Blog do Matias

Há 40 anos, o Television encerrava uma era e iniciava outra com seu clássico Marquee Moon

Alexandre Matias

07/02/2017 04h49

television-marquee-moon

Entre os anos 60 e 70, a maior cidade dos Estados Unidos havia se tornado o inferno na terra. A especulação imobiliária, uma crise fiscal inédita e o braço dado dos políticos com as grandes corporações haviam sacrificado vizinhanças inteiras, transformando Nova York em uma cidade violenta e destruída. Um antro decadente que empilhava seus pobres nas periferias e transformava o metrô num centro nervoso da insegurança que espalhava-se por suas ruas, abandonadas pelo poder público – “Bem-vindo à cidade do medo”, dizia um panfleto que recepcionava os turistas da época. Era o cenário que inspiraria distopias como os filmes Fuga de Nova York, Blade Runner e Warriors – Guerreiros da Noite e daria origem a movimentos culturais que redefiniriam a cultura ocidental do final do século passado, como o hip hop, a cultura gay e, claro, o punk rock. Mas no coração deste último, especificamente na espelunca que viu nascer o movimento urbano que salvou o rock da autoindulgência, havia um palácio de luz que unia toda a importância do rock até o meio dos anos 70 transformando-se em um farol para a criatividade de artistas nas décadas seguintes. Estas qualidades tornaram-no uma das obras mais importantes da história da música popular, embora Marquee Moon, o disco de estreia da banda Television, lançado há exatos 40 anos, seja passado de geração em geração como um segredo bem guardado.

Mas não há segredo algum. Num álbum esplendoroso com parcas oito canções somando menos de cinquenta minutos, Tom Verlaine conduz seu pequeno exército de instrumentistas reunindo lições aprendidas no jazz experimental, no folk e no rock clássico que abririam o rumo para artistas que redefiniriam a música nos anos seguintes a partir da grande transformação provocada pelo punk. Não é exagero dizer que Marquee Moon é o primeiro disco de rock alternativo, aquele que cogita uma nova relação com a música produzida a partir do casamento de guitarras, baixo e bateria com o ímpeto adolescente de se fazer percebido. O disco de 1977 não apenas consolida o arquétipo da banda nova-iorquina que reúne predecessores como o Velvet Underground, os Modern Lovers e os New York Dolls, contemporâneos como Patti Smith e os Talking Heads e sucessores como o Sonic Youth e os Strokes. Ele também abre possibilidades novas e improváveis para um gênero musical entusiasmado com o próprio virtuosismo que fucionariam como alicercespara carreiras inteiras de grupos como Joy Division, R.E.M., Pixies, Echo & the Bunnymen, Wilco e Radiohead.

Foi Tom Verlaine que descobriu o CBGB’s. Thomas Miller era um moleque de Nova Jérsei que havia se mudado para Nova York para reinventar-se como artista seguindo os passos de Dylan dez anos antes – trocando, como Dylan, seu sobrenome original por o de um escritor clássico, o poeta simbolista francês Paul Verlaine. Sua formação musical havia começado no jazz quando era aprendera a tocar saxofone quando era criança, mas foi “19th Nervous Breakdown” dos Rolling Stones que o fez abraçar a guitarra elétrica. Músico dedicado, Verlaine vinha na contramão do gênero que ajudaria a colocar no mapa. Sua principal ligação com o punk clássico não era musical e sim autoral – foi sua convicção em tocar do jeito que queria que o levou a bater na porta do bar de Hilly Kristal, um bar de motoqueiros que só tocava rock tradicional, pedindo para que lhe cedesse o palco para sua nova banda.

Television: Fred Smith, Tom Verlaine, Richard Lloyd e Billy Ficca

Television: Fred Smith, Tom Verlaine, Richard Lloyd e Billy Ficca

O Television era a segunda versão da banda que Verlaine havia fundado com seu conterrâneo Richard Meyers, com quem havia fugido para Nova York. Como Tom, Richard mudara seu sobrenome para Hell e em Nova York começaram a tocar como Neon Boys, ao lado do baterista Billy Ficca, que conheceram na cidade. Tom queria um segundo guitarrista para alternar solos de guitarra, enquanto Hell segurava um baixo tão impreciso e sem compromisso como a personalidade que reinventava com seu novo sobrenome. Foi Hell o primeiro daquela turma a usar roupas rasgadas, pendurar alfinetes, medalhas e broches aleatórios em casacos do exército com furos de bala, coturnos com solas descolando, calças jeans remendadas. Seu visual é a assumida inspiração do inglês Malcolm McLaren – que à época tentava recriar o New York Dolls atrelando-o ao imaginário comunista – para a cara não apenas do Sex Pistols mas de todo o punk inglês. Depois de tentar nomes como o futuro Dee Dee Ramone e Chris Stein (que formaria o Blondie em seguida) para a vaga de segundo guitarrista, Tom encontrou seu músico em Richard Lloyd, amigo da banda que viu a primeira formação dos Neon Boys surgir.

