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"Amores Urbanos", de Vera Egito, mostra um outro cinema brasileiro

Alexandre Matias

24/05/2016 22h27

A diretora Vera Egito

A diretora Vera Egito

São três amigos – Diego, Júlia e Micaela – que dividem um apartamento em São Paulo e passam pelas transformações características tanto da idade e quanto do momento. Amores Urbanos, filme de estreia da paulistana Vera Egito, que entrou em cartaz nos cinemas na semana passada, mostra como as mudanças que acontecem na virada do século 20 para o 21 estão afetando a geração que nasceu pouco antes dessas transformações. E aposta num cinema brasileiro que foge dos estereótipos e clichês do gênero desde a sua fundação à sua retomada.

Mas Vera não quis fugir de nada: "Não é uma fuga", ela me explica em entrevista por email. "Na verdade é um encontro. Um encontro com minha própria turma, com a vida dos meus amigos e dos que estão a minha volta. Amores Urbanos é uma crônica desse microuniverso das cidades grandes, um retrato desse grupo que vive da forma que acredita, apesar de e contra toda a caretice vigente."

São três amigos que dividem alegrias e frustrações de viver em uma grande cidade num momento em que valores antes considerados definitivos começam a ser implodidos pela própria sociedade, sendo reinventados por ela mesma. Família, trabalho, amizades, relacionamentos e paixões são revistos a partir de uma busca por uma verdade individual, não pela projeção de sucesso exigida pelo convívio com uma geração anterior e um status quo de aparências.

Foi um filme feito quase impulsivamente. "Bateu uma febre mesmo que eu transmiti aos meus amigos", explica a diretora estreante, que já havia trabalhado em filmes como O Cheiro do Ralo (2006), À Deriva (2009) e Serra Pelada (2013), mas como roteirista ou assistente de direção. "Surgiu de uma urgência em fazer cinema. Eu tinha 32 anos, rodeada de amigos talentosos, trabalhando numa produtora grande. Por que não fazer um filme? Escrevi o roteiro em março de 2014 e filmamos em setembro do mesmo ano."

Maria Laura Nogueira, Renata Gaspar e Thiago Pethit

Maria Laura Nogueira, Renata Gaspar e Thiago Pethit

Os "amores" do título não dizem respeito apenas à vida social dos três personagens, apesar desta ser o ponto de partida para cada uma das três histórias: Júlia (Maria Laura Nogueira) descobre de forma brusca uma verdade sobre seu namoro enquanto é cobrada pelos pais para tomar um rumo na vida; Diego (o cantor e compositor Thiago Pethit) é forçado a reencontrar-se com o próprio passado e Micaela (Renata Gaspar) convive com uma namorada (a cantora e compositora Ana Cañas) que recusa-se a apresentá-la socialmente.

Mas é o adjetivo "urbanos" que conecta o filme diretamente com o público, pois o primeiro filme de Vera também é uma ode a São Paulo, mostrando que são histórias características (mas não exclusivas) desta cidade e que fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas. Não é uma história com começo, meio e fim, embora a sensação de redenção lentamente atravesse o filme. É mais um retrato de um momento não apenas de três personagens, mas de um recorte específico da sociedade. Filme-crônica, Amores Urbanos retoma um cinema brasileiro mundano e sem credenciais que nasceu na Boca do Lixo paulistana há quase meio século, mas sem a qualidade bruta típica daqueles filmes. O olhar de Vera é mais leve, mas não por isso mais delicado, e a crueza emocional do filme é sempre revestida com cores críveis, longe da aspereza do cinema quase documental que descende do Cinema Novo e sem o glamour televisivo das globochanchadas. É um filme que valoriza texturas, sejam elas físicas ou sentimentais.

"Escrevi o roteiro para a Maria Laura e pro Thiago, A Julia e o Diego sempre foram eles", ela explica. "A partir daí, nós três fomos pensando juntos que atores seria legal chamar. Não fiz nenhum teste. Todos os atores foram convidados a participar. Os personagens são diferentes dos atores enquanto pessoas, mas o universo ali é o nosso universo."

Pergunto se ela acha que o público brasileiro se vê no cinema. "Acho que sim e não", ela responde. "Um filme que fala a sua língua já é um alívio, né? Você já se vê ali. Mas a cultura brasileira é muito plural. Então pode ser que você não se veja ali literalmente. Amores Urbanos retrata uma turma da cidade, entre 20 e 40, que é exatamente a maioria do público pagante de cinema."

"O filme é uma comédia dramática. Há uma auto-ironia, uma coisa de rir da gente mesmo", continua. "As pessoas têm gostado muito disso. E meu estudo no cinema é o estudo de roteiro. Então a história é muito dinâmica. Não tem 'barriga', como a gente diz. As pessoas têm se envolvido muito com a narrativa e dizem que flui pra caramba", comemora.

Amor de resistência
A transformação de uma época e os valores progressistas festejados pelo filme chocam-se com o Brasil que vê seu lançamento e Vera não foge do que está acontecendo. "É assustador, O Brasil de hoje é uma incógnita", indigna-se. "E o filme, que era um filme simplesmente sobre amor, virou um filme de amor de resistência. Contra essa onda conservadora, esse maníacos religiosos que avançam no poder, as belas-recatadas-do-lar. Os personagens do filme são tortos, o amor no filme é o amor possível, o amor do tensão, da decepção, da ansiedade, da excitação. E é entre meninos, entre meninas, entre meninos e meninas. Hoje sinto que o filme é um recado: a gente vai continuar vivendo do jeito que a gente acha certo, apesar de vocês."

Ela não vê com bons olhos o futuro próximo do país: "A foto em que vemos Temer rodeado apenas por homens brancos, o retorno das oligarquias brasileiras ao poder a partir de uma conspiração, de um movimento claramente traidor. Não sei para onde vamos. Mas perspectiva é sombria e de retrocesso em todos os campos."

E o tom de seu próximo filme é ainda mais político, ao sintoniza com um momento crucial da história recente brasileira, quando o movimento estudantil confrontou a ditadura militar em 1968. "Captei recursos para filmar Rua Maria Antonia – A Incrível Batalha dos Estudantes e devo filmar no começo do ano. No segundo semestre, pego esse trem pra 1968. Aliás, tá parecendo que o Brasil todo tá pegando esse trem sem perceber."

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.