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O fim da tira "Chiclete com Banana" e a próxima fase de Angeli

Alexandre Matias

08/05/2016 11h55

Última tira Chiclete com Banana, publicada hoje na Folha de S. Paulo

Última tira Chiclete com Banana, publicada hoje na Folha de S. Paulo

Hoje é um dia triste, ao menos simbolicamente. Foi o dia que o cartunista Angeli escolheu para desligar os aparelhos de sua tira diária Chiclete com Banana no jornal Folha de S. Paulo, onde publicava diariamente há 33 anos. O principal motivo é saúde: o trabalho diário lhe consumia tempo e energia que também estavam sendo drenadas por uma depressão (que o quadrinista menosprezava como "coisa de gente fresca") ao mesmo tempo em que ele luta para abandonar o vício do cigarro, de três maços diários conseguiu reduzir para meia carteira por dia. O fim da tira, no entanto, não quer dizer que ele abandona o trabalho: ele segue ilustrando os corrosivos cartuns na página 2 do mesmo jornal, além de alternar o trabalho com os amigos Luiz Gê, Laerte e Rafa Coutinho no quadrão que é publicado no caderno de cultura às segundas-feiras.

O fim de Chiclete com Banana, portanto, é o fim de um ciclo. É como se Angeli finalmente saísse da banda de um homem só que criou nos anos 80. A metáfora não é aleatória, uma vez que foi o paulistano encontrou no rock o melhor veículo para criticar e narrar o Brasil. Como Raul Seixas e os Mutantes, ele fazia questão de contextualizar aquela novidade anglófona para o nosso cotidiano. Elvis, Beatles, Bowie, Sex Pistols e Lou Reed eram muito certinhos e arrumadinhos para a zona que é o nosso país. Pelas tiras Chiclete com Banana ele nos apresentou à coroa pós-punk Rê Bordosa, ao herói paranoico de esquerda Meia Oito e seu sidekick Nanico, ao ególatra Walter Ego, ao galã machista Bibelô, à dupla pentelha dos Skrotinhos, ao guru Rhalah Rikota. Mesmo quando não eram caricaturas explícitas de gêneros musicais (como o punk do ABC Bob Cuspe ou a dupla de hippies velhos Wood & Stock), seus personagens tinham penteados do Devo, ternos do Elvis Costello, barbas do Grateful Dead, gingado dos Stones, caretas de Johnny Rotten. Chiclete com Banana talvez tenha educado mais a geração nascida nos anos 70 em relação à música do que a falecida revista Bizz, principal publicação dedicada apenas à música pop no Brasil naquele período.

Mesmo porque Chiclete com Banana transcendeu as páginas do caderno de cultura para virar uma revista mensal. No final dos anos 80, Chiclete com Banana – e toda a safra de revistas nascidas a partir de obras da mesma turma de quadrinistas, como a Piratas do Tietê de Laerte, Geraldão de Glauco e a coletânea Circo – exerceu o papel que o foi do Pasquim e da revista Rolling Stone na geração anterior. Os quadrinhos eram a isca: eles ultrapassavam os limites das notícias e comentavam os corredores e ruas da vida real, trazendo personagens mais vivos e mais divertidos que as bandas de rock, os locutores de rádio ou os personagens de novela daquela época pré-internet. Lembro claramente da felicidade de topar com palavrões no decorrer das páginas na revista, especialmente com um quiz que escancarava em letras garrafais a dúvida: "Você é um escroto?" Naquele Brasil pós-ditadura, em que era proibido falar palavrão em voz alta, aquilo era uma dádiva, um sopro de liberdade. Perceba que até hoje as revistas não escrevem palavrões e se alguém martela o próprio dedo em um programa de TV ele fala "droga!" Se até hoje o palavrão é tabu no Brasil, publicar uma revista recheada deles era um ato subversivo hilário, que misturava situacionismo ao punk inglês, a sensualidade e a periculosidade do rock dos anos 50 com o prank artístico que desequilibra nossa noção de realidade. E a revista vinha cheia de traduções de textos clássicos que ainda não tinham saído no Brasil, citações a nomes que nunca chegariam às páginas dos cadernos de cultura, fotonovelas e até um fanzine dentro dela mesma, o Jam, cheio de colaboradores underground.

O problema é que Angeli começou a crescer mais que a banda. Ele começou aos poucos, primeiro como DJ em quadrinhos na série "Listen to the Music", indicando discos e fazendo piadas com músicas insuportáveis. Depois entrou a fase "Angeli em crise" seguida de "O velho cartunista". A revista tinha ficado no passado e ele entrara nos anos 90 numa pesada crise sobre si mesmo. Fazer críticas para vender? Subversão na vitrine? Ele começou a questionar o próprio sacerdócio diário de repetir personagens e aos poucos eles foram caducando. A morte da Rê Bordosa, um acontecimento tão importante para o quadrinho brasileiro quanto a morte do gato Fritz de Robert Crumb (a inspiração) e a do Robin do Batman, foi um golpe de marketing que faturou em cima de algo que aconteceria com todos seus personagens, que podem até não ter morrido, mas embrenharam-se nas sombras da criação (e justamente numa época em que vários deles parecem reaparecer encarnados em pessoas de verdade).

No lugar deles um desfile de novos personagens sórdidos e descartáveis, caricaturas de pessoas que Angeli teve de começar a lidar à medida em que foi envelhecendo. Eles não eram mais engraçados, ríamos de nervoso. A rotina dos cartuns políticos o obrigou a conviver com a sordidez da política brasileira constantemente e seu olhar cínico logo se desiludiu com qualquer possibilidade de futuro do Brasil ao flagrar aquela mesma podridão ética em todas as esquinas de nossa sociedade. O pessimismo foi ficando mais constante e o traço mais pesado, denso. Não haviam mais histórias, as tiras mesmo havia se tornado cartuns horizontais ou às vezes apenas telas para rascunhos de determinados objetos, partes do corpo humano, tipos de emoções. Entramos dentro da cabeça do Angeli em Crise e Chiclete com Banana tornou-se um ateliê aberto, uma terapia em público feito por um artista visual. De tanto olhar o abismo, Angeli se transformou no próprio abismo – para que nós pudéssemos olhar para ele.

Desligar Chiclete com Banana é uma forma de manter-se vivo. Se continuasse, Angeli poderia ficar ainda mais existencialista e a acidez do passado iria dissolver-se num eterno amargor que começaria a lhe fazer mal. A nos fazer mal. Mal, com letra maiúscula. Felizmente, ele percebeu a tempo de fechar o ciclo. E, com o fim de um ciclo, começa outro – será que agora vamos ver graphic novels ou telas imensas feitas por um sujeito que começou desenhando nas páginas de jornal? Grandes artistas passam por grandes mudanças, algumas vezes sem ter a consciência disso, e conseguem se superar mudando completamente o ritmo do próprio trabalho – Picasso, Rothko, Chuck Close, Lichtenstein, Crumb. Talvez o fim de Chiclete com Banana dê início a uma nova fase para Angeli. Estou na torcida.

E não custa agradecer. Valeu mesmo, mestre. Amadurecemos contigo – e em parte graças a você. Vida longa!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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