Blog do Matias

Há 40 anos, Never Mind the Bollocks levava o punk para as massas

Alexandre Matias

28/10/2017 12h33

Há muita discussão sobre qual seria o marco zero do punk rock – o instante em que o rock rompeu com as fórmulas que estava criando para recuperar suas origens que festejavam energias primitivas, barulho e o confronto. Desde o momento em que John Cale e Lou Reed se comprometeram a não fazer concessões comerciais na criação do Velvet Underground no meio dos anos 60 ao primeiro disco do grupo de Patti Smith, que trazia, dez anos depois, a geração criada ao redor do CBGB’s para a indústria fonográfica. Outros momentos-chave podem ser apontados (as estreias em disco dos Stooges de Iggy Pop em 1969, dos New York Dolls em 1973 e dos Ramones em 1976 são outros fortes candidatos), mas nenhum disco foi tão importante quanto o primeiro disco dos Sex Pistols, a banda que trouxe o punk para as massas, fazendo-o transcender de um gênero musical para um movimento cultural cujo impacto é sentido até hoje.

Never Mind the Bollocks… Here’s the Sex Pistols, lançado no dia 28 de outubro de 1977, há exatamente 40 anos, foi o primeiro veículo a explicar quase que didaticamente o que era aquela nova movimentação musical que sacudia a Inglaterra desde o ano anterior. Ao mesmo tempo, o disco de estreia dos Sex Pistols também foi seu principal legado e um dos poucos registros dignos ao retratar o impacto que a banda provocou na cultura pop desde sua aparição. Ao lançar seu primeiro álbum, os Sex Pistols assinavam sua carta de intenções e seu próprio testamento, pois implodiria meses após o lançamento.

Sid Vicious, Paul Cook, Johnny Rotten e Steve Jones

A história dos Sex Pistols é um conto de fadas às avessas, uma parábola depressiva sobre como uma banda pode provocar o status quo fazendo exatamente o contrário e também como isso pode ser um produto comercial exatamente por estes motivos. O embrião da banda era o grupo londrino The Strand, formado em 1972 pelo vocalista Steve Jones, pelo guitarrista Wally Nightinglae e pelo baterista Paul Cook, que ficou conhecido por roubar instrumentos e equipamentos dos shows que frequentava. O grupo foi acolhido pelos empresários Malcolm McLaren e Vivienne Westwood, que haviam acabado de transformar sua boutique de roupas dos anos 50 Let it Rock em Too Fast to Live Too Young to Die, inspirada pela cena inglesa do início dos anos 60.

McLaren aceitou ser o empresário do Strand, ajudando-os a encontrar um baixista (o estudante de arte Glen Matlock, que vivia em sua loja) e um lugar para ensaiar. No fim de 1974, McLaren mudou-se para Nova York para empresariar os New York Dolls já em sua fase decadente e tentou transformar o visual andrógino da banda glam em um pastiche do imaginário soviético. Viver na Nova York que já tinha sua própria cena punk, tocando em bares como CBGB’s e Max’s Kansas City, foi crucial para que Malcolm voltasse para Londres cheio de ideias e querendo aplicar algumas delas em um projeto artístico capitaneado por uma banda de rock – cuja inspiração estética veio de uma pessoa, o músico Richard Hell, do Television, conhecido por usar roupas rasgadas e remendadas com alfinetes de segurança. A banda obviamente seria o Strand. Naquele mesmo ano sua loja mudaria mais uma vez de nome e desta vez chamaria-se Sex, especializando-se em vender roupas inspiradas no vestuário sado-masoquista.

O Strand precisava, no entanto, de um vocalista e quando Steve Jones assumiu a guitarra da banda (forçando a saída de Wally), passaram a interrogar todas as pessoas de sua faixa etária que tinham cabelo curto – uma raridade naquela Londres do auge do rock progressivo. Este surgiu na própria loja como se tivesse caído do céu – ou saído do inferno: além do cabelo curto pintado de verde, John Lydon, com parcos dezenove anos, usava uma camiseta do Pink Floyd com buracos nos olhos dos integrantes da banda e a frase “I Hate” (“eu odeio”) escrita à mão sobre o nome da banda. O convenceram a entrar na banda quase que instantaneamente e seu teste final foi cantando “I’m Eighteen”, de Alice Cooper, por cima de uma jukebox. A banda riu da apresentação, mas McLaren sabia que havia encontrado seu vocalista.

