Blog do Matias

Há 25 anos, Dr. Dre reinventava o rap com a obra-prima The Chronic

Alexandre Matias

15/12/2017 20h03

Andre Romelle Young tinha parcos 27 anos quando compôs seu trabalho mais sólido e uma das maiores obras-primas da música moderna há um quarto de século. Quando The Chronic chegou às prateleiras das lojas de disco dos Estados Unidos no dia 15 de dezembro de 1992, o jovem Dr. Dre já era um veterano na cena do hip hop californiano e, sem exagero, uma das pedras fundamentais de sua fundação. Mas o lançamento de seu primeiro disco solo, com seu rosto estampado numa capa que imitava uma marca conhecida de papel para cigarros e a esverdeada folha de maconha em seus rótulos, não apenas redefiniu o rap como principal revolução cultural do final do século 20 como estabeleceu o nome de Dre como um dos principais players da indústria fonográfica mundial.

Criada nos subúrbios de Nova York no final dos anos 70, a cultura hip hop rapidamente espalhou-se por todo o planeta, principalmente para grandes cidades que viam sua decadência retumbar entre drogas e violência. Mas Los Angeles, o polo oposto da influência nova-iorquina na cultura norte-americana, parecia o cenário completamente oposto para aquela nova transformação que mudava lentamente a cara do planeta. Sem arranha-céus e ruelas escuras, L.A. é uma cidade de largas avenidas e toda ostentação radical dos pioneiros do rap – que usavam joias, jaquetas de couro e correntes de ouro como uma forma de afirmar sua importância – parecia juvenil perto da influência de Hollywood e da cultura cinematográfica na maior cidade do estado da Califórnia. Era exatamente como fazer uma moda paulista pegar no Rio de Janeiro.

E lá estava Dr. Dre desde o início, agitando festas de electro equivalente às que Afrika Bambaataa agitava na costa leste. Mas desde o início ele sabia que era preciso criar uma sonoridade própria que distinguisse o som de sua cidade como antítese à do berço do rap. Começou a discotecar e rimar em alguns clubes de funk pela cidade e aos poucos incorporava a sonoridade de papas do gênero como Parliamente e Funkadelic para as batidas repetitivas daquele novo gênero. Adotou o apelido de Dr. J, mas logo mudou para seu pseudônimo atual, quando conheceu Antoine Carraby, que atendia pelo nome de DJ Yella, e começaram a trabalhar juntos, fundando, em seguida, o coletivo World Class Wreckin’ Cru. Em 1985, Dre lançou seu primeiro single solo, “Surgery“, que já dava as bases da sonoridade minimalista e grave que formam a base de sua musicalidade.

Mas o principal passo de sua carreira seria dado no ano seguinte, quando, ao lado de O’Shea Jackson (Ice Cube), Eric Wright (Eazy-E), Lorenzo Patterson (MC Ren) e Kim Nazel (Arabian Prince) e também do DJ Yella, fundou o grupo N.W.A., que mudaria a cara do rap mundial. Sigla para Niggas Wit Attitude, o grupo era o equivalente oposto ao nova-iorquino Public Enemy, principalmente por sua arrogância e violência. Enquanto o grupo de Chuck D e Flavor Flav levantavam palavras de ordem e denunciavam as agressões do sistema, o N.W.A. quebrava tudo por dentro, com letras que faziam apologia ao crime e à violência, além de bater de frente com o estado e peitar racistas. Seu single “Fuck tha Police”, lançado em 1988 e carro-chefe de seu disco de estreia, Straight Outta Compton, causou polêmica, provocou censura e até uma reação do FBI, que escreveu uma carta institucional para o grupo reclamando da atitude antipolicial demonstrada no single.

Musicalmente, o N.W.A. também era o oposto do rap da costa leste. Grave e menos frenético, seus instrumentais eram compostas por poucos samples, que criavam bases lentas e tensas, em que baixos e teclados elétricos conviviam com sirenes, apitos, guinchos e ruídos eletrônicos. Era uma forma de emular a paisagem horizontal da cidade ao mesmo tempo em que celebrava sua natureza sossegada. Mesmo as músicas mais agressivas tinham menos batidas por minuto que a maioria dos raps daquele período.

Dr. Dre

Ao impor-se como antítese do rap de Nova York, o N.W.A. criou um dos principais parâmetros da história do rap, o gangsta rap, cujas referências musicais vêm todas do trabalho de Dr. Dre à frente de seu grupo mais bem sucedido. Este encerrou suas atividades em 1991, logo após a saída de Ice Cube e o lançamento do disco Efil4zaggin, deixando o caminho livre para Dre contar a história de sua vida.

