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Em sua nova temporada, "House of Cards" chega ao panteão das grandes séries

Alexandre Matias

18/03/2016 09h17

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Por melhor que House of Cards seja, a série que inaugurou a produção autoral do serviço de vídeos online Netflix nunca chegou ao panteão da nova era de ouro da TV. Não por falta de esforço, mas havia uma fragilidade nos roteiros e uma simplificação de personagens que era compensada pela forte presença do casal que interpreta Frank e Claire Underwood, Kevin Spacey e Robin Wright. A desenvoltura dos dois atores, aliada a uma produção caprichada e episódios bem dirigidos elevava claramente o nível da narrativa, que tratava de forma quase simplória o maniqueísmo que permitiu a ascensão fulminante de um parlamentar inescrupuloso à presidência dos Estados Unidos. Grandes momentos, grandes diálogos, doses de ironia e de acidez, mas nenhuma sequência de episódios que nos fizesse cravar as unhas na poltrona de tanta tensão como fizeram séries como Sopranos, The Wire, Lost, Breaking Bad, Mad Men e Game of Thrones.

Isso mudou nesta quarta temporada, que estreou inteira neste mês. Mais especificamente nos últimos episódios. Por isso se você não terminou de ver a temporada, este é o último aviso: o texto tem referências ao que acontece nos treze episódios desta leva. Mas são spoilers de leve, não vou contar o que realmente acontece na temporada, apenas comentá-la. Assista-a e volte aqui para conversar. Se você não assistiu, aí vão alguns gifs do Frank pra ninguém correr o risco de ler nada sem querer.

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Porque um dos grandes trunfos dessa temporada chama-se Claire Underwood.

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A personagem vivida por Robin Wright é a proverbial grande mulher por trás do grande político, mas desde a terceira temporada começou a dar leves passos em direção ao holofote. Na nova temporada ela dá um passo decisivo e parelha-se ao lado do marido, firmando os Underwood como uma única força política, desde os desdobramentos da primeira campanha presidencial protagonizada por Frank, que entrou para o Salão Oval da Casa Branca pela porta dos fundos, com a renúncia do presidente anterior, até a eletrizante conclusão nos últimos episódios da temporada.

Mas para que isso aconteça de forma convincente, mergulhamos na alma de Claire ao sermos apresentados não apenas à casa em que ela nasceu mas também à personagem de sua mãe Elizabeth, vivida magistralmente por Ellen Burstyn. Atravessando um câncer que sua filha utiliza politicamente, ela traz toda uma nova profundidade à primeira-dama, mostrando-a como fruto de uma Downton Abbey norte-americana. Durante o tempo que passa com sua mãe, ela assume um vínculo importante com o escritor Thomas Yates (vivido pelo fraco ator Paul Sparks), que volta à cena como autor dos discursos de Claire e que pode guardar algo importante para a temporada do ano que vem.

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Enquanto isso Frank encara a péssima popularidade entre seus futuros eleitores e a onda de fama que seu principal concorrente, o republicano pop Will Conway (bem vivido por Joel Kinnaman, da série The Killing), além de brigar com sua própria equipe para compor sua chapa à presidência. Esta é confirmada após uma incrível reviravolta, minuciosamente armada pelo casal Underwood, para derrubar adversários e atingir seu trunfo principal. A própria ascensão popular do rival Conway, popstar da velha e das novas mídias, é detida por um violento golpe de sorte que coloca em risco a própria vida de Frank – e que lhe faz rever fantasmas do passado, como uma foto recém descoberta de seu pai com o chefe da Ku Klux Klan, e as presenças macabras de Zoe Barnes (Kate Mara) e Peter Russo (Corey Stoll), vítimas fatais de temporadas anteriores que morreram pelas mãos do próprio Frank.

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Mas até aí a série segue seu banho maria de tensões políticas, reviravoltas inusitadas e climão de novela das oito. A direção (Robin Wright em dois episódios) e o elenco ajudam a manter uma sisudez mais própria ao que esperamos da Casa Branca (Neve Campbell, de Party of Five, segura firme o papel da consultora política Leann Harvey e Derek Cecil, que vive o porta-voz Seth Grayson, é testado em seu limite), mas há escorregadas e derrapadas.

