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Blog do Matias

A Marvel é a grande vencedora de "Guerra Civil"

Alexandre Matias

28/04/2016 10h11

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Capitão América: Guerra Civil já está passando no cinema e aos poucos vamos ver se a reação do público bate com a expectativa criada pela Marvel. Aqui bateu, como falei no começo da semana. E agora vamos começar a ver como o público reage a essa mudança de patamar que o estúdio estabeleceu para os filmes de super-herói. E agora escrevo detalhando mais o feito da Marvel, que, no fim das contas, é a grande vencedora da Guerra Civil. Os gifs animados a seguir são só pra você desviar o olhar antes que eu comece a falar dos spoilers do filme.

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Começo pelos pontos fracos: não há Guerra Civil. Há cenas de destruição em múltiplos continentes, do mesmo jeito que elas ocorrem em todos os outros filmes da Marvel. O cisma entre o ainda pequeno grupo de super-heróis neste universo não abala todo o planeta, como acontece na saga em quadrinhos que cedeu o nome para este terceiro filme do Capitão América. O próprio conceito original desta saga não faz sentido no universo Marvel no cinema. Em vez exigir um simples registro – e um atestado de submissão – dos super-heróis à ONU, os quadrinhos faziam os heróis revelarem suas identidades secretas. E não há identidades secretas na Marvel do cinema (até esta nova fase, pelo menos). Todos sabem que Tony Stark é o Homem de Ferro, as pessoas chamam o Hulk pelo sobrenome Banner, Thor e o Capitão América não usam disfarces. As grandes revelações da Guerra Civil dos quadrinhos (e o papel dos supervilões que, no universo cinematográfico Marvel, tirando Loki, mal existem) simplesmente não fariam sentido em um filme desta saga.

E apesar do grande confronto de super-heróis (que cena! Que cena!) o filme não foi feito para contar essa história. É sobre o confronto entre o Capitão América e o Homem de Ferro, uma tensão que vem aumentando desde o primeiro encontro deles. Rogers foi criado à época em que o pai de Tony trabalhava com o governo e esse ciúme quase familiar alcança seus extremos na trama principal deste filme. A relação do jovem Stark com seus pais é retomada e usada como gancho a partir de um exibicionismo de efeitos especiais que faz Robert Downey Jr. mergulhar em fonte da juventude digital usada como mera tiração de onda. A cena, que une os três principais personagens do filme (Bucky Barnes, o Soldado Invernal, é o pêndulo que desequilibra a relação dos dois protagonistas), é repetida por três vezes como uma forma quase didática de explicar que aquela é a história principal. Que também é o começo do fim da história destes três heróis.

E um dos grandes trunfos de Guerra Civil é conseguir pendurar dezenas de personagens ao redor desta trama principal, que envolve apenas o Homem de Ferro, o Capitão América, o Soldado Invernal e Zemo. (Sobre este último, um rápido comentário: Daniel Bruhl está escondendo o jogo. O ator que vive o principal vilão deste filme ainda não se transformou ainda no supervilão que ostenta seu sobrenome no título de Barão Zemo.) Há momentos para cada um dos super-heróis: Visão questiona-se sobre a autonomia sobre a joia em sua testa, Wanda Maximoff domina cada vez mais seus poderes, o Falcão Arqueiro nos apresenta seu Redwing, James Rhodes quase morre, Scott Lang é apresentado ao grupo (e nos revela um novo – previsível mas incrível – superpoder), Clint Barton lamenta sair da aposentadoria, Natasha Romanoff momentaneamente muda de lado. Cada um dos personagens que já conhecíamos avança um pequeno passo em direção ao futuro dos filmes do estúdio. Ninguém está ali apenas fazendo número e batendo cartão para marcar presença. Todos têm suas tramas pessoais desenvolvidas, mas sem muita complexidade. Há frases e cenas que resumem a presença de alguns heróis no filme a minutos – e isso é um ponto a favor. Caso quisesse se aprofundar em mais personagens talvez Guerra Civil pudesse se perder em mais minutos de filme. Mas nada é gasto ou desperdiçado e as duas horas e meia de filme voam como uma facilidade impressionante.

Apenas dois heróis detém um pouco mais de atenção, por motivos óbvios: é a primeira vez que Pantera Negra e o Homem-Aranha entram na história. O T'Challa de Chadwick Boseman é magnífico. Não é apenas um herói ou um guerreiro, como frisa continuamente – é um rei. Toda a arrogância de um jovem movido por vingança torna-se coadjuvante à nobreza de um herdeiro de uma linhagem secular. T'Challa veio de Wakanda, uma nação africana que não foi escravizada por dominar a tecnologia (história que nos será apresentada no filme solo do novo herói, no início do ano que vem), e não tem que dar satisfação pra ninguém. A forma como ele se apresenta a Clint Barton no meio da grande luta entre os dois grupos de heróis parece prever uma nova abordagem dos heróis da Marvel a partir de agora – anti-heróis, bad boys, gente sem muito tempo pra conversa. Um mundo em que Tony Stark talvez torne-se obsoleto.

