Blog do Matias http://matias.blogosfera.uol.com.br A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Wed, 29 Mar 2017 01:06:26 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Criadores de Westworld abrem o jogo sobre uma das principais questões do final da primeira temporada http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/28/criadores-de-westworld-abrem-o-jogo-sobre-uma-das-principais-questoes-do-final-da-primeira-temporada/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/28/criadores-de-westworld-abrem-o-jogo-sobre-uma-das-principais-questoes-do-final-da-primeira-temporada/#respond Wed, 29 Mar 2017 01:06:26 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3472

E esse 2018 que não chega? Por mais que possam vir boas surpresas e novas séries na televisão em 2017, não há como não insistir em saber de alguma novidade sobre a segunda temporada de Westworld, um dos grandes acontecimentos do entretenimento desta década. A série que a HBO lançou no ano passado ultrapassou o conceito do filme original de 1973 e revelou-se um complexo quebra-cabeças em que diferentes linhas de pensamento se misturavam num ousado mosaico de narrativas sobre um parque temático em que robôs idênticos a seres humanos são abusados por seus frequentadores – e aos poucos tomam consciência disso.

Os produtores e o elenco da série foram reunidos neste fim de semana como uma das atrações do evento PaleyFest, em Los Angeles, nos EUA, dedicado a discutir conteúdo de televisão junto a seus criadores. Subiram ao palco do Dolby Theater tanto o casal autor de Westworld – Jonathan Nolan e Lisa Joy – bem como todos os principais atores da série: Evan Rachel Wood (Dolores Abernathy), Thandie Newton (Maeve Millay), James Marsden (Teddy Flood), Ed Harris (Man in Black), Jimmi Simpson (William) e o produtor executivo Roberto Patino. E entre os principais assuntos discutidos no sábado, a principal revelação não trouxe nenhuma novidade sobre a próxima temporada e sim em relação a uma das cenas mais discutidas do último episódio da série, quando a robô Maeve decide voltar para o parque. Se você não viu o final da série, pare de ler agora. Toma aí uns gifs animados pra você não correr o risco de ler algo que não queira.

“A forma como pensamos e como filmamos… Foi a primeira decisão que ela fez na vida”, disse Nolan, descrevendo a cena em que Maeve volta atrás e decide retornar ao parque temático, de onde havia acabado de fugir pela primeira vez. Presa entre o conflito de descobrir o mundo para além dos limites de Westworld e a lembrança de uma filha que ela sente ter perdido, a andróide interpretada brilhantemente por Thandie Newton desiste sua fuga, que havia sido programada pelo própria criador do parque em uma das inúmeras reviravoltas do último episódio, e decide voltar para o parque. “Para mim, foi um momento muito emotivo no episódio”, continuou o criador da série, finalmente abrindo o jogo sobre se a decisão de Maeve havia sido consciente ou pré-programada por seus criadores. “Vocês testemunharam o nascimento do livre arbítrio”, resumiu Nolan, segundo o relato da Entertainment Weekly.

Pouco foi dito sobre a segunda temporada, tirando o fato de que Nolan e Joy estarem animados ao fazer um novo filme de dez horas, em referência aos dez episódios de uma hora que formam a temporada completa. E que talvez a segunda temporada seja um musical – mas isso Nolan logo revelou que era mentira. Será?

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Humanz, novo disco do Gorillaz, estreia ao vivo e reúne pela primeira vez Noel Gallagher e Damon Albarn em uma mesma música! http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/25/humanz-novo-disco-do-gorillaz-estreia-ao-vivo-e-reune-pela-primeira-vez-noel-gallagher-e-damon-albarn-em-uma-mesma-musica/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/25/humanz-novo-disco-do-gorillaz-estreia-ao-vivo-e-reune-pela-primeira-vez-noel-gallagher-e-damon-albarn-em-uma-mesma-musica/#respond Sat, 25 Mar 2017 23:42:54 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3465

A banda de desenho animado Gorillaz encerrou a semana escancarando tudo sobre seu novo álbum, que vinha sendo anunciado no conta-gotas desde o ano passado. Além do título e da data de lançamento (Humanz será lançado dia 28 de abril), o grupo ainda revelou a capa, a ordem das músicas (tanto da versão simples quanto da versão deluxe) e quatro novas músicas. Uma delas, especificamente, é um registro histórico de uma colaboração entre dois dos maiores rivais da música pop recente, quando a faixa “We Got the Power” reúne finalmente dois gênios do pop contemporâneo, Damon Albarn e Noel Gallagher, em uma mesma gravação.

Líderes respectivamente do Blur e do Oasis, os dois popstars ingleses alimentaram uma rivalidade no auge de suas bandas, na última década do século passado, quando disputavam o trono do pop inglês dos anos 90, na cena conhecida como britpop. A rusga foi amaciando com o passar dos anos e os dois até subiram juntos no palco para tocar músicas um do outro em diferentes ocasiões, mas “We Got the Power” é a primeira vez que os dois gravam algo juntos. Damon, um dos donos do Gorillaz, sempre elogiou o trabalho de Noel, mesmo quando suas duas bandas batiam boca em público, e comemorou a presença do ex-rival em seu disco, em entrevista à rádio inglesa X: “É demais, ele é fantástico no estúdio. É bom quando você vê como alguém faz o seu trabalho. Ele é ótimo”. Na mesma entrevista, ele disse ter chamado Jenny Beth, das Savages, para “tirar um pouco da testosterona” da faixa. O curioso é que Noel não está creditado oficialmente na faixa, enquanto Jenny está.

