Blog do Matias http://matias.blogosfera.uol.com.br A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Fri, 15 Dec 2017 22:19:23 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Há 25 anos, Dr. Dre reinventava o rap com a obra-prima The Chronic http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/15/ha-25-anos-dr-dre-reinventava-o-rap-com-a-obra-prima-the-chronic/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/15/ha-25-anos-dr-dre-reinventava-o-rap-com-a-obra-prima-the-chronic/#respond Fri, 15 Dec 2017 22:03:55 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4222

Andre Romelle Young tinha parcos 27 anos quando compôs seu trabalho mais sólido e uma das maiores obras-primas da música moderna há um quarto de século. Quando The Chronic chegou às prateleiras das lojas de disco dos Estados Unidos no dia 15 de dezembro de 1992, o jovem Dr. Dre já era um veterano na cena do hip hop californiano e, sem exagero, uma das pedras fundamentais de sua fundação. Mas o lançamento de seu primeiro disco solo, com seu rosto estampado numa capa que imitava uma marca conhecida de papel para cigarros e a esverdeada folha de maconha em seus rótulos, não apenas redefiniu o rap como principal revolução cultural do final do século 20 como estabeleceu o nome de Dre como um dos principais players da indústria fonográfica mundial.

Criada nos subúrbios de Nova York no final dos anos 70, a cultura hip hop rapidamente espalhou-se por todo o planeta, principalmente para grandes cidades que viam sua decadência retumbar entre drogas e violência. Mas Los Angeles, o polo oposto da influência nova-iorquina na cultura norte-americana, parecia o cenário completamente oposto para aquela nova transformação que mudava lentamente a cara do planeta. Sem arranha-céus e ruelas escuras, L.A. é uma cidade de largas avenidas e toda ostentação radical dos pioneiros do rap – que usavam joias, jaquetas de couro e correntes de ouro como uma forma de afirmar sua importância – parecia juvenil perto da influência de Hollywood e da cultura cinematográfica na maior cidade do estado da Califórnia. Era exatamente como fazer uma moda paulista pegar no Rio de Janeiro.

E lá estava Dr. Dre desde o início, agitando festas de electro equivalente às que Afrika Bambaataa agitava na costa leste. Mas desde o início ele sabia que era preciso criar uma sonoridade própria que distinguisse o som de sua cidade como antítese à do berço do rap. Começou a discotecar e rimar em alguns clubes de funk pela cidade e aos poucos incorporava a sonoridade de papas do gênero como Parliamente e Funkadelic para as batidas repetitivas daquele novo gênero. Adotou o apelido de Dr. J, mas logo mudou para seu pseudônimo atual, quando conheceu Antoine Carraby, que atendia pelo nome de DJ Yella, e começaram a trabalhar juntos, fundando, em seguida, o coletivo World Class Wreckin’ Cru. Em 1985, Dre lançou seu primeiro single solo, “Surgery“, que já dava as bases da sonoridade minimalista e grave que formam a base de sua musicalidade.

Mas o principal passo de sua carreira seria dado no ano seguinte, quando, ao lado de O’Shea Jackson (Ice Cube), Eric Wright (Eazy-E), Lorenzo Patterson (MC Ren) e Kim Nazel (Arabian Prince) e também do DJ Yella, fundou o grupo N.W.A., que mudaria a cara do rap mundial. Sigla para Niggas Wit Attitude, o grupo era o equivalente oposto ao nova-iorquino Public Enemy, principalmente por sua arrogância e violência. Enquanto o grupo de Chuck D e Flavor Flav levantavam palavras de ordem e denunciavam as agressões do sistema, o N.W.A. quebrava tudo por dentro, com letras que faziam apologia ao crime e à violência, além de bater de frente com o estado e peitar racistas. Seu single “Fuck tha Police”, lançado em 1988 e carro-chefe de seu disco de estreia, Straight Outta Compton, causou polêmica, provocou censura e até uma reação do FBI, que escreveu uma carta institucional para o grupo reclamando da atitude antipolicial demonstrada no single.

Musicalmente, o N.W.A. também era o oposto do rap da costa leste. Grave e menos frenético, seus instrumentais eram compostas por poucos samples, que criavam bases lentas e tensas, em que baixos e teclados elétricos conviviam com sirenes, apitos, guinchos e ruídos eletrônicos. Era uma forma de emular a paisagem horizontal da cidade ao mesmo tempo em que celebrava sua natureza sossegada. Mesmo as músicas mais agressivas tinham menos batidas por minuto que a maioria dos raps daquele período.

Dr. Dre

Ao impor-se como antítese do rap de Nova York, o N.W.A. criou um dos principais parâmetros da história do rap, o gangsta rap, cujas referências musicais vêm todas do trabalho de Dr. Dre à frente de seu grupo mais bem sucedido. Este encerrou suas atividades em 1991, logo após a saída de Ice Cube e o lançamento do disco Efil4zaggin, deixando o caminho livre para Dre contar a história de sua vida.

The Chronic não é apenas “A crônica” como seu título parece insinuar, mas também “a maconha”, na gíria de Los Angeles. A erva surge não apenas como uma declaração política mas também como uma decisão estética – a lentidão provocada pelo consumo da maconha parecia explicar o clima mais largado e suave que predomina pelas dezesseis faixas do disco. A marijuana está estampada até mesmo na capa do disco, que recria o rótulo de uma popular seda usada para enrolar baseados no início dos anos 90 chamada Zig Zag.

Rótulo da marca de papel para cigarros Zig Zag que inspirou a capa de The Chronic

Mas não era um disco sobre maconha. A planta dava apenas o tom determinado no decorrer do disco, como se seu aroma pudesse espalhar-se por todas as faixas, impregnando suas intenções logo nos primeiros beats. Se o N.W.A. era um programa policial de TV do ponto de vista contrário ao da polícia, The Chronic era um filme, um longa metragem sobre o momento da vida em que Dr. Dre atravessava.

Um dos principais produtores da história, Dre também era visto como um Midas musical. Quincy Jones de si mesmo, ele vai lentamente construindo sua reputação da mesma forma que compõe suas próprias músicas. E depois de trazer o rap para a costa oeste norte-americana e mudar a cara do gênero com o impacto violento do N.W.A., ele reinventava mais uma vez sua própria musicalidade com teclados agudos, beats cada vez mais pesados e letras contundentes – batendo em todos que pudessem atravessar seu caminho. Ao seu lado, revela seu principal coadjuvante e um dos inúmeros talentos que descobriu em sua jornada: Snoop Dogg.