A banda começou a fazer shows no final de 1975 depois de rebatizada por McLaren, que havia tentado nomes como Le Bomb, Crème de la Crème, Teenage Novel e Kid Gladlove, e acabou decidindo por Sex Pistols, uma variação de um dos nomes (QT Jones and the Sex Pistols) que tinham antes mesmo de escolher se chamar The Strand. Com o novo nome e uma nova postura de palco, instigada por Lydon, que agora atendia pelo nome Johnny Rotten (“rotten” vem de “podre”, em inglês, e fazia referência à sua higiene bucal), e incentivada por McLaren, os Sex Pistols atingiram em cheio o inconsciente coletivo de uma juventude inglesa que não via futuro para si mesma no final dos anos 70. O repertório inicial da banda era basicamente composto por versões barulhentas de músicas conhecidas do público, como “(Don’t you Give Me) No Lip” de Dave Berry, “Substitute” do grupo The Who, “Whatcha Gonna Do About It” do grupo Small Faces e “(I’m Not Your) Steppin’ Stone” de Paul Revere & the Raiders. Mas não importava que músicas cantavam e sim sua postura de palco, quase sempre brigando com o público e com outras bandas.

Era um novo tipo de música pop, um rock agressivo e sujo, muito mais que em outras épocas, que necessariamente partia para o confronto. Aquela nova abordagem faria o grupo ser perseguido por tantos outros adolescentes, que logo formaram um séquito ao redor da banda, conhecido pelo nome de Contigente Bromley devido à região da cidade de onde vinham. Entre os integrantes deste fã-clube estavam nomes que mais tarde teriam suas próprias carreiras, como Siouxsie Sioux, Steven Severin (que depois formariam o Siouxsie & the Banshees) e Billy Idol, além de seguidores da banda desde os tempos da Too Fast to Live Too Young to Die, como um certo John Simon Ritchie, que mais tarde entraria para a banda. Durante 1976, o grupo passou a tocar com certa frequência em Londres e em algumas cidades no interior da Inglaterra, quase sempre causando furor e sensação e plantando sementes que consolidariam o punk naquele país: tocaram em Manchester em um show organizado por Howard Devoto e Pete Shelley numa apresentação que praticamente pariu a nova cena musical da cidade (com integrantes das futuras bandas Joy Divison, Smiths e The Fall na plateia) e abriram espaço para os primeiros shows de bandas como Clash e Damned.

Tudo aquilo culminaria com o single “Anarchy in the UK”, lançado em novembro daquele ano, que empurraria os Sex Pistols para a Inglaterra goela abaixo. Os gritos de “Eu sou o Anticristo!” e “Destroy!” que se tornariam marca registrada da banda e de seu vocalista, provocaram o conservadorismo inglês ao mesmo tempo em que deixavam uma nova marca estética, tanto sonora quanto visual (a partir do visual criado por letras recortadas, fotos rasgadas e alfinetes de segurança, inventado pelo designer James Reid, amigo de McLaren). O single foi lançado com uma capa preta, sem título, e colocou a banda nas paradas de sucesso (no 38° lugar), o suficiente para fazê-lo circular pelos meios de comunicação tradicionais.

Foi quando ocorreu o incidente que levou os Sex Pistols para fora do circuito musical pela primeira vez, quando participaram do programa de Today, apresentado por Bill Grundy, no canal Thames Television. Bêbados e desconfortáveis, os integrantes da banda e o apresentador não estavam se dando bem, até que Grundy provoca Siouxsie, que estava acompanhando o grupo, e é prontamente repreendido por Glen Matlock, que começa a xingá-lo. Grundy o provoca e Matlock responde ainda mais agressivamente, usando a palavra “fuck”, que até hoje é tabu.

Foi o suficiente para que o programa fosse retirado do ar às pressas. Mesmo atingindo apenas a região de Londres, a participação dos Pistols no Today causou horror no moralismo raso inglês, repercutido principalmente por seus tabloides sensacionalistas. É curioso notar que um apresentador de TV bêbado provoca uma adolescente ao vivo na TV e é defendido por outro adolescente que o agride com um palavrão – e é o palavrão que causa a comoção, virando a situação do avesso. O sensacionalismo foi tão marcante que os Pistols apareceram na capa de três jornais, sendo que a manchete de um deles – O Nojo e a Fúria, do Daily Mirror – tornou-se praticamente um slogan para a banda.