Além de “We Got the Power”, a banda fictícia também mostrou outras músicas do novo disco em vídeos específicos, como “Saturnz Barz (Spirit House)”, com vocais do rapper Popcaan:

“Ascension”, com vocais de Vince Staples:

E “Andromeda”, com vocais de D.R.A.M.:

As quatro novas faixas foram reunidas em um clipe 360 graus dirigido por Jamie Hewlett, o outro dono dos Gorillaz:

A capa de Humanz é essa:

E essa é a relação com todas as músicas da edição simples:

“Ascension (feat. Vince Staples)”
“Strobelite (feat. Peven Everett)”
“Saturnz Barz (feat. Popcaan)”
“Momentz (feat. De La Soul)”
“Submission (feat. Danny Brown and Kelela)”
“Charger (feat. Grace Jones)”
“Andromeda (feat. D.R.A.M.)”
“Busted and Blue”
“Carnival (feat. Anthony Hamilton)”
“Let Me Out (feat. Mavis Staples and Pusha T)”
“Sex Murder Party (feat. Jamie Principle and Zebra Katz)”
“She’s My Collar (feat. Kali Uchis)”
“Hallelujah Money (feat. Benjamin Clementine)”
“We Got The Power (feat. Jehnny Beth)”

E estas são as faixas extra da edição deluxe:

“The Apprentice (feat. Rag’n’ Bone Man, Zebra Katz, and RAY BLK)”
“Halfway To The Halfway House (feat. Peven Everett)”
“Out Of Body (feat. Kilo Kish, Zebra Katz, and Imani Vonshà)”
“Ticker Tape (feat. Carly Simon and Kali Uchis)”
“Circle Of Friendz (feat. Brandon Markell Holmes)”

O grupo também apresentou-se ao vivo na sexta-feira, mostrando a íntegra do disco pela primeira vez frente ao público da casa Printworks, em Londres. Como o disco, o show estava repleto de convidados, como Noel Gallagher, Danny Brown, Pusha T, Jehnny Beth, Anthony Hamilton e De La Soul (veja a apresentação ao lado destes últimos, na faixa “Momentz”):

Mas nada de Snoop Dogg. Hmmm…

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Robert Rodriguez pode dirigir uma nova versão de Fuga de Nova York http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/25/robert-rodriguez-pode-dirigir-uma-nova-versao-de-fuga-de-nova-york/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/25/robert-rodriguez-pode-dirigir-uma-nova-versao-de-fuga-de-nova-york/#respond Sat, 25 Mar 2017 12:40:56 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3453

Quem aguenta mais remakes? Hollywood, certamente. Em vez de apostar em novas histórias e novos personagens, os grandes estúdios norte-americanos preferem insistir em adaptar histórias de outras mídias ou requentar franquias do passado como apostas cheias, em vez de buscar novos rumos para o próprio futuro. E entre as inúmeras adaptações, recriações e ressurreições previstas para um futuro próximo está a do clássico Fuga de Nova York, uma das primeiras ficções científicas distópicas a inaugurar a era da psicodelia digital que hoje nos referimos como cyberpunk. E embora a simples menção de uma nova versão do filme possa provocar sono nos fãs do original, uma nova especulação sobre um possível diretor para esta má ideia pode tornar tudo mais interessante: a 20th Century Fox, que bancou o filme de 1981, quer que Robert Rodriguez seja o novo diretor.

Fuga de Nova York é destes filmes B dos anos 80 que anteviram as transformações dos anos seguintes, além de um ótimo filme de ação. Conta a história de uma Nova York transformada em prisão de segurança máxima cujos prisioneiros tomam o próprio presidente dos Estados Unidos como refém depois que o avião presidencial cai sobre a cidade. Para resgatar o político, o governo chama um dos melhores heróis de ação daquela década, o Snake Plissken vivido por Kurt Russell, que tem menos de vinte e quatro horas para trazê-lo de volta senão uma bomba que foi injetada nele mesmo explodirá. O filme aprofunda-se na crise urbana da Nova York dos anos 70 usando a ficção científica como metáfora e traz um elenco de notáveis que reúne Lee Van Cleef, Ernest Borgnine, Adrienne Barbeau, Donald Pleasence, Isaac Hayes e Harry Dean Stanton. É um dos vários clássicos do diretor John Carpenter, que abriu caminho para outros filmes como Blade Runner, O Exterminador do Futuro, Robocop, Akira, 1984, Brazil e Videodrome, moldando um futuro bem diferente daquele previsto nos anos 60, entre Jetsons e 2001.

Controverso, Rodriguez é um dos diretores mais fiéis à fórmula do faça-você-mesmo e autor de novos e divertidos clássicos que misturam ação, thriller, comédia e horror – Um Drink no Inferno, Planeta Terror, A Prova Final, Machete, Sin City e El Mariachi são filmes que acompanharam a tendência de ultraviolência da cultura pop atual, testando limites e misturando gêneros antes pré-estabelecidos. Sua estética é irmã de seus modos de produção e ele também é conhecido por abandonar Hollywood para criar seu próprio estúdio em seu estado-natal, o Texas, onde criou a sede de seu Troublemaker Studios. Lá ele também produziu filmes voltados para o público infantil que garantiram seu sustento sem necessariamente trair suas intenções: sua série de filmes Spy Kids, Shorts e As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl traçam uma ótima introdução para a violência de desenho animado dos seus filmes adultos.

Recentemente Rodriguez voltou a flertar com Hollywood, e ele é o coprodutor e diretor de Alita: Battle Angel, adaptação do mangá de mesmo nome, ao lado de James Cameron em sua Lightstorm Entertainment. O filme, que deve estrear em 2018, é produzido pela 20th Century Fox e provavelmente esta nova proximidade está trazendo Rodriguez a bordo do remake de Fuga de Nova York, segundo o site Tracking Board, especialista em furos deste tipo.

A volta para a Nova York de Snake Plissken, imortal mercenário vivido por Kurt Russell no clássico filme de John Carpenter, no entanto, não é novidade. A Fox já vem tentando reviver o filme original há uma década, trocando de escritores e diretores sem que haja um projeto de fato em andamento. Até o final do ano passado, quando Neal Cross, criador da série Luthor, da BBC, foi confirmado como o autor da história do novo filme, que não deve ser um remake e sim um prequel. Se você não quer saber o que pode ser o novo filme, coloquei uns gifs animados do clássico de 1981 para que você não corra o risco de saber spoilers sobre a nova história.