The Chronic não é apenas “A crônica” como seu título parece insinuar, mas também “a maconha”, na gíria de Los Angeles. A erva surge não apenas como uma declaração política mas também como uma decisão estética – a lentidão provocada pelo consumo da maconha parecia explicar o clima mais largado e suave que predomina pelas dezesseis faixas do disco. A marijuana está estampada até mesmo na capa do disco, que recria o rótulo de uma popular seda usada para enrolar baseados no início dos anos 90 chamada Zig Zag.

Rótulo da marca de papel para cigarros Zig Zag que inspirou a capa de The Chronic

Mas não era um disco sobre maconha. A planta dava apenas o tom determinado no decorrer do disco, como se seu aroma pudesse espalhar-se por todas as faixas, impregnando suas intenções logo nos primeiros beats. Se o N.W.A. era um programa policial de TV do ponto de vista contrário ao da polícia, The Chronic era um filme, um longa metragem sobre o momento da vida em que Dr. Dre atravessava.

Um dos principais produtores da história, Dre também era visto como um Midas musical. Quincy Jones de si mesmo, ele vai lentamente construindo sua reputação da mesma forma que compõe suas próprias músicas. E depois de trazer o rap para a costa oeste norte-americana e mudar a cara do gênero com o impacto violento do N.W.A., ele reinventava mais uma vez sua própria musicalidade com teclados agudos, beats cada vez mais pesados e letras contundentes – batendo em todos que pudessem atravessar seu caminho. Ao seu lado, revela seu principal coadjuvante e um dos inúmeros talentos que descobriu em sua jornada: Snoop Dogg.

O equilíbrio entre os sermões implacáveis da voz grave de Dre e a manha preguiçosa de Snoop dá ao disco um ar de filme policial dos anos 70, reforçado pelos samples utilizados pelo produtor (Donny Hathaway, Ohio Players, Parliament, Gil Scott-Heron, Joe Tex, Solomon Burke, Isaac Hayes, Trouble Funk George Clinton, Bill Withers, Leon Haywood e até Led Zeppelin e Malcolm McÇLaren), cada vez mais cirúrgico. Em seu primeiro disco solo, ele prefere ater-se a bases irresistíveis e refrões pegajosos em vez de atropelar o ouvinte com vociferando insultos musicais e disparando referências. O ar sossegado do disco também é parente dos velhos westerns e assim Dre recria toda a cultura californiana de um século anterior nos subúrbios de L.A. O novo velho oeste é um filme noir ambientado na favela.

Músicas como “Nuthin’ but a ‘G’ Thang”, “Fuck wit Dre Day (And Everybody’s Celebratin’)”, “Let Me Ride”, “Deeez Nuuuts” e “A Nigga Witta Gun” são marcos da história do rap e funcionam tanto sozinhas quanto no contexto principal do disco, que costura as faixas como se contasse uma história, inaugurando um formato que até hoje é utilizado pelos principais rappers do mundo. O impacto do lançamento do disco foi instantâneo e em meses o disco já tinha atingido o triplo disco de platina, equivalente a três milhões de discos vendidos. Não apenas lançou a carreira de Snoop Dogg como a de vários outros rappers menores que participaram do álbum, como Kurupt, Nate Dogg, Daz Dillinger e Warren G, criando um novo gênero que aos poucos foi sendo apelidado de G-funk, pois era menos agressivo que o rap produzido na época. Mas aos poucos o que poderia ser um retorno do funk acabou moldando todo o rap que veio a seguir – e não é exagero dizer que a carreira de artistas como Jay-Z, Kendrick Lamar e Kanye West seriam completamente diferentes (se é que existiriam), caso o disco não fosse lançado. Este último chegou a comparar o disco com a obra-prima de Stevie Wonder: “The Chronic ainda é o equivalente hip hop de Songs in the Key of Life. É o parâmetro que você mede seus discos para ver se você é sério”, escreveu em uma resenha do disco na revista Rolling Stone.

O disco também sacramentou Dr. Dre como um dos principais nomes da indústria fonográfica, sendo cada vez mais requisitado para produzir novos artistas enquanto diminuía suas próprias produções. Desde este lançamento, Dr. Dre lançou apenas dois discos (2001, em 1999, e Compton, em 2015), mas lançou a carreira de vários artistas – especificamente Eminem e 50 Cent -, além de produzir discos e singles de Eve, G-Unit, Gwen Stefani, Mary J. Blige, Missy Elliott, Busta Rhymes e Alicia Keys. Lançou a grife de fones de ouvidos Beats by Dre em 2008, que foi comprada pela Apple em 2014, por três bilhões de dólares, tornando Dre executivo da empresa criada por Steve Jobs e o primeiro bilionário do rap.

E ele sabe do papel de The Chronic em sua carreira, tanto que até hoje não liberou o disco para as plataformas de streaming, à exceção da Apple Music, da qual é sócio. Seus discos e singles podem ser ouvidos em todos os concorrentes da empresa, mas o disco de 1992 só está disponível nos domínios digitais da maçã.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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