O equilíbrio entre os sermões implacáveis da voz grave de Dre e a manha preguiçosa de Snoop dá ao disco um ar de filme policial dos anos 70, reforçado pelos samples utilizados pelo produtor (Donny Hathaway, Ohio Players, Parliament, Gil Scott-Heron, Joe Tex, Solomon Burke, Isaac Hayes, Trouble Funk George Clinton, Bill Withers, Leon Haywood e até Led Zeppelin e Malcolm McÇLaren), cada vez mais cirúrgico. Em seu primeiro disco solo, ele prefere ater-se a bases irresistíveis e refrões pegajosos em vez de atropelar o ouvinte com vociferando insultos musicais e disparando referências. O ar sossegado do disco também é parente dos velhos westerns e assim Dre recria toda a cultura californiana de um século anterior nos subúrbios de L.A. O novo velho oeste é um filme noir ambientado na favela.

Músicas como “Nuthin’ but a ‘G’ Thang”, “Fuck wit Dre Day (And Everybody’s Celebratin’)”, “Let Me Ride”, “Deeez Nuuuts” e “A Nigga Witta Gun” são marcos da história do rap e funcionam tanto sozinhas quanto no contexto principal do disco, que costura as faixas como se contasse uma história, inaugurando um formato que até hoje é utilizado pelos principais rappers do mundo. O impacto do lançamento do disco foi instantâneo e em meses o disco já tinha atingido o triplo disco de platina, equivalente a três milhões de discos vendidos. Não apenas lançou a carreira de Snoop Dogg como a de vários outros rappers menores que participaram do álbum, como Kurupt, Nate Dogg, Daz Dillinger e Warren G, criando um novo gênero que aos poucos foi sendo apelidado de G-funk, pois era menos agressivo que o rap produzido na época. Mas aos poucos o que poderia ser um retorno do funk acabou moldando todo o rap que veio a seguir – e não é exagero dizer que a carreira de artistas como Jay-Z, Kendrick Lamar e Kanye West seriam completamente diferentes (se é que existiriam), caso o disco não fosse lançado. Este último chegou a comparar o disco com a obra-prima de Stevie Wonder: “The Chronic ainda é o equivalente hip hop de Songs in the Key of Life. É o parâmetro que você mede seus discos para ver se você é sério”, escreveu em uma resenha do disco na revista Rolling Stone.

O disco também sacramentou Dr. Dre como um dos principais nomes da indústria fonográfica, sendo cada vez mais requisitado para produzir novos artistas enquanto diminuía suas próprias produções. Desde este lançamento, Dr. Dre lançou apenas dois discos (2001, em 1999, e Compton, em 2015), mas lançou a carreira de vários artistas – especificamente Eminem e 50 Cent -, além de produzir discos e singles de Eve, G-Unit, Gwen Stefani, Mary J. Blige, Missy Elliott, Busta Rhymes e Alicia Keys. Lançou a grife de fones de ouvidos Beats by Dre em 2008, que foi comprada pela Apple em 2014, por três bilhões de dólares, tornando Dre executivo da empresa criada por Steve Jobs e o primeiro bilionário do rap.

E ele sabe do papel de The Chronic em sua carreira, tanto que até hoje não liberou o disco para as plataformas de streaming, à exceção da Apple Music, da qual é sócio. Seus discos e singles podem ser ouvidos em todos os concorrentes da empresa, mas o disco de 1992 só está disponível nos domínios digitais da maçã.

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HBO compra direitos sobre o documentário David Bowie: Os Últimos Cinco Anos http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/14/hbo-compra-direitos-sobre-o-documentario-david-bowie-os-ultimos-cinco-anos/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/14/hbo-compra-direitos-sobre-o-documentario-david-bowie-os-ultimos-cinco-anos/#respond Thu, 14 Dec 2017 22:01:09 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4219

The Last Five Years foi um documentário produzido pela BBC inglesa nos últimos cinco anos da vida de um dos artistas mais criativos de nossos tempos, o inglês David Bowie, que morreu no início de 2016. Lançado na Inglaterra no início de 2017, o filme foi comprado pela emissora norte-americana HBO e será lançado no dia em que Bowie completaria 71 anos, dia 8 de janeiro nos Estados Unidos e possivelmente em outras emissoras afiliadas do canal espalhadas pelo mundo.

O documentário traça o período em que Bowie voltou a produzir novos discos depois de diminuir suas aparições públicas consideravelmente. Durante estes cinco anos, ele lançou dois álbuns aclamados pela crítica, o sóbrio The Next Day (lançado em 2013) e o críptico e ousado ★, seu vigésimo quinto disco, que veio a público dois dias antes de sua morte e impressionou a todos como um de seus discos mais sérios e um epitáfio sobre sua carreira.

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Os Último Jedi reinventa magistralmente a mitologia criada por George Lucas http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/13/os-ultimo-jedi-reinventa-magistralmente-a-mitologia-criada-por-george-lucas/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/13/os-ultimo-jedi-reinventa-magistralmente-a-mitologia-criada-por-george-lucas/#respond Wed, 13 Dec 2017 21:18:06 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4211

O melhor jeito de assistir a Os Último Jedi, oitavo episódio da saga Skywalker que estreia esta semana no Brasil, é ir ao cinema sem saber de nada – mas, calma, não precisa parar de ler o texto aqui. O próprio trailer trinca algumas surpresas ao apresentar cenários e criaturas que deixariam fãs boquiabertos caso não fossem mostrados de antemão, então se você conseguiu escapar da avalanche de notícias, fotos e cenas inéditas dos últimos meses e precisa ser convencido de que este filme vale a pena ser assistido, garanta sua sessão blindado destas notícias. Por isso, o texto abaixo mais descreve sensações e personagens do que entrega a história do filme – portanto, sem spoilers.

A principal crítica sofrida pelo Despertar da Força que fez a Lucasfilm, agora uma empresa Disney, ressuscitar sua galinha dos ovos de ouro em 2015 era que o Episódio VII era apenas uma recriação do Episódio IV, o primeiro filme da história de Guerra nas Estrelas, lançado em 1977. Com J.J. Abrams no comando, o filme é uma colcha de retalhos de referências dos seis filmes anteriores que usa a mesmíssima estrutura narrativa da produção que transformou George Lucas em milionário: Rey refaz o caminho do aprendiz de Luke, Kylo Ren é um aspirante a Darth Vader, o Supremo Líder Snoke é o novo Imperador, BB8 é o R2D2 2.0, Poe Dameron faz as vezes de Han Solo, Maz Kanata ecoa Yoda e todos os personagens que sobreviveram ao novo filme (Han Solo, Leia, Chewbacca, R2D2, C3PO) batem cartão com seus bordões na rapsódia de Abrams, que termina com uma nova Estrela da Morte explodindo após tomar um laser em seu inexplicável ponto fraco. Só o personagem Finn – o único Stormtrooper a desertar do exército do Império – e a fatídica cena central com Han Solo fogem das referências citadas estabelecidas pelo criador de Lost.