Como Cross disse ao site The Wrap, a nova história se passa antes de Manhattan ter se tornando uma prisão a céu aberto e vamos descobrir porque Snake Plissken não se dá bem com o governo dos Estados Unidos. O filme também fala de um furacão que se aproxima da cidade e nos apresenta a um novo vilão, Thomas Newton, um playboy dono de empresas de biotecnologia e agroquímica. Ele não começa em Nova York e mostra um planeta decadente, em que 75% da população mundial ou é considerada fora da lei. O filme, no entanto, ainda nem entrou em fase de pré-produção e quando é assim tudo pode mudar.

Parece uma boa história, nem precisava ter nada relacionado a Fuga de Nova York, né? Mas Hollywood insiste.

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Às vésperas de lançar seu trabalho solo ao vivo, Mano Brown avisa que os Racionais lançam disco novo ainda este ano http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/23/as-vesperas-de-lancar-seu-trabalho-solo-ao-vivo-mano-brown-avisa-que-os-racionais-lancam-disco-novo-ainda-este-ano/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/23/as-vesperas-de-lancar-seu-trabalho-solo-ao-vivo-mano-brown-avisa-que-os-racionais-lancam-disco-novo-ainda-este-ano/#respond Thu, 23 Mar 2017 14:32:23 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3449

“Muito funk, muito soul, grandes músicos, convidados da pesada nessa festa de lançamento dia 12. É um lance que eu sempre sonhei fazer, construir os próprios arranjos, mudar no meio do percurso, solo, teclado, produção… A arte pela arte”, Mano Brown empolga-se ao telefone quando fala sobre os shows de lançamento de seu primeiro disco solo, Boogie Naipe, lançado no ano passado, e que terá suas primeiras apresentações ao vivo em maio. São três datas até agora: dia 12 de maio em São Paulo, no Citibank Hall (com abertura de Rael e Rincón Sapiência), dia 14 no Festival Bananada, em Goiânia, e dia 20 no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Mano Brown subirá ao palco com o parceiro Lino Krizz e uma banda com baixo, guitarra, bateria, teclados, sopro, percussão e backing vocals – doze músicos ajudando-o a buscar uma sonoridade que ele é afeito muito antes de conhecer o rap. Mas isso não quer dizer que ele deixou o rap – ou os Racionais MCs, grupo que lhe deu fama – em segundo plano, pelo contrário: “Os Racionais têm plano de lançar disco esse ano ainda.”

“Esse termo ‘boogie’ é utilizado há muito tempo pela música negra, desde o jazz. E também na raiz do hip hop, na época do break dance, das danças, na disco… É uma linhagem de som que eu gosto desde criança”, ele explica. Musicalmente, Boogie Naipe situa-se no final dos anos 70 e começo dos anos 80, naquela época em que a disco music começava a se metamorfosear em electrofunk, quando os teclados e pedais de efeito levavam o funk para a era digital – época em que Mano Brown saía da infância rumo à adolescência. “Eu comecei com essa sonoridade soul e funk antes do rap, eu comecei nisso. Antes do rap chegar no Brasil eu já tava na pista, acompanhando a cultura, a raça, o cabelo, a roupa, o comportamento… Mesmo sem saber da mensagem, eu já acompanhava. Pelas pessoas que me cercavam. Eu sempre sonhei em fazer música romântica desde lá. Eu queria saber tocar guitarra como o Jorge Ben, sempre gostei daquelas músicas, dos temas, das harmonias… Mas no final dos anos 80 tinha esse lance da música do protesto, tinha a necessidade de protestar, de reivindicar e eu aderi. Era prioridade pra raça, pro pessoal e eu aderi”, explica, justificando a criação dos Racionais.

“Na real, nunca tive ideia de fazer um trabalho solo, em momento nenhum da minha carreira. Sempre me perguntavam, desde lá de trás, 94, do ‘Homem na Estrada’, ‘Diário de um Detento’, ‘pô, Brown, quando é que você vai sair solo?’ Eu nunca quis sair solo em formato de hip hop como nos Racionais. Mesmo porque nos Racionais sempre fui livre pra fazer tudo que quis e fiz tudo que quis, não fui impedido por nada: por nenhuma filosofia, ideologia, por fã, nada. Sempre fiz o que quis, o Racionais sempre me deu liberdade”, ele continua.

Nova sonoridade
“O lance de fazer um disco sem os Racionais veio desse aprofundamento na soul music, na temática sobre relacionamento, sobre relações humanas, homem, mulher, família… Coisa que os Racionais também citam, mas de leve. Essa ideia começou há oito anos, quando fiz a música ‘Mulher Elétrica’, que nem é uma música romântica, mas é uma outra abordagem. Fala com o lance da Cinderela negra, que trabalha na semana e no fim de semana vai pra pista, brilha e quebra tudo… Uma Cinderela hi-tech, flertando com a fantasia, mas sem perder o engajamento. A segunda música foi ‘Dance Dance Dance’, a música que tem a participação do Seu Jorge, que aí já era um tema mais humana, a realidade de um romance… Um cara na balada, bêbado, pensando em alguém que não tá com ele, pedindo pra resgatar ele na saída da festa, que ele não queria estar lá, queria estar com ela. E depois veio ‘Lois Lane’, uma música que também flerta com a fantasia, mas sem perder o elo com a realidade, que fala de um amor de uma mulher que ele elegeu como a ‘Lois Lane’, ‘Se você quiser ser a Lois Lane eu sou seu Superman, por você eu paro um trem…’ e pá. E por aí vai tendo essas ideias…”

A busca por essa sonoridade fez inclusive que ela entrasse no disco mais recente dos Racionais, Cores e Valores, lançado sem aviso no fina de 2014, depois de mais de uma década de espera. “Tem duas músicas que foram lançados no disco Cores e Valores, ‘Corações Barrabás’ e ‘Eu Te Proponho’, que são a cara do Boogie Naipe. E eu coloquei no Racionais e pra mim foi estrategicamente bom porque abriu espaço pra essa nova abordagem que eu faço com a música. Essas músicas dentro dos Racionais abriram espaço e não causou tanto estranhamento.”

