Blog do Matias

Em sua estreia há 40 anos, os Talking Heads inventavam o pós-punk

Alexandre Matias

16/09/2017 13h01

Enquanto o punk inglês ainda borbulhava no underground londrino prestes a estourar a cultura do faça-você-mesmo para todo o planeta, a versão nova-iorquina que inspirara o novo levante musical inglês fechava sutilmente seu primeiro ciclo. Nascida no meio da década de 70, a cena que cresceu ao redor do antigo bar de motoqueiros CBGB’s traçava uma genealogia que tinha suas raízes tanto nas bandas de garagem dos anos 60 quanto na contracorrente musical puxada pelo Velvet Underground dez anos antes e continuada com o surgimento de bandas como os Stooges de Iggy Pop, o MC5 (estas duas bandas da região de Detroit) e os Modern Lovers de Jonathan Richman.

O lugar descoberto pelo Television de Tom Verlaine serviu como palco para bandas desgarradas em Nova York que não gostavam de hard rock, heavy metal, folk rock ou rock progressivo, algumas das principais tendências musicais da época. Nomes como o Patti Smith Group, os Ramones, os Dictators e os Stilettoes (que mais tarde mudariam seu nome para Blondie) buscavam outras fronteiras musicais e misturavam riffs pontiagudos de guitarra, baixos duros e vocais com o dedo na cara do ouvinte com poesia, quadrinhos, pop bubblegum, música de vanguarda, surf music, política, literatura e a arte com A maiúsculo. Aos poucos estabeleciam-se como uma nova cena que aos poucos era reconhecida pelo apelido de “punk” (“podre” ou “sujo”, em inglês), nome de uma revista caseira feita por alguns dos frequentadores do CBGB’s. Tudo era feito por conta própria, embora as gravadoras – que ainda não eram majors como se tornariam na década seguinte – ainda tivessem um vínculo com o que acontecia fora do showbusiness e, aos poucos, cada uma dessas bandas foi lançando seus discos de estreia, a partir de 1975.

A última banda desta safra a conseguir lançar seu primeiro disco era um trio de universitários de Rhode Island que havia se mudado para Nova York depois de tentar fazer música em sua pequena cidade-natal. David Byrne e Chris Frantz, alunos da Rhode Island School of Design, tinham um grupo chamado The Artistics e a namorada de Chris, Tina Weymouth, fazia as vezes de roadie da banda. Os três desistiram da banda e mudaram-se para Nova York, quando Chris convenceu Tina a tocar baixo. Como um trio, fizeram seu primeiro show abrindo para os Ramones ainda em 1975. O novo nome havia sido tirado de um termo técnico usado no meio televisivo para designar programas que eram “só conteúdo, sem ação”. Os Talking Heads – cabeças falantes, como programas de debates ou de entrevistas – poderiam ter começado sua carreira ainda naquele ano, como um trio, quando foram sondados pela gravadora CBS. Gravaram uma série de demos que depois se tornariam um dos principais registros pirata da história da banda, mas que foram declinadas pela gravadora.

Tina Weymouth, Jerry Harrison, David Byrne e Chris Frantz

No ano seguinte começaram uma relação com a gravadora Sire, que assinou contrato com a banda e bancou seu primeiro disco. Jerry Harrison, ex-integrante dos Modern Lovers, aproximou-se do grupo e assumiu o papel de tecladista da banda. Com esta nova formação gravaram seu primeiro disco, batizado apenas de Talking Heads: 77, lançado exatamente há quarenta anos, no dia 16 de setembro de 2017. O fato de terem sido a última banda da cena punk nova-iorquina a lançar seu próprio disco teve um efeito direto na sonoridade do grupo. À medida em que o impacto sônico das bandas anteriores começava a ser assimilado pela crítica e pelo pequeno público boêmio em Nova York, os Heads foram lapidando seu som, deixando-o mais minimalista e ainda mais direto, ao mesmo tempo em que em vez de atacar o sistema preferiam descrevê-lo, ridicularizá-lo, criticá-lo. Os Talking Heads foram a primeira banda pós-punk do mundo.

Talking Heads: 77 é a essência deste novo som, que iria encontrar pares em outros norte-americanos novatos, como os grupos Devo e Pere Ubu, e, principalmente, na cena inglesa que ressurgiria depois da morte de Sid Vicious e do fim dos Sex Pistols, que incluía nomes como Joy Division, Smiths, U2, Public Image Ltd., Gang of Four, Cure, Killing Joke, Siouxsie & the Banshees, Echo & the Bunnymen, Bauhaus, Slits, entre inúmeros outros. A sonoridade seca e crua dos instrumentos, sua frequência mecânica, sua inclinação política e crítica sem necessariamente ser agressiva, seu vocal quase falado e um groove quadrado. O disco também é o molde para o pentateuco dos Talking Heads, os cinco primeiros lançamento de sua discografia (77, More Songs About Buildings and Food, Fear of Music, Remain in Light e Speaking in Tongues), que forjaram sua sonoridade e reputação.

Visualmente a banda também distanciava-se ao máximo do punk. Ao entender a fauna visual que começava a surgir ao redor do CBGB’s, Byrne e sua banda passaram a se comportar de forma cada vez careta e convencional. Vestiam-se como se estivessem indo para entrevistas de emprego e faziam questão de enfatizar um aspecto entre o ingênuo e o jovial, que contrastava diretamente com as letras de Byrne, ácidas críticas à sociedade moderna em forma de orações à rotina das grandes cidades. Faixas como “New Feeling”, “Don’t Worry About the Government”, “Pulled Up”, “First Week/ Last Week… Carefree” e, claro, o hit “Psycho Killer” colocavam a banda a uma certa distância do punk original, antes mesmo deste ganhar sua faceta ainda mais popular, via Inglaterra. Outras faixas, como “Happy Day”, “Tentative Decisions”, “Who Is It? e “No Compassion” com seus riffs dedilhados e groove sincopado já apontavam para as fronteiras musicais que o grupo descobriria nos anos seguintes, quando passou a desbravar primeiro o Caribe depois a África musical.

Mais do que isso, Talking Heads: 77 é o registro de uma banda em ponto de bala, no exato momento em que ela deveria ter gravado seu primeiro disco. Se seu álbum de estreia fosse lançado no 1975 cogitado pela CBS talvez o grupo tivesse incorporado características – que depois se tornariam clichês – do punk na primeira hora. Parido dois anos depois, o debut dos Talking Heads assiste sua apresentação mais centrada, mais decidida e convicta, o que fez que ela se tornasse uma das grandes bandas daquele período e crescesse sua moral na década seguinte. Moral que permanece intacta, principalmente pelo fato de que eles são uma das únicas bandas – num recorte que inclui nomes pesados como os Beatles, os Sex Pistols e o Velvet Underground – que nunca voltaram a tocar juntos, salvo uma ou outra ocasião. Poderiam voltar a fazer turnês e ganhar rios de dinheiro, mas preferem explorar novos rumos individualmente, uma sabedoria estética assumida ainda nos tempos do punk rock.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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