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A trama internacional envolvendo o arremedo do Estado Islâmico batizado de ICO é frágil como toda a tensão diplomática da temporada anterior e o presidente russo Petrov (Lars Mikkelsen) é caricato como um vilão de James Bond. A quebra da quarta parede – quando Frank conversa com o público – é mais didática que nas temporads anteriores e não há mais aquelas momentos sutis em que Frank apenas mexe a sobrancelha ou desvia o olhar rapidamente em direção à câmera. O personagem sombrio de Michael Kelly, o capataz Doug Stamper, amolece de forma risível.

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Até pouco antes do final desta temporada – que conta com punhaladas nas costas, puxadas de tapete e mortes, sim no plural -, o grande fio condutor é o crescimento da popularidade de Conway, um republicano nova-iorquino que resvala na perfeição como candidato: ao mesmo tempo em que é um feliz e jovem pai de família também esteve em guerra em nome dos EUA, qualidades que Frank (e Claire) não podem nem começar a pensar em se gabar. Uma situação extrema coloca os Conway e os Underwood frente a frente e tanto os casais quanto os maridos e as esposas, em momentos diferentes, têm diálogos que socam a mesa como Frank fazia na primeira temporada.

Lá pelo décimo, décimo primeiro episódio tudo parece caminhar para um desfecho tenso de uma eleição presidencial. Tenso, porém previsível. Até que dois acontecimentos que caminham lentamente na lateral da história principal levam a série a uma nível de brutalidade psicológica nunca visto.

Não bastasse todo o trauma e drama da disputa presidencial, entram em cena dois cenários diferentes que em pouco tempo abalarão a opinião pública: o jornalista Tom Hammerschmidt (Boris McGiver) puxa o fio da meada da investigação de seu ex-repórter Lucas Goodwin (Sebastian Arcelus, cuja história é concluída de forma macabra) e revela todos os bastidores da ascensão de Frank ao Salão Oval, enquanto dois terroristas pegam uma família norte-americana refém e ameaça matá-la ao vivo na internet. Tudo isso no meio da corrida presidencial.

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Uma tempestade perfeita.

E aí a série dá um salto como nunca havia dado. E não apenas pelo volume de tensões envolvidas, mas como elas são apresentadas, como o desdobramento de uma coisa dá na outra, como as notícias chegam, como as pessoas recebem as notícias. É tanta novidade em tão pouco tempo que é fácil se perder, tanto da história principal quanto das possibilidades de conclusão desta abertas nesta mesma história. E é aí que você percebe como a série mudou de patamar.

Porque tudo é muito tenso mas também muito claro. São questões diplomáticas que se misturam com questões familiares, a opinião pública confrontada de diferentes ângulos e estes confrontos colidindo com os bastidores da política, em plena ebulição. É o melhor de Homeland com o melhor de 24 Horas, o melhor de West Wing com o melhor de Newsroom. É muita tensão a ser administrada, causando um malabarismo narrativo que já é difícil de ser sustentado e que o tempo todo coloca em nossa cabeça a dúvida de como é que isso será resolvido.

Em seus dois últimos episódios, a quarta temporada de House of Cards abandona qualquer resquício de fraqueza que havia mostrado nos episódios anteriores e ressurge grandiosa, operática, bélica. O drama shakespereano dá lugar a um mosaico político que faz Maquiavel e Sun Tzu sentarem-se em um xadrez brutalmente tenso, impassível entre bombas, metafóricas ou literais. E o gesto final de Underwood trava a temporada num impasse moral que desnuda completamente o jogo político e pode fazer a próxima temporada ser a última da série (embora ninguém tenha confirmado isso). O fato da temporada começar com uma cena de masturbação em uma cela na cadeia e terminar com um assassinato e uma cena de tortura psicológica coletiva diz muito sobre o tom da temporada.

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Agora resta saber o que acontece depois que este nó górdio foi desatado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

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A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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