“É interessante, eu tô curtindo muito esse momento da minha vida, porque os Racionais é tudo na minha vida, foi o que abriu o espaço, é a força, o peso, mas agora eu tenho esse lado que eu posso me divertir. Eu tô me divertindo fazendo isso, tô sendo feliz, fazendo músicas com essa temática. Eu tô curtindo”, comemora. Mas isso não quer dizer que os Racionais estão parados enquanto o Brown está solo.

“Não tem como parar os Racionais”
“Racionais é uma potência. Não tem como parar os Racionais. E você sabe que os Racionais tem esse povo que acompanha que é mais dono dos Racionais do que eu. Hoje em dia os Racionais já não me pertence, se um dia pertenceu, já não é mais meu. Hoje em dia as pessoas dão palpite na roupa que eu tenho que usar, no que eu tenho que falar, no que eu tenho que cantar e eu às vezes discordo, tenho minha liberdade acima de qualquer coisa. Mas com o Boogie Naipe eu quebrei as correntes. As pessoas não sabiam o que eu ia fazer, não sabia nem por onde começar, então não podiam opinar muito. Nos Racionais, as pessoas têm as músicas mais antigas, querem tudo aquilo de novo, repetir aquele discurso de novo, querem que o Brasil volte a 1996, que o Brown volte a ter vinte e cinco anos. Mas você tem que acompanhar o mundo, senão ele te engole.”

Foi justamente o que o grupo fez ao lançar Cores e Valors. “Esse disco nasceu no meio de uma entressafra nossa, porque a gente acabou de entrar na época moderna – das mídias sociais, dos videoclipes, dessas coisas – agora. A gente não ligava para isso. Os Racionais era mais uma gangue do que um grupo de música. A música era o vento que levava, a gente não divulgava. Hoje em dia mudou muito, todo mundo quer cantar, o meio artístico é concorrido, competitivo e a gente entende isso e tivemos que aderir. O disco Cores e Valores é uma transição inclusive para o Boogie Naipe.” Brown inclusive diz que não irá mais realizar os clipes que pretendia fazer das músicas anteriores, sendo que o primeiro deles foi feito em parceria com o produtor Kondzilla. O foco agora é o novo trabalho.

“Edy Rock já tá fazendo música, eu tô fazendo música, o (Ice) Blue tem muitas músicas…”, enumera. “O lance dessa nova época é porque também a gente tem bem mais condições de fazer música, antigamente era mais difícil produzir, montar um estúdio, tudo era muito caro, restrito, para poucos. Você só podia entrar em estúdio na época de gravação mesmo, era tudo caro, você tinha que agendar muito antes. Hoje em dia todo mundo tem estúdio em casa, a gente tem os nossos, a gente faz as pré-produções na nossa quebrada mesmo pra depois ir pra finalização… Tem mais condições. As músicas estão saindo em série, tem muita música saindo aí, entendeu? Nos últimos quatro anos se somar Boogie Naipe com Racionais são trinta e sete músicas novas na música. Fora dezesseis faixas que já estão prontas e poderiam ter entrado no Boogie Naipe. Tenho um outro disco praticamente pronto.”

Fora a expectativa pelo próximo disco e pelos shows, Brown também anda atento sobre a atual situação política do Brasil, principalmente no que diz respeito à polarização entre as pessoas. “Ainda estamos entendendo o que é democracia. Democracia é você saber que tem gente que pensa diferente de você! Pra que time você torce? Você poderia ter um irmão palmeirense, mas você não ia expulsar o cara da sua casa. Você agride as pessoas que votam em um partido diferente? Essa radicalização é mais desespero e medo, o Brasil tem que amadurecer essa democracia.” Se isso pode virar tema de música é outra história. Mas Brown está de olho.

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2017: o ano do Gorillaz? http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/22/2017-o-ano-do-gorillaz/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/22/2017-o-ano-do-gorillaz/#respond Wed, 22 Mar 2017 23:17:25 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3445

Nesta quinta-feira, finalmente Damon Albarn revela novidades sobre o novo disco do Gorillaz, a banda de desenho animado que criou ao lado do autor da HQ Tank Girl, Jamie Hewlett. Foi revelado nesta quarta-feira, pelo YouTube, que o vocalista do Blur é o convidado do programa do apresentador Pete Dalton, mais conhecido como MistaJam, na rádio inglesa BBC no dia 23 de março, trazendo novidades sobre a fase 4 do grupo fictício. A transmissão poderá ser acompanhada ao vivo no site da BBC e acontece a partir das sete e meia desta quinta em Londres – ou seja, poderemos ouvir a transmissão a partir das quatro e meia da tarde, horário de Brasília.

Mas já sabemos de várias novidades sobre o novo disco da banda. Entre elas, já sabemos que o foco do disco será na personagem Noodle e que o disco terá participações de Snoop Dogg e De La Soul, mas no início da semana uma relação de 26 faixas foram registradas na editora inglesa Phonographic Performance Ltd de uma vez só, o que chamou atenção do canal gorillaz.northamerica, que pinçou estes seguintes títulos, em ordem alfabética, com uma lotada lista de convidados:

“Andromeda (Feat. D.R.A.M.)”
“Ascension (Feat. Vince Staples)”
“Busted And Blue”
“Carnival (Feat. Anthony Hamilton)”
“Charger (Feat. Grace Jones)”
“Circle Of Friendz (Feat. Brandon Markell Holmes)”
“Halfway To The Halfway House (Feat. Peven Everett)”
“Hallelujah Money (Feat. Benjamin Clementine)”
“Interlude: Elevator Going Up”
“Interlude: New World”
“Interlude: Penthouse”
“Interlude: Talk Radio”
“Interlude: The Elephant”
“Interlude: The Non-conformist Oath”
“Let Me Out (Feat. Mavis Staples & Pusha T)”
“Momentz (Feat. De La Soul)”
“Out Of Body (Feat. Kilo Kish, Zebra Katz & Imani Voshana)”
“Saturnz Barz (Feat. Popcaan)”
“Sex Murder Party (Feat. Jamie Principle & Zebra Katz)”
“She’s My Collar (Feat. Kali Uchis)”
“Strobelite (Feat. Peven Everett)”
“Submission (Feat. Danny Brown & Kelela)”
“The Apprentice (Feat. Rag’n’bone Man, Zebra Katz & Ray BLK)”
“Ticker Tape (Feat. Carly Simon & Kali Uchis)”
“We Got The Power (Feat. Jehnny Beth)”