Malcolm McLaren queria amplificar ainda mais o incidente e preparou outro acinte protagonizado pela banda para o início do ano seguinte. O lançamento do single “God Save the Queen” (“Deus salve a rainha/ Ela não é um ser humano / Não há futuro para o sonho inglês”) coincidiu com o jubileu de prata da rainha Elizabeth II e o grupo resolveu parodiar o trajeto real sobre o rio Tâmisa tocando a música num barco dias antes da comemoração oficial. O resultado foi mais um incidente envolvendo repúdio e violência, provocando a prisão da banda e a consolidação do grupo como inimigo público inglês número 1. O estrago já estava sendo feito: antes do lançamento do single, o grupo foi dispensado pela gravadora EMI e depois de “God Save the Queen” foi a vez de serem dispensados pela A&M. Glen Matlock também saiu da banda com a desculpa oficial de ter sido expulso por “gostar dos Beatles”, substituído por aquele John Richie citado anteriormente, mais conhecido pelo apelido de Sid Vicious e por não saber tocar nada. Com dezessete anos, ele era o maior fã dos Sex Pistols e, de repente, um integrante da banda, tocando baixo.

As gravações para o primeiro álbum continuaram mesmo que não soubessem quem iria lançá-lo. O produtor Chris Thomas, que já havia trabalhado com o Roxy Music, superpunha camadas de guitarras de Steve Jones para torná-la mais densas na gravação. Foi ele também quem sugeriu que Jones tocasse o baixo no lugar de Vicious, que só toca em uma única música, “Bodies”. Rotten gravou os vocais quase todos em primeiro take e a principal meta do álbum era não ter versões para músicas alheias, que compunham parte do repertório dos Sex Pistols ao vivo. E a meta foi cumprida, mesmo que “Holiday in the Sun” tivesse seu riff surrupiado de “In the City” do grupo The Jam e os primeiros versos de “Bodies” tivessem sido copiados de “Puss N Boots” dos New York Dolls.

Lançado há quarenta anos pela gravadora Virgin (depois de ter sido recusado pela CBS, pela Decca e pela Polydor), o primeiro disco dos Sex Pistols apresentava a banda para o mundo além dos factoides criados pela imprensa marrom inglesa e dos dois singles que a colocaram no mapa. É um disco sólido e conciso, uma carta de intensões bem clara e também uma obra de arte, como queria Malcolm McLaren, discípulo de Andy Warhol. Seu teor político é niilista, suas ambições estéticas são autodestrutivas, a mensagem era de que não havia futuro para nada. Mesmo que soando careta quase um século depois (são músicas criadas com acordes descendentes do blues e do country e que ajudaram a moldar um formato que tornou-se estanque com o passar dos anos – o próprio conceito de punk rock), Never Mind the Bollocks ainda soa forte e agressivo como em seus primeiros dias, o suficiente para não soar datado.

Nos meses seguintes, a perseguição à banda piorou e muito, com seus integrantes sendo surrados na rua ou antes dos shows. Uma turnê pelos Estados Unidos no início de 1978 selou o final da banda e a reputação autodestrutiva de Sid Vicious, a grande vítima fatal dessa aventura chamada Sex Pistols, que ainda teve dois capítulos finais mesmo antes de seu fim oficial: um single sem a participação de Johnny Rotten (quando Paul Cook e Steve Jones gravam “No One is Innocent” no Rio de Janeiro ao lado do assaltante inglês foragido Ronald Biggs e Sid Vicious grava sua infame versão para “My Way”, eternizada por Frank Sinatra) e o disco de sobras The Great Rock’n’Roll Swindle (em português, “a grande trapaça do rock’n’roll”), que parecia consagrar que o grupo era uma invenção de Malcolm McLaren.

Não era. Nem mesmo uma invenção de seus integrantes. Os Sex Pistols eram filhos do inconsciente coletivo e canalizadores de uma energia latente que explodiria a qualquer momento nos anos 70 (daí a discussão inicial sobre o marco zero do punk). E está tudo lá, em Never Mind the Bollocks.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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