A obsessão da banda em tocar bem a colocou em ensaios contínuos que duravam até seis horas todos os dias da semana à exceção do domingo. Foi esta necessidade de tocar que levou Verlaine ao CBGB’s, um bar cujos gêneros musicais apreciados – country, bluegrass e blues – eram representados em sua sigla de batismo. A banda não queria apenas fazer um show e sim um lugar em que pudessem tocar com frequência para treinar. Quando apresentaram-se pela primeira vez em março de 1974, o grupo já havia construído uma reputação no underground nova-iorquino a ponto de levar os habitués de casas noturnas como o Max’s Kansas City e do Mercers Arts Center a visitar aquele novo lugar no East Village. A terceira apresentação do Television, em abril, trouxe Patti Smith e Lenny Kaye pela primeira vez ao local, onde tocariam a primeira vez com o Patti Smtih Group meses depois. Depois era a vez dos Ramones, dos Stilletos que mais tarde se tornariam o Blondie e dos Talking Heads. Estava formada a base do punk nova-iorquino, que, a partir de 1975, começaria a materializar-se em disco – primeiro veio o seminal Horses de Patti Smith no final daquele ano, seguido do explosivo primeiro dos Ramones, no ano seguinte.

O Television, no entanto, demoraria para sair do papel. A perseverança da banda rumo a uma musicalidade exímia havia transformado o show do grupo em um transe absoluto movido por guitarras. Verlaine e Lloyd alternavam-se nos papéis de guitarristas base e solo e reinventavam aos poucos o papel do instrumento na história do rock. Assim solos de guitarra não eram meras exibições de virtuosismo nem demonstrações de força. Havia uma dramaticidade parente do blues e do folk nos solos dos dois guitarristas, mas que traziam aquele sentimento para a cidade grande, para a noite em uma metrópole. Achados e perdidos ao mesmo tempo, o cruzamento daquelas duas guitarras bebiam da escola dos Rolling Stones, de Jimi Hendrix, do Pink Floyd e do Grateful Dead ao mesmo tempo em que enveredavam pelos altos improvisos de jazzistas como Miles Davis, Albert Ayler e Ornette Coleman. A obsessão pela técnica fez Verlaine expulsar Hell, cada vez mais problemático, da banda e em seu lugar veio Fred Smith, que havia acabado de formar o Blondie, mas que era fã de ir em todos os shows do Television.

A demora em lançar o primeiro disco não era descaso das gravadoras e sim capricho de Verlaine. A banda foi cortejada ainda em 1974 pela gravadora inglesa Island, que colocou-os no estúdio com Brian Eno, que produziu “Friction”, “Venus”, “Prove It” e “Marquee Moon”, mas o guitarrista não ficou satisfeito com o som da produção, considerando-o frio. A gravadora Arista tentou contratar a banda no ano seguinte, mas só em 1976 que o grupo assinaria o contrato para seu primeiro disco, desta vez com a Elektra. A gravadora atendeu a exigência de Verlaine para produzir seu primeiro disco, mesmo nunca tendo produzido nenhum outro disco na vida, e deixou-o contratar o engenheiro de som que quisesse. Verlaine e Lloyd escolheram Andy Johns, que já havia trabalhado com o Humble Pie, o Free, Jethro Tull e o Led Zeppelin, especificamente pelo som de guitarras que havia tirado no disco Goat’s Head Soup, dos Rolling Stones.

Gravado em setembro de 1976 nos estúdios A&R em Nova York, Marquee Moon não demorou para ser concluído, mesmo com a banda tendo tempo à vontade para passar no estúdio. Mas o grupo estava tão afiado devido a anos de shows e ensaios ininterruptos que algumas músicas, inclusive a emblemática faixa-título, com seus solos magistrais e mais de dez minutos de duração, foram gravadas ao vivo, sem superpor instrumentos ou refazer determinadas partes. O próprio Billy Ficca achou que estivessem apenas ensaiando a canção quando a gravaram, que o co-produtor Johns tentou regravar – mas Verlaine não deixou.

O disco foi lançado no dia 7 de fevereiro de 1977 com a banda estampando a capa com uma foto tirada por Robert Mapplethorpe. Mas a imagem foi manipulada posteriormente numa máquina de Xerox, quando Richard Lloyd levou a foto para fazer cópias e espalhá-las pela cidade. As cópias originalmente seriam em preto e branco, mas o operador tirou uma versão colorida e Lloyd gostou do resultado artificial das tonalidades. Pediu para o garoto tirar mais cópias enquanto mexia nos controles da máquina de olhos fechados. Entre as várias fotos de cores saturadas uma delas foi parar na capa do disco.

A capa parece contradizer o conteúdo. Marquee Moon é uma viagem romântica e beat por uma cidade decadente, Verlaine contrapondo seus solos com vocais quase falados, por vezes gritados, pouco cantados, que descreviam “olhos como telescópios” e uma “Broadway medieval”, como se os prédios espelhados fossem paredões geológicos de uma nova era, fria e quase robótica, essencialmente desumana. Verlaine age como o bardo desta nova era, arauto de uma transformação brutal mas comodista, violenta a ponto de não provocar reação. As guitarras costuram uma paisagem vertiginosa como as torres do então recém-inaugurado World Trade Center, obelisco gêmeo de uma nova era faraônica, mas cheias de detalhes barrocos e ornamentos mouriscos, como plantas que atravessam o concreto.

E do moquifo que deu origem ao punk, do sovaco elétrico da boemia nova-iorquina, surgia um disco épico e heróico, mas ao mesmo tempo introspectivo e existencialista, que questionava não apenas o niilismo da cidade que viu aquele novo movimento cultural nascer mas também o próprio papel do rock nesta nova fase. Consciente de sua importância, Marquee Moon é o divisor de águas que encerra a fase clássica do rock e abre o novo testamento pós-punk, mas sem precisar tripudiar ou negar o passado. E mesmo assim segue à miúda, em segredo, quase como um código que vai sendo transferido de geração em geração.

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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