Temos a diva soul Mavis Staple, a musa disco Grace Jones, o rapper inglês Popcaan, o grupo De La Soul, o cantor Anthony Hamilton, mas nem sinal do Snoop! O fiel da balança é a faixa “Hallelujah Money (Feat. Benjamin Clementine)”, que o grupo ja havia revelado no dia da posse de Donald Trump:

Mas o disco parece ser apenas uma parte de um plano muito maior, que ainda inclui a primeira versão em vinil para o grupo Demon Days, de 2005, encomendado ao serviço Vinyl Me, Please (mais informações neste link e no vídeo abaixo):

E o grupo também anunciou o festival Demon Dayz, com curadoria e apresentação ao vivo da banda, no dia 10 de junho deste ano (mais informações neste link):

Isso sem contar que a conta do Snapchat do grupo está anunciando uma contagem regressiva. Se o plano de Damon Albarn der certo, 2017 será o ano do Gorillaz. A ver.

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Morto aos 90 anos, Chuck Berry apresentou o rock’n’roll para as massas http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/18/morto-aos-90-anos-chuck-berry-apresentou-o-rocknroll-para-as-massas/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/18/morto-aos-90-anos-chuck-berry-apresentou-o-rocknroll-para-as-massas/#respond Sun, 19 Mar 2017 00:11:23 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3442

Há referências sobre o termo “rock and roll” nos anos 20 e desde antes da quebra da bolsa de valores norte-americana em 1929 que brancos e pretos caipiras começavam a aproximar o country e o rhythm’n’blues pelo ritmo frenético e pelo rebolado na dança. O groove aproximou duas etnias que viviam separadas e a eletricidade uniu dois cânones musicais distintos em uma novidade que só foi encontrar eco comercial nos anos 50. E por mais que Elvis Presley tenha sido o principal nome a fazer aquele novo estilo musical transformar-se em fenômeno, foi Chuck Berry, que morreu neste sábado aos 90 anos, quem começou aquilo tudo.

Não dá para dizer que é o pai do rock (talvez o diabo, mas isso é outra história), mas Chuck Berry sem dúvida estava na sala de parto. Elvis já havia dado seus primeiros passos fonográficos, mas o primeiro rock a se tornar um sucesso nacional foi “Maybellene”, em 1955, um ano antes de Elvis Presley tornar-se mania. Na verdade, aquele primeiro single tinha tudo que caracterizaria um gênero que ainda não tinha sido batizado.

Lançado pela Chess Records a partir de uma dica de Muddy Waters, o disco sintetizaria tudo que seria associado ao rock’n’roll nos anos seguintes: ritmo frenético, canções curtas e rápidas, foco na juventude, no consumismo e em símbolos de status, o timbre sujo da guitarra elétrica, um riff de apresentação. A letra descreve uma perseguição entre dois carros – um V8 Ford que perseguia um Cadillac Coupe DeVille – e a história de um amor traído. Chuck Berry, inspirado por ídolos do entretenimento negro como o band leader Louis Jordan, o guitarrista Charlie Christian (o primeiro guitarrista elétrico) e o próprio Muddy Waters, adaptou um velho country do final dos anos 30 (“Ida Red”, imortalizado por um dos primeiros grupos de rock antes da invenção do gênero, Bob Wills and his Texas Playboys) para uma nova cultura que ele começou a perceber nascer a partir do pós-guerra: consumista, competitiva, jovem e querendo diversão. Viu o nascer do adolescente como público-alvo e formatou seu blues para aquele novo público. Acertou na mosca. “Maybellene” vendeu mais de um milhão de cópias só no ano que foi lançada.

Chuck Berry preparou o terreno não apenas para Elvis Presley, Buddy Holly, Little Richard, Fats Domino, Jerry Lee Lewis, Johnny Cash e outros pioneiros da primeira geração do rock, mas também deu a cartilha de mão beijada para toda a segunda geração – é impossível imaginar a invasão britânica dos EUA formada por Beatles, Rolling Stones, Animals, Who e Cream sem a figura de Buddy Holly. Quase todas as bandas da primeira safra dos anos 60 gravou versões de clássicos de Chuck – como “Roll Over Beethoven”, “Rock and Roll Music” e “Johnny B. Goode” – como também foram influenciados por sua técnica ao instrumento. Ao praticamente forjar o conceito de riff de guitarra – a frase inicial que faz o público reconhecer a música antes da entrada da canção em si -, não é exagero dizer que Chuck Berry é o primeiro guitar hero da história.

E também um dos primeiros bad boys da cultura pop. Ao contrário de Elvis, Chuck não escondia sua má índole e, bom malandro, fazia que não era com ele. Mas foi enquadrado ainda na adolescência por assalto a mão armada e inevitavelmente entrava em confusões envolvendo dinheiro, armas e a polícia. Gangsta avant-la-lettre, ameaçou John Lennon a dar-lhe os créditos por “Come Together”, que teria sido surrupiada de “You Can’t Catch Me”, e enquadrou os Beach Boys quando ouviu sua “Sweet Little Sixteen” em “Surfin’ U.S.A.”. Não levava desaforo pra casa e não temia por sujar sua reputação.

Sua fama de mau fazia parte de seu senso de showbusiness. Ele sabia posar para a foto, dar seu melhor sorriso, inventou o “passo do pato” para sublinhar seus solos de guitarra ao vivo. Um popstar que construiu a própria reputação e viveu como quis. Não à toa suas músicas e mensagens sobreviveram icônicas em momentos centrais do pop moderno, como no Pulp Fiction de Quentin Tarantino, na principal cena de De Volta para o Futuro ou no primeiro disco dos Simpsons. Chuck Berry foi quem apresentou o rock’n’roll para as massas – pioneiro ao forjar um gênero musical que tornou-se um estilo de vida.