Já o Peter Parker de Tom Holland está no outro extremo deste espectro. Ele acerta exatamente o tom lúdico que Christopher Reeve acertou no primeiro filme do Super-Homem, há quase quarenta anos. Que é exatamente o próprio tom lúdico do personagem quando ele foi lançado nos anos 60. O Homem Aranha não era um cientista, um alienígena, um militar, um milionário que conseguiu comprar seus superpoderes – era um moleque igual aos leitores de quadrinhos da época, que inclusive não fazia sucesso com as meninas e era motivo de chacota dos outros da sua turma. E lá está este moleque em cada segundo da interpretação de Holland. Ele transforma o Peter Parker de Tobey Maguire em um personagem caricato de novela das sete, um quase trintão fazendo papel de adolescente. E a forma como o personagem é apresentado? Em pouco mais de cinco minutos ouvimos a história da origem do herói sem ouvirmos falar em "picada de aranha radioativa em visita a um laboratório", entendemos suas motivações sem que ele mencione assassinato do Tio Ben nem a frase sobre "grandes responsabilidades" (ambos sublinhados na expressão do ator), assistimos a uma de suas primeiras aparições (num vídeo do YouTube, onde mais?) e vemos a primeira versão de seu uniforme. Em cinco minutos! Fora a Tia May vivida por Marisa Tomei, né?

Mas Holland não é genial apenas como Peter Parker. Ao vestir-se de Aranha ele segue em seu deslumbre quase infantil sobre a situação em que se encontra. A câmera acompanha o Aranha se pendurando pelas paredes com uma qualidade ágil quanto as tiradas do personagem sobre a luta e os outros heróis (talvez se ele não mencionasse O Império Contra-Ataca pelo nome e deixasse apenas a sugestão sobre o filme ficasse menos forçado). Seu encontro com o Capitão América no meio de uma luta é um dos grandes momentos do filme, mesmo que seja uma cena menor para a trama. Mas é ali que reside o futuro certo dos filmes da Marvel – não basta uma trama fácil de ser entendida e que possa convergir múltiplos personagens e uma direção firme para acompanhar essa história, é preciso ter um frescor juvenil que torne o filme divertido. Divertido – e não engraçadinho. As piadas de Tony Stark são cada vez mais chatas se compararmos com as ótimas cenas com o Homem Formiga de Paul Rudd – desde as duas piadinhas no fusca ao encontro de Rudd com o Capitão América e com o Homem de Ferro ("sou a sua consciência!") a seus dois grandes momentos na luta final (quando torna-se gigante e quando confronta o Visão). O arregalar de olhos do personagem no momento em que ele fica gigantesco consegue traduzir com perfeição a sensação de toda a plateia na grande luta do filme.

Que cena! Que cena! Uma batalha de proporções épicas meticulosamente desenhada, com uma câmera que segue tudo alternando longos takes com cenas curtas. Dá para ver a forma como cada herói briga, como cada um deles se defende, como trabalha em equipe, o que acontece quando apanham. A luta entre os dois grupos de herói nem é a cena principal do filme, mas ela traduz perfeitamente o que se espera de um filme desta proporção, funcionando como metáfora para o próprio funcionamento da máquina Marvel. Não adianta jogar um monte de personagens conhecidos num filme novo e esperar o aplauso só porque eles se encontraram.

E isso é tudo trunfo dos irmãos Russo. Joe e Anthony Russo já havia exibido seus músculos cinematográficos no filme anterior do Capitão América, que nos apresentava o Soldado Invernal. É um filme de ação e espionagem com mais lutas físicas do que grandes explosões, cuja trama importa tanto quanto as cenas violentas. Em Guerra Civil, eles extrapolam os limites daquele filme sem nunca perder a mão. São diretores de olho rígido e pulso firme, que conseguem entregar um excelente filme de ação convencional. Mas o fato de lidar com super-heróis lhes propõe o desafio de ultrapassar os limites da realidade e eles usam a tela do cinema como uma pintura surrealista em movimento. Fora as cenas de combate mano a mano, todas as cenas em que uma tecnologia incrível ou um superpoder é usado são filmadas como se aquelas coisas realmente existissem. Mas não de uma forma trivial, justo o contrário. Todo superpoder ou super-arma é épico, maior que a vida, transcendental. Neste sentido, Guerra Civil carrega aquele deslumbre que Kurt Busiek e Alex Ross capturaram na série Marvels. Mas sua direção é maior que isso.

Joe e Anthony Russo são o Jack Kirby da Marvel no cinema. Eles não só determinaram uma nova narrativa (já mostrada em Capitão América: Soldado Invernal) como expandem os limites da cena como Kirby expandiu os quadrinhos. Não estamos vendo apenas detalhes e closes de confrontos psicológicos ou físicos. Estamos assistindo a esptáculos grandiosos, cenas bíblicas, batalhas que tornam os seres humanos comuns em meros espectadores. Capitão América: Guerra Civil reinventa os filmes de super-herói – e o grande vencedor é a própria Marvel.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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