Era um risco que precisava ser corrido. J.J. Abrams tinha o desafio de tornar a série novamente atraente e divertida após o fiasco dos Episódios I, II e III, considerados manchas pesadas em uma das marcas mais importantes da cultura pop de todos os tempos. Apelou para a nostalgia como se preferisse não mexer no próprio time, ousou em pouquíssimos momentos, mas conseguiu atrair o velho público e uma nova audiência, transformando a ressurreição da série um dos principais sucessos comerciais deste século até agora.

Os Último Jedi tinha tudo para refazer um caminho parecido em relação a O Império Contra-Ataca e usá-lo como modelo para contar uma nova história. A comparação era reforçada pela cor do logo da série, pela primeira vez em vermelho na divulgação inicial, em vez de amarelo, talvez querendo indicar que seria um filme passional e pesado como foi o Episódio V. Mas o diretor Rian Johnson preferiu dar alguns passos para trás e ver toda aquela história dos sete primeiros episódios numa perspectiva galáctica. Quem são aquelas pessoas? Por que elas são tão importantes para a história da Força? O que são os Jedi?

A partir desses questionamento, ele desconstrói os personagens apresentados no filme anterior de forma soberba. Entra na natureza de Poe Dameron numa sequência de abertura de tirar o fôlego, trabalha a complexidade emocional de Rey, lapida um vilão perfeito em Kylo Ren, humaniza ainda mais o coração de Finn. Eles ganham uma profundidade completamente nova, esquivando-se dos clichês que os vinculam a outros personagens anteriores. Rey é decidida e obstinada, ao contrário de seu espelho original, o jovem Luke. Kylo Ren ganha contornos mais decididos, mesmo sem abandonar por completo o ar birrento que o transformava em um Darth Vader mimado – Adam Driver aos poucos constrói um vilão completamente novo. Poe Dameron e Finn ganham uma importância que no filme anterior parecia passageira e têm momentos definitivos no novo filme.

Mas é um filme dos gêmeos Luke e Leia. O que O Despertar da Força nos tirou de Mark Hammill, Os Últimos Jedi entrega de forma plena, bem como toda a complexidade super-heróica da antiga princesa Leia. Os irmãos são alguns dos principais alicerces desta nova trilogia e seus destinos no novo filme determinam o desenrolar básico da história.

Além disso há novos alienígenas, novos bichos, novas naves, armas, uniformes, veículos. O aspecto visual de Guerra nas Estrelas ganha um banho de loja que aponta para possibilidades infinitas, criando cenas memoráveis e de pleno apuro visual. Toda criação de computação gráfica que George Lucas insistiu na primeira trilogia deste século e que Abrams evitou no filme anterior, surge esplendorosa e realista neste novo filme. E os novos personagens apresentados – uma soldado, um malandro e uma general (não vou nem dizer o nomes dos atores) – também fogem de possíveis comparações com outros nomes conhecidos de outros filmes. Sem contar a presença massiva de mulheres – e o tratamento de animais como seres vivos, não como fontes de comida.

Os Últimos Jedi não é perfeito. São duas horas e meia de filme que começam com um bom pique, mas aos poucos desanda quase sonolento pela sua metade. Mas o ato final é tão surpreendente e empolgante (aplaudi três cenas específicas no cinema) que esquecemos facilmente do encontro frustrado num planeta Mônaco que nos revela um dos novos personagens.

E, principalmente, foge por completo das fórmulas já estabelecidas nos filmes anteriores. Rian Johnson está procurando novos rumos, novos fios da meada, novas ambiências, novas sensações, e amplia magistralmente a mitologia criada por George Lucas. Não por acaso, ele será o responsável pela próxima trilogia da saga, a primeira sem a presença de ninguém da família Skywalker.

Até o fim de semana volto a falar sobre o novo filme, desta vez enchendo o texto de spoiler. Mas diz aí na área de comentários o que você achou de Os Últimos Jedi.

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Encontradas fitas com gravações do encontro de David Bowie com o Devo! http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/07/encontradas-fitas-com-gravacoes-do-encontro-de-david-bowie-com-o-devo/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/07/encontradas-fitas-com-gravacoes-do-encontro-de-david-bowie-com-o-devo/#respond Thu, 07 Dec 2017 12:20:35 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4208

O registro de uma conexão improvável entre dois gigantes da música moderna foi encontrado recentemente por um de seus autores, quando o líder da banda new wave Devo revelou que teria gravações de seu grupo ao lado de ninguém menos que David Bowie. A revelação aconteceu na noite desta segunda-feira, quando, num encontro na loja de discos Sonos, em Nova York. Mark Mothersbaugh, fundador e principal mentor do grupo Devo, era uma das atrações em um painel de discussão sobre a importância de David Bowie, cuja morte completa dois anos no próximo mês, e reuniu nomes como o músico Nikki Sixx do Mötley Crüe, a líder do grupo Perfect Pussy (e ex-VJ da MTV norte-americana) Meredith Graves e o fotógrafo Mick Rock, todos contando histórias do tempo em que conheceram o ícone inglês. O papo teve a mediação feita pelo jornalista Rob Sheffield.

“David Bowie chegou e disse: ‘Quero produzir vocês'”, lembrou Mothersbaugh quando se referia a um dos primeiros shows de sua banda, no meio de 1977, na casa Max’s Kansas City. “E nós falamos que não tínhamos contrato com gravadoras. E ele disse: ‘Não importa, eu pago'”. Essa foi apenas uma das histórias contadas pelo líder do Devo, de acordo com o blog Bedford and Bowery.

Mothersbaugh continuou lembrando que Bowie não falou da boca pra fora e que o músico inglês subiu no palco para acompanhar a banda no segundo show que eles fizeram naquele lugar, no mesmo dia. “Ele subiu no palco e disse: ‘Essa é a banda do futuro e eu vou produzi-los este natal em Tóquio!’ E nós todos ficamos: ‘Parece ótimo. Estamos dormindo em uma van em frente ao Bowery essa noite, em cima do nosso equipamento”. Aquela noite terminou com Bowie levando a banda para seu hotel, levando-os para comer sushi, coisa que eles nunca tinham visto na vida.