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Parque de Guerra nas Estrelas na Disney terá AT-ATs em tamanho real! http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/17/parque-de-guerra-nas-estrelas-na-disney-tera-at-ats-em-tamanho-real/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/17/parque-de-guerra-nas-estrelas-na-disney-tera-at-ats-em-tamanho-real/#respond Fri, 17 Mar 2017 11:51:43 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3435

Lógico que a principal expectativa para este ano em relação a Guerra nas Estrelas é o lançamento do Episódio VIII da saga Skywalker que, esperamos, nos conte quem são, na verdade, os mencionados últimos Jedi. Mas não há como desviar o olhar da construção dos parques temáticos dedicados ao universo imaginado por George Lucas durante os anos 70. Principalmente quando a própria Disney revela um vídeo mostrando a construção de AT-ATs em tamanho real.

Clássicos tanques andadores de inúmeras batalhas em uma galáxia muito distante, os All Terrain Armored Transport (nome completo dos bichos) são apenas uma das inúmeras atrações materializadas nos dois parques de diversões dedicados ao tema – um em Orlando, na Flórida, e outro em Anaheim, na Califórnia -, que serão inaugurados em 2019. Anunciados há dois anos (as imagens abaixo são os primeiros esboços deste parque), os parques deverão ter uma cantina cheia de robôs e alienígenas, uma réplica (dirigível) da Millenium Falcon, recriações de cenários em Hoth, Endor e Tattooine, além de referências aos novos filmes.

Duas convenções este ano devem contar mais novidades sobre os parques, em suas cidades específicas. A primeira delas, a Star Wars Celebration, que desta vez acontece em Orlando entre os dias 13 e 16 de abril, e deverá trazer mais novidades sobre o filme que será lançado no final deste ano, o primeiro filme, er, solo de Han Solo, além de novidades sobre outros filmes específicos fora da saga principal e alguma coisa sobre o Episódio IX. A outra convenção, a D23, acontece em Anaheim entre os dias 14 e 16 de julho, mostrando novidades sobre tudo que é Disney, que inclui, além de Guerra nas Estrelas, novidades sobre os filmes da Marvel, da Pixar, da própria Disney e, claro, os parques temáticos.

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E se Matrix 4 for um prequel com a história de Morpheus? http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/16/e-se-matrix-4-for-um-prequel-com-a-historia-de-morpheus/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/16/e-se-matrix-4-for-um-prequel-com-a-historia-de-morpheus/#respond Thu, 16 Mar 2017 14:36:27 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3432

E a especulação se confirmou nesta quarta-feira: a Warner vai realmente mexer na trilogia Matrix em um novo filme. O que a princípio era apenas uma vaga possibilidade cogitada a Keanu Reeves como um exercício de imaginação confirmou-se quando o site Hollywood Reporter noticiou que o estúdio Warner irá voltar a usar os personagens da trilogia criada pelos irmãos – hoje irmãs – Wachowski.

A notícia, no entanto, é vaga: o estúdio não disse se o novo filme seria uma continuação, um prequel ou uma reinvenção da saga adaptada para os dias de hoje. Não a menor menção sobre qualquer um dos integrantes do elenco original ou das próprias Wachowski (condição básica para Reeves voltar ao papel de Neo). As únicas referências ditas até agora colocam nomes como o escritor Zak Penn (que escreveu o segundo X-Men e a primeira versão de Os Vingadores) e ator Michael B. Jordan (de Creed) como potencialmente envolvidos com o novo filme.

O fato de Jordan estar envolvido com o filme deu origem a especulações que o novo filme contaria a história de Morpheus, o personagem vivido por Laurence Fishburne, sobre como ele poderia ter descoberto a Matrix e se tornado o guru do futuro escolhido, Neo. Esta especulação, no entanto, mexe com o centro da escolha da Warner em voltar à franquia. Talvez o interesse do estúdio não seja apenas continuar a história da trilogia que no mês que vem completa 18 anos (faz tempo, né? Telefones fixos e orelhões ainda eram utilizados normalmente), mas de criar todo um multiverso a partir da história original, imitando o sucesso da nova fase de Guerra nas Estrelas, dos heróis da Marvel ou do mundo de Harry Potter, que renderão filmes, livros, desenhos e parques temáticos por muitos anos ainda.

O problema é que a Warner é o mesmo estúdio que aos poucos vem assassinando a reputação da DC justamente na tentativa de criar um multiverso desta natureza, portanto resta saber se Matrix pode ressuscitar ou virar só um produto multimilionário sem alma.

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Imagine se alguém editasse Breaking Bad para que ela virasse um filme de duas horas – alguém fez isso! http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/13/imagine-se-alguem-editasse-breaking-bad-para-que-ela-virasse-um-filme-de-duas-horas-alguem-fez-isso/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/13/imagine-se-alguem-editasse-breaking-bad-para-que-ela-virasse-um-filme-de-duas-horas-alguem-fez-isso/#respond Mon, 13 Mar 2017 12:03:17 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3429

Quantos seriados assistimos pensando que alguns episódios talvez pudessem ser cortados ao meio ou em alguns casos eliminados para que a história pudesse ganhar em agilidade? Quantas séries épicas com várias temporadas e dezenas de episódios poderiam se beneficiar de um formato mais enxuto e direto como um filme com algumas horas? Breaking Bad é uma das primeiras séries a ser submetidas a este tratamento e foi reduzida a um filme de duas horas, editado por um fã. Se ficou bom? Confira você mesmo:

Poderia ter ficado melhor? Pior? Diferente? Tanto faz. Há toda uma discussão sobre formatos e pós-produção que pode ser iniciada a partir deste exemplo – e quaisquer outros tipos de remixes existentes hoje em dia – que deveria estar no centro de nossa cultura atual.

