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"Dr. Estranho" é o filme mais psicodélico e adulto da Marvel até agora

Alexandre Matias

25/10/2016 15h19

Estranho

"Prepare-se para esquecer tudo que já sabe." A frase, dita em tom ameaçador ao personagem-título do filme Doutor Estranho, que chega aos cinemas nacionais no dia 3 de novembro, também pode servir como aviso para o público acostumado aos filmes de super-herói da Marvel. O Doutor Estranho vivido por Benedict Cumberbatch consegue manter a regra de que o estúdio consegue fazer um filme divertido e empolgante até com personagens desconhecidos do grande público, como já havia feito em Guardiões das Galáxias e o Homem-Formiga. Mas a jornada do neurocirurgião Stephen Strange rumo ao desconhecido supera a expectativa ao apresentar um filme de super-herói para um público adulto, alheio aos uniformes coloridos e aos superpoderes de protagonistas de apelo infantil.

É o filme mais maduro da Marvel até agora e, coincidentemente, sua produção mais psicodélica. Toda aura mística e espiritual do médico que sofre um acidente que o impossibilita de continuar seu trabalho era traduzida em imagens grandiosas e espetaculares nos quadrinhos, publicados principalmente na virada dos anos 60 para os anos 70, auge da experimentação lisérgica da cultura pop. Os autores da Marvel do período – especificamente Steve Dikto, que recebe o crédito de autoria do personagem do novo filme – aproveitavam cores e formas para expandir os limites dos quadrinhos em páginas duplas épicas, cheias de detalhes.

Essa psicodelia é traduzida formidavelmente em imagens de tirar o fôlego pelo diretor Scott Derrickson, que mistura mandalas orientais, o urbanismo surreal de A Origem do diretor Christopher Nolan e uma mecânica transcendental que bebe tanto nas perspectivas inacreditáveis do ilustrador MC Escher quanto dos artistas mais radicais da Marvel para criar cenas de ação caleidoscópicas. Nos trailers, estas cenas deslumbram e encantam – mas nos filmes elas deixam de ser mera (e ousada) decoração para fazer parte da ação, em cenas de luta e perseguição que ganham perspectivas impossíveis.

A psicodelia é sublinhada em vários outros momentos do filme, desde o apreço pelo oriente (a terra encantada dos anos 60) quanto nas referências pop – o acidente que muda a vida de Strange é acompanhado por "aquela" música "daquele" disco do Pink Floyd (não vou estragar a surpresa) e veja se você consegue reparar no livro que Stan Lee está lendo em sua rápida e rotineira participação especial. É interessante notar que a expansão de consciência que a cultura pop foi submetida durante este período também é o momento em que ela começa a abandonar sua juventude rumo a uma nova maturidade.

Esta maturidade é reforçada pelas ótimas atuações do filme. Além de um irrepreensível Cumberbatch (que, mais uma vez, abandona os vestígios de seus personagens anteriores, desde o Khan do segundo Jornada nas Estrelas de J.J. Abrams ao seu clássico Sherlock Holmes), o elenco do filme está muito acima do filme mediano da Marvel. A dupla que Cumberbatch faz com a personagem de Rachel McAdams, Christine Palmer, mantém a primeira meia hora da produção no mundo real, sem misticismo nem megalomania. Tirando a cena inicial, que nos apresenta ao vilão Kaecilius (vivido por Mad Mikkelsen, o Hannibal da série de mesmo nome), o primeiro ato do filme quase não parece um filme de super-herói e sim um drama sobre relacionamentos, sentimentos e prioridades.

Mas uma vez que Strange viaja para Katmandu encontrar seu destino, o filme ganha contornos hiperbólicos e sentidos improváveis num filme de super-herói, ainda graças às boas atuações de Tilda Swinton (a Anciã, que, mesmo não sendo um personagem oriental não compromete a história), Chiwetel Ejiofor (Modor) e ótimo Wong (vivido por Benedict Wong). Como os outros dois filmes de heróis desconhecidos do grande público, Doutor Estranho é um filme autocontido e não é preciso entender nada do universo cinematográfico Marvel ou de filmes de super-herói para apreciá-lo.

Os fãs, no entanto, têm uma série de dicas escondidas, pistas espalhadas e, claro, continuidade na enorme saga Marvel no cinema, prestes a completar uma década. As melhores delas nos apresentam a uma dimensão inteira para o universo já conhecido, nos esfrega uma Jóia do Infinito que estava escondida em nossa cara e traça conexões com outro filme da Marvel que está por vir, além de anunciar a volta de Strange nos próximos filmes (são duas cenas escondidas após os créditos). É o filme mais maduro e mais psicodélico da Marvel – e, por isso mesmo, pode trazer ainda mais gente para o público do estúdio. Não vejo a hora de assistir de novo.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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