nas-estrelas-misturou-se-com-o-sgt-peppers-dos-beatles/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/04/o-dia-em-que-o-universo-de-guerra-nas-estrelas-misturou-se-com-o-sgt-peppers-dos-beatles/#respond Thu, 04 May 2017 13:26:36 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3626

Hoje é 4 de maio, o tradicional dia que os fãs da saga Guerra nas Estrelas criaram para celebrar esta religião moderna a partir de um trocadilho infame (o quatro de maio, em inglês, chama-se “May the Fourth”, que soa como o eterno lema Jedi “May the Force be with you” – “que a Força esteja com você”) e que tal revisitar a pedra fundamental da história imaginada por George Lucas pelo ponto de vista do mais clássico disco dos Beatles? Hein?

Foi o que fez a dupla norte-americana Palette-Swap Ninja, formada pelo vocalista Dan Amrich e pelo tecladista Jude Kelley, revisitando todo o Episódio IV, o primeiro filme que George Lucas fez sobre a saga (que completa 40 anos este ano), como uma paródia construída sobre o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (que completa 50 anos também este ano). Um mashup épico e meticuloso, que pode ser baixado gratuitamente no site da dupla, mas que funciona ainda mais quando assistimos à sua versão em vídeo, Princess Leia’s Stolen Death Star Plans é uma obra-prima pós-moderna.

Fico pensando em quais discos poderiam funcionar com os próximos filmes… O Álbum Branco com o Império Contra-Ataca? Tenso!

]]>
0
Mais de um quarto de século depois, parece que nada mudou em Twin Peaks http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/03/mais-de-um-quarto-de-seculo-depois-parece-que-nada-mudou-em-twin-peaks/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/05/03/mais-de-um-quarto-de-seculo-depois-parece-que-nada-mudou-em-twin-peaks/#respond Wed, 03 May 2017 12:02:25 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3621

Estamos a menos de vinte dias da volta ao universo estranho e vulgar criado por David Lynch ao redor da pequena cidade fictícia de Twin Peaks, no noroeste dos Estados Unidos. O diretor volta à série, que deu início à era de ouro da televisão que ainda vivemos hoje, em uma improvável mas esperada terceira temporada, que além de trazer todo o elenco original ainda reúne nomes de peso para esta nova safra. Sua estreia acontece no dia 21 de maio, no canal norte-americano Showtime, que lançou mais um teaser da nova temporada. Depois de nos fazer reencontrar com a trilha de Angelo Badalamenti e com o próprio Agente Cooper, é a vez de voltarmos à própria cidade que batiza o seriado, nos reencontrando com a delegacia, a casa de Laura Palmer, suas florestas fantasmagóricas, o restaurante Double R e até o estacionamento de trailers Fat Trout.

Parecem cenas de época, mas se você reparar nos carros estacionados em frente ao restaurante perceberá que, realmente, mais de um quarto de século se passou e a cidade parece ter continuado a mesma.

]]>
0