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Há 50 anos, The Velvet Underground and Nico colidia a arte com o pop e mudava a cultura ocidental http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/12/ha-50-anos-the-velvet-underground-and-nico-colidia-a-arte-com-o-pop-e-mudava-a-cultura-ocidental/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/03/12/ha-50-anos-the-velvet-underground-and-nico-colidia-a-arte-com-o-pop-e-mudava-a-cultura-ocidental/#respond Sun, 12 Mar 2017 12:52:02 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=3422

Um disco mudou a história da cultura ocidental em 1967. Ao elevar a discussão sobre a música popular para outro patamar, ele obrigou as próximas gerações de músicos e artistas pop a terem mais consciência sobre seus gestos e propósitos, despertando um instinto artístico que ia muito além de canções radiofônicas, refrões pegajosos e riffs memoráveis. A partir deste único disco, o impacto adolescente do rock murchava inofensivo, tornado caricato quase que instantaneamente. E sua influência transcendeu para além da música, provocando impactos decisivos em áreas tão diferentes quanto o cinema, as artes plásticas, as performances e o teatro. É o momento exato em que a música pop se reconhece como obra de arte e vice-versa, quando não parece haver distinção entre o disco e a banda, o cantor e a canção. Um disco lançado no mesmo ano do igualmente influente Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles, um divisor de águas na carreira da banda e na música pop. Mas o lançamento de The Velvet Underground and Nico, o disco de estreia do Velvet Underground, teria uma importância ainda maior para a cultura que veríamos nas décadas seguintes. Um disco que começou com um encontro de pólos distintos, uma amizade que começou com um pacto.

Duas personalidades opostas, Lou Reed e John Cale não poderiam ter origens mais diferentes. Reed, judeu nova-iorquino, havia cantado em grupos de doo-wop na adolescência e foi submetido a eletrochoques nessa mesma época por questões psiquiátricas, trabalhava como compositor contratado da microgravadora Pickwick tentando emplacar um hit ao mesmo tempo em que estudava literatura na universidade Syracuse com o poeta Delmore Schwartz. Tinha aspirações pop e literárias simultaneamente, mas não cogitava as duas possibilidades como uma só até encontrar o galês John Cale. Erudito e moderno, Cale era um fino aluno de música contemporânea e mudou-se do Reino Unido para Nova York para aprofundar-se nesta área, trabalhando com Theatre of Eternal Music do compositor La Monte Young. Também participou da primeira execução pública da composição de “Vexations”, de Erik Satie, que durou 18 horas, ao lado de seu mestre John Cage. Os dois seguiam rumos opostos até que, a partir do sucesso monumental dos Beatles, perceberam que poderiam aprofundar-se em suas obsessões se cruzassem para o outro lado.

O encontro dos dois selou uma missão: fazer música sem fazer concessões. Um olhava para o outro como uma fronteira a ser cruzada: Reed era uma máquina de fazer hits pop mesmo que nenhum deles tenha feito sucesso, apaixonado pelo rock’n’roll e pela eletricidade musical que optava por transcender os horizontes ingênuos do pop da época. Cale havia percebido no pop um limite que poderia ser transposto pela música erudita como uma forma de atingir mais pessoas naquela cruzada artística que parecia restrita a poucas pessoas. Reed pegou uma guitarra e Cale empunhou sua viola, cujas cordas foram trocadas por cordas de aço, dando ao instrumento um timbre estridente e tenso distante de sua natureza sonora original.

Aos poucos cercaram-se de músicos ímpares. O guitarrista Sterling Morrison equilibrava-se entre a tensão monocórdica e riffs velozes, inventando uma forma de tocar seu instrumento completamente nova a partir do duelo de personalidades musicais de Reed e Cale. A baterista Maureen “Moe” Tucker usava sua falta de habilidade com o instrumento como uma virtude, transformando a percussão de seu som em um estrondo único, um bate-estaca que funcioanva como um metrônomo da destruição. Este peso fez que ela trouxesse latas de lixo para seu kit de bateria, aumentando ainda mais o impacto do som.

Juntos, os quatro embrenhavam-se por fronteiras musicais estranhas, guiados pelas letras de Lou Reed, elas mesmas explorando universos virgens na canção popular. Reed começara cantando a estranheza e o mal estar, sensações alheias à música pop dos anos 60, e a partir deste rumo embrenhava para temas ainda mais extremos, como o uso de drogas, o sexo grupal, o sadomasoquismo, o submundo. O próprio nome da banda – The Velvet Underground – havia saído de um livro barato que um amigo da banda, Tony Conrad, havia encontrado jogado na rua, que descrevia atividades sexuais consideradas tabu à época. O título do livro lembrara a banda do conceito de cinema underground ao mesmo tempo em que a palavra “veludo” funcionava como um contraponto à barra pesada.

Enquanto os Beatles mencionavam ficar “altos” no lado B de Help! e os Rolling Stones sugeriam roubar anfetaminas do armário de remédios dos pais em “Mother’s Little Helper”, o Velvet Underground descrevia uma suruba entre travestis e marinheiros em “Sister Ray”, batizavam uma música com o título do clássico do sexo masoquista “Venus in Furs”, falavam de tráfico de drogas em “Waiting for the Man” e na paranoia e ressaca moral na balada “Sunday Morning”. As aspirações literárias de Lou Reed chegavam ao extremo quando o compositor tentava descrever a sensação de estar torpe de drogas em uma canção de dois acordes batizada simplesmente de “Heroin”.

Lou Reed, John Cale, Maureen Tucker, Nico e Sterling Morrison

Aquele universo musical atingiu o artista Andy Warhol em cheio. Pai da chamada pop art, Warhol era um provocador que insistia que as artes plásticas estavam presos em uma encruzilhada entre a estética e o comércio. Ao insistir que a arte havia se transformado em produto, começou vendendo fotos de acidentes de trânsito como se fossem obras de arte para em seguida utilizar itens de consumo em ícones artísticos, usando latas de sopa e imagens de Elvis Presley e Marilyn Monroe como suas musas. A ironia pós-moderna de Warhol era idolatrada por uma elite artística de Nova York e aos poucos seu ateliê – chamado cinicamente de Factory (fábrica) – tornava-se referência na metrópole norte-americana – e no mundo. Quando Warhol ouviu o Velvet Underground, percebeu que ambos habitavam a mesma fronteira e dispôs-se a apadrinhar o grupo.