Meses depois, Brian Eno, que produziria o primeiro disco do Devo (Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!, de 1978) levou a banda para o estúdio Conny Plank, em Colônia, na Alemanha, e no primeiro dia de gravação tocou em uma sessão com o grupo, David Bowie e outros músicos alemães. “O Devo tocou com David Bowie, Brian Eno, Holger Czukay (do grupo alemão Can) e alguns outros músicos eletrônicos alemães que estavam por ali”, revelou Mark, que também contou que acabou de reencontrar a gravação histórica deste dia. “Eu ainda não a escutei, mas acabei de encontrar esta fita”, contou.

Como se não bastasse, ele ainda contou as fitas originais das gravações do primeiro disco, gravadas em 24 canais e cheias de anotações feitas por Eno. “Tem umas faixas com coisas escritas como ‘vocais de David’ e ‘sintetizadores extra de Brian’ e eu de repente eu lembro que tirei essas participações quando estávamos fazendo a mixagem final do disco”, explicou, acrescentando que não usou essas gravações no disco final porque haviam se envolvido com empresários picaretas, levando-o a se tornar “completamente paranoico em relação a pessoas se metendo nas nossas coisas”.

No final, Mothersbaugh deixou a dúvida no ar. “Acho que deveríamos ver o que tem nessas fitas. Estou realmente curioso pra saber o que diabos fizemos.”

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Há 40 anos, o Wire explorava todas possibilidades do punk em Pink Flag http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/04/ha-40-anos-o-wire-explorava-todas-possibilidades-do-punk-em-pink-flag/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/04/ha-40-anos-o-wire-explorava-todas-possibilidades-do-punk-em-pink-flag/#respond Mon, 04 Dec 2017 20:00:56 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4201

Quando 1977 chegou ao fim, parecia que o ano havia virado o rock do avesso. Depois de anos borbulhando no underground de Nova York e Londres, o punk finalmente vinha à tona – não apenas a partir da consolidação da safra nova-iorquina, que viu todas suas bandas (Television, Patti Smith Group, Ramones, Blondie e Talking Heads) assinar com grandes gravadoras encarnado, mas principalmente pela doutrina de choque e destruição dos Sex Pistols, primeiro porque a banda inglesa materializava visualmente aqueles novos ideais estéticos mas também porque validava o descontentamento de toda uma nova geração de adolescentes conterrâneos, que pegavam guitarras e máquinas de xerox, mas fazer sua própria cena musical longe das grandes casas de shows, das lojas de discos e das emissoras de rádio. Todas as grandes bandas do punk inglês surgiram ou se consolidaram ao mesmo tempo em que os Pistols: Clash, Damned, Buzzcocks, Jam, Slits e X-Ray Specs (além de artistas que orbitavam ao redor do punk, como o Police e as bandas de ska da gravadora 2Tone) saíram das garagens para as páginas dos jornais, provocando caos e desordem em shows cada vez mais rápidos e barulhentos.

Quando 1977 chegou ao fim, uma banda minúscula chamada Wire, criada naquele mesmo ano, lançou seu primeiro disco e correu riscos musicais para além dos três acordes e das palavras de ordem. Cruzando o limite que separava o punk das ousadias sonoras que viriam a ser conhecidas mais tarde como pós-punk, o grupo londrino ainda mantinha-se do lado original daquele movimento cultural, mas buscava fugir das imposições estéticas determinadas pelo próprio rock’n’roll. Ao lançar seu Pink Flag no dia 4 de dezembro de 1977, o Wire também explorava todas as possibilidades do punk – e seu legado mudaria inclusive a forma como o gênero seria percebido tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo.

Formada pelo guitarrista e vocalista Colin Newman, pelo guitarrista Bruce Gilbert, pelo baixista Graham Lewis e pelo baterista Robert Gotobed, o Wire começou ao redor do guitarrista e vocalista George Gill, dono de um conceito que evoluiu para uma banda chamada Overload, no início de 1977. Mas os ensaios não empolgavam, as letras e músicas do dono da banda eram vistas com desprezo pelos outros integrantes e bastou que Gill faltasse a um ensaio (depois de quebrar a perna tentando roubar um amplificador de guitarra de outra banda), que os quatro integrantes de seu grupo percebessem que a banda tinha um problema: seu fundador. Ao mostrar para o grupo suas primeiras canções, Newman conseguiu rapidamente que os outros músicos entendessem que a falta de fluência musical vinha da presença de Gill, e aos poucos puderam ir para além das fronteiras estabelecidas pelo punk. Seus primeiros shows aconteceram em abril de 1977 e já nas primeiras apresentações experimentavam algo inédito no gênero: o corte seco das músicas pela metade, quebrando completamente a expectativa do público, que se engalfinhava em rodas de pogo conduzidas pelo barulho.

Aos poucos reduziam o tempo das canções drasticamente, muitas vezes por considerarem o material desenvolvido em um único ensaio suficiente. As músicas às vezes não tinham refrão, só duas estrofes, ancoradas sempre por riffs de guitarras secos e minimalistas como o ritmo tribal de sua percussão, deixando o baixo e o vocal livres para explorar novas frentes melódicas. Ao assistir a shows dos Buzzcocks e dos Ramones no meio daquele ano os fez perceber que a velocidade também era um limite a ser rompido – daí passaram a compor faixas ainda mais curtas e diretas, bem como números com andamento mais lento que aquele do punk tradicional.

Pink Flag sintetizava todo o espírito da banda de forma definitiva. Eram vinte e uma canções em pouco mais de meia hora de disco, com músicas que nem mesmo um minuto tinham, em alguns casos. Os temas eram muito mais diversos que os explorados pelo punk: a tensa “Reuters”, que abria o álbum, descrevia uma zona de conflito do ponto de vista de um correspondente de guerra; a urgência de “Start to Move”, “It’s So Obvious” e “12XU” contrastava com o ar contemplativo de canções sentimentais como “Fragile”, “Strange”, “Lowdown” e “Feeling Called Love”, questões políticas fugiam de discussões partidárias em faixas como “Mr. Suit”, “The Commercial”, “Brazil” e a faixa-título. Todas as canções pareciam pequenos manifestos modernistas e poderiam ter suas letras sido escritas no início do século 20, com frases de efeito que tinham origens futuristas, dadaístas, situacionistas e pós-modernistas. A novidade estética era a urgência dos sons e palavras, quase sempre indo além do que se esperava de um disco de punk rock.

