Blog do Matias

Há 50 anos, o Pink Floyd levava a cultura pop à outra dimensão com sua estreia The Piper at the Gates of Dawn

Alexandre Matias

05/08/2017 02h31

Quando o Pink Floyd lançou seu disco de estreia, The Piper at the Gates of Dawn, há exatos cinquenta anos, no dia 5 de agosto de 1967, a cultura mundial estava em pleno processo de transformação. O amadurecimento da primeira geração das bandas de rock e a consolidação da indústria fonográfica e da cultura pop coincidiu com a afirmação de diversas tendências comportamentais que corriam mundialmente no underground – os beats norte-americanos, a nouvelle vague francesa, a ascensão do feminismo e dos movimentos pelos direitos civis em todo o mundo, o uso recreativo de drogas alucinógenas, a causa hippie, o orgulho negro, o free jazz e a pop art. O mágico ano de 1967 prenunciava uma era de renovação, uma revolução cultural que nos levaria a um novo estágio – um novo nível de consciência, a idade espacial ou a era de Aquário. E o Pink Floyd apontava os rumos a serem seguidos.

Em apenas dois anos, o grupo inglês formado por três ex-estudantes de arquitetura e um estudante de arte ultrapassou a fase de blues elétrico que dominava a Londres do meio dos anos 60 em busca de horizontes que nunca haviam sido explorados pela música pop. Liderados pelo único não-arquiteto da banda, o carismático Roger “Syd” Barrett, que pouco a pouco se transformava em guru de uma geração, o grupo formado pelo baixista Roger Waters, o tecladista Rick Wright e o baterista Nick Mason aos poucos abandonou a estrutura básica do rhythm’n’blues norte-americano para usar e abusar de novos formatos de composição.

Syd foi um dos primeiros entusiastas do LSD na Inglaterra, substância descoberta por acaso pelo cientista suíço Albert Hoffmann em uma tarde de 1943 que ficou restrita ao círculo farmacêutico até ser descoberta e utilizada pelo cientista norte-americano Timothy Leary no início dos anos 60. Os efeitos da dietilamida do ácido lisérgico, que ainda era uma droga legal, na mente criativa de Syd fez que ele levasse o rock para outra dimensão em todos os sentidos: não só a estrutura das canções mudava drasticamente (bebendo de fontes alternativas – e inglesas) bem como o tema e suas apresentações ao vivo. E embora os outros integrantes da banda não fosse usuários aficionados como Syd, todos eles deixavam-se levar pela onda alucinógena que o vocalista e guitarrista emanava. O próprio nome da banda era uma prova de como estes limites poderiam ser explorados. Syd sugeriu batizá-los de Pink Floyd a partir de uma explicação lisérgica, mas ele apenas reuniu o prenome de dois de seus bluesmen favoritos, Pink Anderson e Floyd Council.

Ao vivo, a banda, vestidas com roupas coloridas, camisas bufantes, chapéus, franjas e botas, entregava-se ao improviso e às divagações musicais de Syd, que graças às inéditas fórmulas de iluminação no palco, quando projeções gelatinosas eram miradas sobre a banda, parecia tornar-se um sacerdote místico. Exímio guitarrista, ele também levava seu instrumento a paisagens distantes da primeira geração do rock ou do movimento mod que dominava a Londres do período. Em shows que duravam horas, o Pink Floyd aos poucos foi construindo sua reputação como um dos principais faróis de um novo movimento: a psicodelia.

Era uma transformação comportamental que inevitavelmente caía sobre o rock. Os ecos destas mudanças aconteciam em vários lugares do mundo, principalmente na Califórnia e na Inglaterra, e o Pink Floyd era o principal motor deste movimento, que contava com outros ícones bem próximos, como o guitarrista norte-americano Jimi Hendrix (que foi criar seu Experience em Londres) e, claro, os Beatles.

Nick Mason, Rick Wright, Roger Waters e Syd Barrett

O grupo de Liverpool estava trancado no estúdio 2 de Abbey Road desde o início de 1967 e já haviam lançado o compacto com as faixas “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” quando o Pink Floyd assinou com a EMI para gravar seu disco de estreia no estúdio 1, vizinho ao que os Beatles gravaram Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O disco do Pink Floyd foi produzido pelo engenheiro Norman Smith., que já vinha trabalhando com os Beatles há tempos. A troca de informações entre os dois discos e as duas bandas ainda são um assunto intocado, bem como quem influenciou quem. O disco dos Beatles foi lançado dois meses antes da estreia do Pink Floyd, mas os dois discos ficaram prontos praticamente ao mesmo tempo.

E o disco do Pink Floyd era muito mais ousado que o dos Beatles. Embora Sgt. Pepper’s tenha causado ao reunir uma orquestra inteira para tocar o crescendo de “A Day in the Life”, costurado o carrossel de colagens de “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, citado a sigla de LSD em “Lucy in the Sky with Diamonds” e posto oriente e ocidente para duelar em “Within You Without You”, The Piper at the Gates of Dawn (título tirado de um capítulo do clássico infantil Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame, sobre o deus grego pan) ia além.

Talvez não tivessem os recursos que os Beatles tinham, mas isso não tornava suas viagens mais tímidas. Ia do espaço sideral (com a faixa de abertura “Astronomy Domine” e o longo improviso instrumental de “Interstellar Overdrive”) ao I Ching (“Chapter 24”), da visita de seres míticos (“The Gnome”) à infância (“Bike”), sempre ao som de progressões de acordes incomuns, solos melancólicos, riffs destrambelhados, fractais em teclados elétricos, bateria desenfreada, baixo melódico e duro, efeitos eletrônicos e sonoplastia. The Piper at the Gates of Dawn é quase um OVNI que pousa no meio daquilo que hoje conhecemos como rock clássico, acendendo luzes que apontam para rumos que nunca haviam sido cogitados.

Parte de seu brilho talvez venha de sua velocidade. Do mesmo jeito que ascendeu, Syd Barrett pifou. O mesmo LSD que o fez visionário, o cegou de forma brutal, transformando-o em um Ícaro psicodélico, a primeira vítima séria da era hippie, que mesmo que não tivesse sido fatal, transformou-se em um peso morto que constrangia a banda ao vivo. Por diversas vezes ficava imóvel no palco, não dublava a própria voz em programas de TV e o grupo teve de chamar um quinto músico para que a banda pudesse funcionar – e em pouco tempo David Gilmour o substituiu, levando a banda para um limbo estético que durou vários discos – e que forjou uma das principais lendas da história do rock.

Mas a influência de Syd sempre esteve presente. O próprio clássico Dark Side of the Moon é uma ode à loucura e funciona como um questionamento em relação ao que aconteceu com o amigo do grupo – que batizou o álbum de forma que a palavra “Side” ecoasse o nome do fundador da banda. O disco seguinte, Wish You Were Here, foi mais direto – e além da descarada declaração de amizade da faixa-título (“Queria que você estivesse aqui”) dedicava a longa suíte “Shine On You Crazy Diamond” ao pai da psicodelia inglesa. Mas seu recado já estava dado em The Piper at the Gates of Dawn – e ecoa firme até hoje. Brilha muito.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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