Trouxe o Velvet para a Factory e lá percebeu que o grupo tinha uma falha. Todos vestiam-se de preto e tocavam de óculos escuros à noite, formando o protótipo de uma gangue musical que seria a origem de todas as bandas punk que vieram a seguir. Warhol sentia falta da luz. De um contraponto claro e brilhante que ofuscaria aquela escuridão evocada pelo quarteto. E encaixou a atriz alemã Nico naquele grupo.

Nico era uma história à parte. Uma deusa germânica, loira de sotaque pesado e timbre grave, a atriz e modelo era a musa de onde quer que fosse. Apareceu no Dolce Vita de Fellini, teve um filho com o ator Alain Delon, foi inspiração para Brian Jones, dos Rolling Stones, e Bob Dylan e enfiou-se na trupe nova-iorquina de Warhol. Era exatamente a luz o que Andy achava que o Velvet precisava e, ao encantar tanto Reed quanto Cale, não encontrou dificuldade em entrosar-se com a banda, ganhando, inclusive, músicas que seriam capitais na estreia da banda, como “Femme Fatale”, “I’ll Be Your Mirror” e “All Tomorrow’s Parties”.

Juntos, Velvet Underground e Nico eram a trilha sonora de um novo espetáculo de Andy Warhol, que ele havia começado no dia 13 de janeiro de 1966, chamado Up-Tight!, em que o grupo tocava suas músicas enquanto integrantes da trupe de Warhol – como o dançarino Gerard Malanga e a atriz Edie Sedgwick – dançavam à frente do palco, com filmes de Andy projetados sobre eles. O Up-Tight! metamorfoseou-se no show Exploding Plastic Inevitable, que tornou-se uma atração itinerante, inclusive saindo de Nova York (com Nico ao volante do ônibus da turnê). Os shows causaram burburinho na intelligentsia nova-iorquina e o lançamento de um disco era inevitável.

The Velvet Underground and Nico produced by Andy Warhol foi lançado no dia 12 de março de 1967, depois de diversas gravações feitas no ano anterior. Apesar do nome do disco explicitar a produção de Warhol, o artista plástico foi mais o provocador do disco do que seu produtor de fato, crédito que ficou, na verdade, com o mítico Tom Wilson, que entraria para a história como produtor dos discos mais clássicos de Bob Dylan, da fase áurea de Simon & Garfunkel, dos primeiros discos de Frank Zappa e por clássicos de Sun Ra. Wilson também foi visionário ao puxar o disco para sua gravadora, o selo Verve da MGM Records, depois que ele foi dispensado pela Atlantic (que não gostou das referências às drogas) e pela Elektra (que não gostou do som da viola de Cale). E além de ter tornado o disco possível, Warhol também assinou sua antológica capa, colocando a icônica banana sob um fundo branco que, em sua versão original, podia ser “descascada”, com o adesvio da casca amarela colado sobre uma pervertida versão rosa da fruta sem casca.

O clássico começa com a bucólica “Sunday Morning”, cuja doce melodia esconde uma letra sobre ressaca e paranoia, e descamba em seguida na nervosa “Waiting for the Man”, uma canção de ritmo martelado que espera a chegada do traficante de drogas. “Femme Fatale”, escrita para Nico, apresenta a vocalista em terceira pessoa, numa letra que descreve sua presença de musa implacável. A hipnótica “Venus in Furs” segue o tenso lado A com um drone sonoro barulhento, entrecortado por chibatadas elétricas da viola de Cale, numa letra inspirada no livro homônimo de Leopold Von Sacher-Masoch. “Run Run Run” aguça um clima frenético ao referir-se a anfetaminas, antes do lado A do disco terminar com a monumental “All Tomorrow’s Parties”, composta com apenas um acorde e cantada de forma sisuda por Nico – uma música que parecia retratar a vibração da Factory de Warhol, embora Reed a tenha composto antes de conhecê-la.

O lado B começa sem trégua com “Heroin”, uma das músicas mais sensacionais da história do rock, com seus sete minutos que vão do sussurro ao delírio, da calmaria ao transe, tentando retratar o barato da droga que a batiza. Ao vivo, a música chegou a ter versões que duravam mais de vinte minutos e era um dos grandes momentos do Exploding Plastic Inevitable, quando Malanga simulava injetar a droga em público. O soul “There She Goes Again” começa sampleando a introdução de “Hitch Hike”, que Marvin Gaye havia composto cinco anos antes, regravada anos depois pelos Stones, e é a faixa mais inofensiva do disco. Nico reparece pela última vez na narcisista “I’ll Be Your Mirror”, que antecipa as duas jam sessions barulhentas que encerram o álbum, “The Black Angel’s Death Song” e “European Son”, que exploravam os limites do barulho para muito além da canção.

O disco não foi um sucesso comercial e só apareceu na parada dos discos mais vendidos da Billboard no final de 1967, mas isso não impediu seu impacto artístico – pelo contrário, apenas ampliou sua longevidade estética. As onze músicas que compõem The Velvet Underground and Nico influenciaram – e influenciam até hoje – diferentes gerações de músicos e artistas. Seus primeiros filhotes foram os ingleses do glam rock – Bowie, Roxy Music e T-Rex têm grande débito para com a banda e, especificamente, este disco. Brian Eno, do Roxy Music, é autor da clássica frase que diz que “todas as 30 mil pessoas que compraram o primeiro disco do Velvet montaram uma banda”. E o aspecto faça-você-mesmo do grupo é crucial para entendermos o movimento punk global.

The Velvet Underground and Nico também é o disco cult em essência, aquele antissucesso comercial que ganhou fama e força com o passar dos anos. Mas, mais do que isso, é a obra que fez a cultura pop e a grande arte olharem uma para a outra com um estranhamento que tornou-se encanto, principalmente quando uma percebeu que pode tornar-se a outra, mudando assim o curso da cultura ocidental.

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