A inventividade e a criatividade do grupo logo o levariam para além daquele lugar musical. Nos discos seguintes, especialmente Chairs Missing, de 1978, 154, do ano seguinte e o ao vivo Document and Eyewitness, de 1981, o Wire transcendia a pressa e a selvageria do punk primal, abraçando a natureza artística que acompanhava o grupo desde seus primeiros passos. Novos instrumentos, temas e andamentos foram incorporados ao som do grupo e cada um destes quatro primeiros álbuns poderia ter sido gravado por uma banda diferente, tamanhos os saltos evolutivos que deram entre um registro e outro, quase sempre negando os preceitos tecidos no trabalho anterior.

Mas o impacto de Pink Flag atravessaria o Atlântico e teria uma influência muito maior do que em seu país de origem, mesmo não vendendo bem em nenhum dos mercados. Mas como os Estados Unidos estavam ainda entendendo o que era o punk a partir do punk inglês (pois haviam pouquíssimas bandas punk para além das de Nova York), todos os discos punk ingleses que apareciam eram tratados como mensagens vindas de um planeta utópico – e Pink Flag parecia ensinar que o punk poderia ir para muito além da cartilha dos três acordes básicos, descendentes do rock mais cru.

Assim, o disco tornou-se fundamental para uma nova geração de bandas punk. Ele praticamente serviu como um dos pilares da cena de hardcore de Nova York, com músicas regravadas pelo Minor Threat (“12XU”) e por Henry Rollins (“Ex-Lion Tamer”), repercutiu na cena californiana (sua “Mannequin” foi regravada pelo Firehose e os Minutemen sempre assumiram o disco como influência para suas músicas curtíssimas), além de ter sido regravado pelo R.E.M. em seu disco Document (com a música “Strange”). Seu legado norte-americano praticamente consolidou um novo gênero musical descendente do punk, o hardcore, que evoluiria ainda mais com outras influências locais.

Mas o grupo, que está na ativa até hoje, sempre fugiu de fórmulas. Tanto que quando fez sua primeira turnê pelos Estados Unidos, no final dos anos 80, cientes que estavam sendo esperados pela influência de seu primeiro disco, contratou a banda Ex-Lion Tamers para tocá-lo na íntegra como show de abertura. Assim, os punks que queriam apenas ouvir seu disco favorito da banda sentiam-se satisfeitos logo no início e o grupo não precisaria se preocupar em revirar o passado. Um dos discos mais influentes do punk inglês, Pink Flag continua sendo passado de geração para geração como um segredo, uma lenda urbana, uma comunicação em código. Felizmente.

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Há 40 anos, Brian Eno firmava sua reputação com Before and After Science http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/02/ha-40-anos-brian-eno-firmava-sua-reputacao-com-before-and-after-science/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/12/02/ha-40-anos-brian-eno-firmava-sua-reputacao-com-before-and-after-science/#respond Sat, 02 Dec 2017 20:01:07 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4195

Brian Eno é um dos principais nomes da música popular contemporânea, embora não seja reconhecido do grande público. Pensador e provocador, o “não-músico” (como gostava de se referir) teve uma breve carreira de popstar ao integrar a formação clássica do Roxy Music no início dos anos 70, mas logo sairia da banda rumo a experimentações estéticas que consolidariam a reputação de grandes ícones do pop do final do século passado, como David Bowie, Talking Heads e U2, além de viajar em seus próprios trabalhos solo, seja ao lado de músicos de alto calibre (como Robert Fripp, John Cale, Kevin Ayers, David Byrne, Jah Wobble, Daniel Lanois, entre outros), seja estabelecendo os parâmetros para sua grande contribuição autoral para a música moderna, firmando os paradigmas do que hoje chamamos de ambient music. Mas se passou parte dos anos 70 rascunhando o futuro da música moderna como a conhecemos hoje, estes traços musicais atingiram o ápice no dia 2 de dezembro de 1977, quando, há quarenta anos, lançava o quinto disco com seu nome, que cravava sua importância com o espetacular Before and After Science.

Eno ficou conhecido por provocar seus companheiros de banda a buscar novas alternativas para além das convenções musicais estabelecidas. Brincava que se tivesse se atrasado ou adiantado no dia em que conheceu o saxofonista Andy McKaye no metrô de Londres talvez nunca tivesse entrado no ramo da música e seria um acadêmico das artes sem nenhum vínculo com a música comercial. A passagem pelo Roxy Music, que durou apenas dois anos, foi o suficiente para que ele aplicasse, na prática, conceitos estéticos que explorava enquanto era universitário. Só foi subir no palco com a banda – fazendo vocais de apoio ao vivo e tocando teclados – depois de começar apenas na cabine de som, mixando o som da banda ao vivo. Ao ir para a ribalta, aproveitou a estética glam de sua banda para levar ao extremo suas aparições ao vivo, transformando-se em um modelo cênico radical dos conceitos que aplicava na música, vestindo-se de forma extravagante. Gostava de dizer que seu principal instrumento era o gravador de fitas (e orgulhava-se possuir mais de trinta aparelhos desse tipo) à medida em que estabelecia sua carreira solo, dizia que não tocava músicas e sim músicos.

Brian Eno

Seus primeiros quatro discos solo reforçariam essa mentalidade. Os dois primeiros, Here Come the Warm Jets e Taking Tiger Mountain (by Strategy), ambos de 1974, forçavam os limites sônicos da música pop sem precisar desestruturá-la. Nos dois discos, Eno liderava um grupo de músicos que reunia titãs da música europeia dos anos 70, como todos integrantes do Roxy Music (à exceção de Bryan Ferry), membros do King Crimson, Hawkwind, Pink Faries, Genesis, Soft Machine e Winkies, enquanto Eno aparecia tocando instrumentos batizados como “piano simplista”, “laringe elétrica” e “guitarra-cobra”. Gravados em pouco tempo, seus dois primeiros discos também consolidariam uma técnica criativa que ele materializa como um conjunto de cartões chamado Oblique Strategies (Over One Hundred Worthwhile Dilemmas) (Estratégias Oblíquas – Mais de Cem Dilemas Que Valem a Pena), que traziam desafios estéticos para os músicos com quem estava gravando. Chamava um músico e puxava uma carta, que vinha com instruções simples e desafiadoras, como “tente fingir”, “apenas um elemento de cada tipo”, “o que aumentar? o que reduzir?”, “honre o erro como uma intenção oculta”, “pergunte ao seu corpo” e “trabalhe em uma velocidade diferente”. Além disso, ele usava o próprio corpo – dançando ou fazendo gestos – para guiar as experiências musicais que queria introduzir, mas sem nunca deixar as canções soando experimentais ou esquisitas.

Os dois discos seguintes, Another Green World e Discreet Music (ambos gravados em 1975), iam para o outro extremo, justamente ao descartar o formato canção. Apenas cinco das quatorze músicas de Another Green World (considerado seu principal álbum) tinham letras e as melodias se estendiam em longas texturas horizontais minimalistas, que começariam a definir o conceito de música ambiente (concebido a partir de outra ideia ousada, do compositor Erik Satie, a “música-mobília”), que aos poucos seria toda uma nova vertente desde a incipiente música eletrônica do período até hoje. Discreet Music ia ainda além, principalmente a partir da faixa-título, que ocupava todo o lado A do vinil com trinta minutos de contemplação sonora.

Receoso de se repetir, Brian Eno deixou os holofotes e passou para o estúdio, começando sua bem-sucedida carreira como produtor de artistas estabelecidos, ajudando David Bowie a se reinventar em sua trilogia gravada em Berlim, onde o músico inglês abraçou completamente os conceitos estéticos de Eno, principalmente no lado B do disco Low. Nos dois anos entre seus quatro primeiros álbuns e o vindouro Before and After Science, Eno começou a trabalhar no equilíbrio entre essas duas personas: o experimentalista pop e o compositor de vanguarda.

O disco de 1977 é praticamente um manifesto de suas duas metades. O lado A é composto por canções baseadas em ritmo, que, além de ajustar o formato canção para uma novidade que vinha se desenvolvendo do outro lado do Atlântico (a disco music que seria o big bang para toda a dance music do final do século passado) também conectava-se com seus novos colaboradores alemães. Eno chamaria integrantes de bandas como Can, Cluster e Harmonia da mítica versão alemã para o rock progressivo da época (conhecidos pelo termo pejorativo krautrock) e em músicas “No One Receiving” e “Kurt’s Rejoinder” anteciparia em décadas a cena disco punk nova-iorquina puxada pelo grupo LCD Soundsytem.

Na faixa “King’s Lead Hat” saudava os novatos Talking Heads no título da música (um anagrama para o nome da banda de David Byrne), estreitando o contato que o tornaria produtor daquele grupo em seus três próximos álbuns (More Songs About Buildings and Food, Fear of Music e Remain in Light), ajudando a banda de Nova York ultrapassar o pós-punk e abraçar as músicas eletrônica, caribenha e africana. O lado B do disco, uma obra-prima por si só, elevava os conceitos de ambient music para além, aos poucos dissolvendo-os com a música pop experimental que havia lapidado em seus dois primeiros discos.

Before and After Science é o disco que marca o fim de sua carreira como popstar e sela seu destino como tutor para bandas em ascensão, além de experimentalista conceitual. A partir deste disco, Brian Eno passa a usar sua discografia como exercícios de estética ao mesmo tempo em que auxiliava artistas como Devo, James, Slowdive, Laurie Anderson, Grace Jones, Coldplay e, principalmente, o U2 a explorar novos territórios musicais. É o produtor da coletânea de noise vanguarda No New York e gravou ao lado de nomes como John Cale, David Byrne, Robert Fripp, Cluster e Harold Budd, entre outros. É o álbum que demonstra para os anos 70 como seria a música pop do futuro ao mesmo tempo em que consolida sua reputação, tornando-o livre para fazer o que quiser sem precisar dar nenhuma satisfação – comercial ou não.

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Na boa? A Marvel está humilhando a DC no cinema – e porque isso é ruim http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/11/30/na-boa-a-marvel-esta-humilhando-a-dc-no-cinema-e-porque-isso-e-ruim/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/11/30/na-boa-a-marvel-esta-humilhando-a-dc-no-cinema-e-porque-isso-e-ruim/#respond Thu, 30 Nov 2017 11:38:03 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4191

Vamos à real: a disputa entre Marvel e DC no cinema, que até pouco tempo atrás poderia ser considerada séria, não existe mais. A Marvel vem nadando de braçadas em seu próprio universo cinematográfico e mesmo que a DC não estivesse no páreo, a transformação da editora em estúdio de cinema já seria um dos eventos mais importantes da cultura neste século. Mas depois do fracasso de Liga da Justiça e da sequência de sucessos da Marvel de 2017 (o segundo Guardiões da Galáxia, o novo Homem Aranha, um surpreendente terceiro Thor e agora o trailer do próximo Vingadores), é nítido que a DC sofreu uma derrota que dificilmente recuperará seu universo, mesmo após o ótimo filme de estreia da Mulher Maravilha. Não há Flash ou Aquaman que possa reverter esse cenário. Talvez novos filmes do Batman, mas mesmo assim… É preciso ser muito otimista – e descolado da realidade.

O anúncio que a sessão para a imprensa do terceiro Thor aconteceria na mesma semana do novo trailer do primeiro filme da Marvel em 2018 (o Pantera Negra) mostrou que a Casa das Ideias estava aos poucos desfazendo a unidade de seu universo para atingir um público ainda maior. Tanto o trailer do filme que se passa na África quanto todo o filme que ocorre no espaço a anos-luz da Terra mostram histórias que acontecem dentro deste universo já estabelecido sem que necessariamente vinculasse os filmes entre si, o que tornaria a compreensão do todo cada vez mais complexa para o público que ainda não foi convertido. Como Doutor Estranho e o segundo Guardiões já haviam mostrado, o universo cinematográfico Marvel pode criar climas completamente diferentes e filmes que pertençam a gêneros que não conversam esteticamente entre si. Só o novo Homem Aranha que escorregou no excesso de referências, embora isso não tenha abalado a reputação como sendo o melhor filme que já foi feito deste herói.

O novo trailer, nesse sentido, funciona como uma pequena sinfonia. Ele prenuncia o segundo ato da terceira fase do universo inicial com o primeiro Homem de Ferro e vai elencando todos heróis disponíveis como motivos musicais ou instrumentistas exímios. Dá alguns indícios para onde vai o filme, tem pequenas revelações, cenas grandiosas e closes em rostos emocionados e atiça o público sem entregar o ouro, como todo teaser deveria fazer. Para os fãs, um deleite. Para o público que vai ao cinema sem saber que filme vai assistir no dia, é um marco territorial, definindo a existência de mais um novo filme de heróis a partir do semblante de um ótimo novo vilão, Thanos.

O problema é que com a DC fora da disputa, o gênero super-herói tende a ficar preso à Marvel. E por mais que o novo estúdio se desdobre em mil possibilidades diferentes, esse monopólio artístico e comercial tende a estagnar essa vertente cinematográfica à agenda de uma única empresa, mais ou menos como o conglomerado que a comprou fez com a animação entre os anos 50 e 90: pouquíssimos longas de desenho animado emplacaram comercialmente durante a época em que a Disney reinava, antes da ascensão da Pixar (outra empresa que a Disney comprou anos depois) e da Dreamworks.

E o culpado desse fiasco é inevitavelmente a mão pesada de Zack Snyder, que estraçalhou dois filmes do Super-Homem ao tentar atingir o nível de hiperrealismo dos Batman de Christopher Nolan. O tempo nublado de Snyder contagiou os demais filmes da parceria da DC com a Warner (outra culpada, por não confiar no próprio taco e refazer os filmes dezenas de vezes, a ponto de protagonizar o momento mais ridículo da história do cinema comercial deste século, com o bigode do Super-Homem apagado por computador). Mulher Maravilha conseguiu jogar uma luz natural momentânea nesse universo de explosões à noite, mas Liga da Justiça afunda ainda mais uma estética fadada ao fracasso. Se ninguém quer ver um filme com o Super-Homem, a Mulher Maravilha e o Batman juntos, quem vai querer ver o filme do Ciborgue?

A monocultura que pode ser protagonizada pela Marvel ainda tem esse agravante: tira do páreo histórias novas dos dois heróis mais emblemáticos da história dos super-heróis. Batman e Super-Homem são infinitamente superiores a qualquer herói da Marvel, somente o Homem-Aranha chega perto da importância dos dois. Nomes como Thor, Homem de Ferro, Hulk e Capitão América (sem contar desconhecidos do grande público como Doutor Estranho, Guardiões das Galáxias, Pantera Negra) são mais reconhecidos por sua iconografia do que por suas histórias. Mas na medida em que a Marvel conseguiu recapturar o Aranha de volta para seus filmes (abrindo a possibilidade de isso também acontecer com os X-Men), cada vez mais o estúdio se blinda contra possíveis ameaças ao seu recente reinado nas bilheterias.

Talvez a melhor solução para a DC fosse reiniciar seu universo, como tantas vezes fez nos quadrinhos. Usar esse recurso narrativo inclusive para apresentar novos atores e diretores, zerar histórias, começar de novo. Fazer como fizeram outras tentativas de universo compartilhado que não deram certo comercialmente, como o “monstroverso” da Universal que fechou suas produções após o fracasso de A Múmia.

Porque assim teríamos a possibilidade de ver versões convincentes no cinema para clássicos do quadrinho moderno, como Red Son, O Homem Que Tinha Tudo, A Piada Mortal, As Dez Noites da Besta, Asilo Arkham, Crise de Identidade, O Reino do Amanhã. Se a DC continuar insistindo nessa linha narrativa com esses atores e diretores inevitavelmente contemplará fiasco atrás de fiasco. À sombra cada vez mais forte da Marvel.

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O próximo filme de Quentin Tarantino será sobre o ano de 1969 http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/11/18/o-proximo-filme-de-quentin-tarantino-sera-sobre-o-ano-de-1969/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/11/18/o-proximo-filme-de-quentin-tarantino-sera-sobre-o-ano-de-1969/#respond Sat, 18 Nov 2017 21:09:27 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4188

Depois de decidir retirar seu penúltimo filme da Miramax após o escândalo envolvendo o produtor de todos seus filmes, Harvey Weinstein, Quentin Tarantino fechou acordo com a Sony para a realização de um filme que, ao contrário do que havia sido especulado anteriormente, não será sobre a chacina liderada pelo maníaco Charles Manson e sim sobre o ano de 1969. O principal executivo do grupo Sony, Tom Rothman, confirmou a produção do próximo filme do autor de Pulp Fiction, Django Livre e Bastardos Inglórios em um comunicado interno, tirando estúdios como Warner e Paramount da disputa, como reporta o site da Variety.

A notícia havia sido antecipada pelo site Deadline, cujas fontes asseguram que atores como Tom Cruise, Brad Pitt e Leonardo DiCaprio já haviam sido sondados para participar do filme, além da atriz Margot Robbie (a Harley Quinn do Esquadrão Suicida), que viveria Sharon Tate, a famosa atriz que foi uma das vítimas do massacre da chamada Família Manson, quando o líder desta comunidade mandou quatro de seus seguidores matar indiscriminadamente as pessoas em duas casas por duas noites seguidas em agosto de 1969.

Mas o diretor faz questão de frisar que o filme não é sobre estes assassinatos. “Não é sobre Charles Manson, é sobre 1969!”, contou ao site IndieWire. O ano é célebre por outros acontecimentos, como o início da retirada das tropas americanas do Vietnã, a chegada do homem à Lua, a eleição de Richard Nixon à presidência dos EUA e o festival de Woodstock, além de filmes como Sem Destino, Butch Cassidy, Meu Ódio Será Tua Herança, Perdidos na Noite e Era Uma Vez no Oeste. Resta saber o que Tarantino pode fazer neste cenário – e como o ano se encaixa em seu próprio universo de filmes.

Porque você sabe que todos os filmes de Quentin Tarantino são interligados, certo?

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Neil Young colocará todo seu acervo na internet de graça no mês que vem http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/11/16/neil-young-colocara-todo-seu-acervo-na-internet-de-graca-no-mes-que-vem/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/11/16/neil-young-colocara-todo-seu-acervo-na-internet-de-graca-no-mes-que-vem/#respond Thu, 16 Nov 2017 13:47:09 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4182

O músico canadense Neil Young, cuja obsessão com a própria produção é tão reconhecida quanto seu talento, anunciou que irá disponibilizar todo seu acervo de forma digital a partir do primeiro dia do mês que vem, em um comunicado no Facebook:

Olá,
O dia primeiro de dezembro será um grande dia para mim. The Visitor chegará à sua cidade. Eu irei para minha cidade. Você poderá me ouvir e me ver. Meu arquivo abrirá neste mesmo dia, um lugar em que você pode visitar e experimentar todas as músicas que já lancei com a melhor qualidade possível que seu equipamento possa permitir. É como tem que ser. No começo, tudo será de graça.

Muito amor,

neil

The Visitor é o nome do novo disco que Neil irá lançar ao lado da banda Promise of the Real, que o acompanha há dois anos, que será lançado com um show na cidade-natal do mito de 72 anos, Toronto, no Canadá. Será o item mais recente na vasta discografia lançada por Neil Young desde 1963 até hoje, entre discos oficiais, ao vivo, itens raros e as várias versões alternativas que lançou para suas canções. Neil Young senta-se ao lado de Bob Dylan (com as Bootleg Series), dos Beatles (com a série Anthology e outros discos lançados desde os anos 90) e de Frank Zappa (com a série Beat the Boots) como um dos principais auto-arquivistas da história da música contemporânea, preocupados tanto com a contínua produção quanto com a forma que seu legado chega para velhos fãs e novos consumidores. No site da série, Neil Young explica melhor como vai ser o funcionamento do serviço e dá uma amostra de como funcionará a linha do tempo que trará todos os lançamentos organizados em ordem cronológica (na imagem abaixo).

E será que ninguém se anima em trazer o Neil Young pro Brasil?

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PJ Harvey muda os parâmetros do show de rock em apresentação arrebatadora http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/11/15/pj-harvey-muda-os-parametros-do-show-de-rock-em-apresentacao-arrebatadora/ http://matias.blogosfera.uol.com.br/2017/11/15/pj-harvey-muda-os-parametros-do-show-de-rock-em-apresentacao-arrebatadora/#respond Wed, 15 Nov 2017 12:02:13 +0000 http://matias.blogosfera.uol.com.br/?p=4169

Antes mesmo do show extra que a cantora e compositora inglesa PJ Harvey fez nessa terça-feira em São Paulo começar, os presentes sabiam que estavam prestes a testemunhar algo histórico. Não apenas o show em si, segunda vinda de uma das principais artistas contemporâneas ao Brasil, mas o contexto em que ele se encaixava, tirando o nome mais importante do meio de um festival com várias outras bandas (o Popload Festival, que acontece nesta quarta) e pondo-a em um palco mais que adequado, perfeito, para uma apresentação daquele porte. O público era veterano – numa faixa etária entre os trinta e os cinquenta – e claramente todos passaram parte considerável de suas vidas escutando som alto e indo para shows e festivais insalubres para ver seus artistas preferidos ao vivo. É uma mentalidade que tem mudado, mas fãs de rock no Brasil ainda são vistos como adolescentes que topam qualquer roubada para encarar shows que realmente querem assistir – desde pagar ingressos com valores descolados da realidade brasileira a se submeter a condições precárias e mal-ajambradas apenas para satisfazer objetivos de cunho emocional.

A situação anterior àquele show era inversa: grande parte do público sequer havia pago para assistir ao espetáculo, que em vez de cobrar dinheiro, preferiu pedir para os fãs trocarem seus ingressos por trabalhos de assistência social. Um modelo de negócios radical, uma vez que dentro do recinto não era possível ver nenhuma marca patrocinadora. E o show aconteceu num teatro que, afora uma precisa consideração de um mago moderno (“teatro de shopping é gaveta“) atendia necessidades que o público brasileiro de rock nem sabia que tinha.

A sensação era de estar num evento de gala, mesmo que o público usasse, em sua maioria, jeans, tênis e camiseta (de banda). A atmosfera poderia ser vista como sisuda ou convencional demais para um show desta natureza, mas era apenas uma sensação que vinha de décadas assistindo a shows de rock no Brasil que não levavam o público em consideração. No teatro, com lugares marcados, visibilidade perfeita, som intacto, estávamos prontos para assistir não apenas a um show de rock de uma artista importante, mas um espetáculo transcendental de uma das maiores artistas da virada do século.

Baseado em seus dois discos mais recentes (Let England Shake de 2011 e The Hope Six Demolition Project de 2015, de fortes tons políticos), o show começou com um leve atraso de quinze minutos e trouxe todos os nove músicos que a acompanham em suas apresentações no exterior: Alain Johannes, Alessandro Stefana, Enrico Gabrielli, James Johnston, Jean-Marc Butty, Kenrick Rowe, Terry Edwards, Mick Harvey e John Parish subiram ao palco enfileirados como uma banda marcial, mantendo o clima solene e cívico que embala os discos mais recentes de Polly Jean. Revezando-se entre vários instrumentos, a banda se moldava em diferentes formações, que poderiam ter quatro guitarras, três saxofones (inclusive um tocado pela cantora) ou três teclados simultâneos, uma bateria desconstruída que por vezes retomava o aspecto de banda militar (acompanhada de acordeão, flautas e violino), vocais de apoio de timbre grave que mantinham o tom patriótico da noite – o de uma pátria sem nação, sem fronteiras, cuja abordagem política era essencialmente humanista.

Todo esse altar hierático perdia seu sentido protocolar assim que PJ fazia o ar vibrar com sua voz. Sua presença magnética recolhia-se aos momentos em que se calava – ela mesma indo para trás dos músicos por diversas vezes para fazer-se coadjuvante nos trechos instrumentais -, mas bastava ela se aproximar do microfone que a tensão política se dissipava para ganhar contornos ainda mais grandiosos e a solenidade tornava-se ritual, cerimonial.

PJ Harvey não é uma diva, nem uma musa. Ela não é uma mulher num pedestal esperando ser admirada, apenas uma inspiração por sua presença irresistível. Ela é um agente de transformação, uma maestra de sentimentos que canaliza o inconsciente coletivo em suas canções. Ela também não é uma sacerdotisa num ritual pagão que converge diferentes sensações (o sagrado feminino, a majestade da canção, a tradição bretã, as dores do mundo, a resistência, o blues). Todos os nove homens que a cercam se apequenam à sua voz e a força feminina surge arrebatadora de suas cordas vocais e da forma como se movimenta no palco.

PJ Harvey é uma deusa. Toda de preto, ela encarna nossos anseios e ilusões, nossas esperanças e vontades, nossa força e inspiração em palavras cuspidas, gestos de exaltação, cantos hipnóticos, mantras celestiais, dancinhas sedutoras, letras que acertam o fígado, olhares que atravessam o público. É como se ela pudesse olhar nos olhos de todas as pessoas naquele teatro, acertar o fundo de suas almas com questões que nos esquivamos de responder. O público, completamente embevecido por sua presença catártica, assistia pasmo a um repertório concedeu poucos momentos à nostalgia (quatro músicas do século passado – “50 ft Queenie”, “The River”, “Down By the Water” e “To Bring You My Love”, todas ao final do show – e três da década passada – “Shame”, “White Chalk” e “Dear Darkness”) e reforçava a mensagem de seus discos mais recentes: que o importante é o humano, não o institucional. Que o que sobra é a civilização, não são marcas nem o dinheiro. Que deveríamos viver a cultura e a arte, sublimes, não a política e a economia, rasteiras.

Deusa de seu próprio ritual, ela se dirigiu verbalmente poucas vezes ao público (dois “obrigada” e um “minha banda” em português antes de apresentar o público), mas nem precisava falar. Sua mensagem é ela mesma, sua oração é sua presença e estávamos todos boquiabertos concordando, “amém”. E certamente parte da magia deste ritual veio das condições perfeitas de temperatura e pressão que foram apresentadas neste show que, acredito, começa a mudar o paradigma dos shows de rock no Brasil. O melhor show do ano (da década?) até aqui.

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