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O Brasil não é um país roqueiro

Alexandre Matias

10/11/2015 21h51

raul

Escrever o título deste post me parece uma obviedade gigantesca, mas necessária. Quando comemorei os 20 anos do segundo disco dos Raimundos mencionei que o disco é um dos responsáveis pelo fim do rock brasileiro do horizonte do pop nacional, o que muita gente levou ao pé da letra. O rock brasileiro (e o rock como um todo, não apenas no Brasil) vai continuar existindo sempre que houver alguém – seja de 17 ou de 70 anos – disposto a pegar uma guitarra elétrica e fazer barulho acompanhado de algum tipo de ritmo, tocado por um humano ou não. O que começou a acontecer após o segundo disco dos Raimundos – e não por culpa da banda, que neste caso é mais termômetro do que agente – foi que o rock deixou de ser uma linguagem hegemônica, como havia acontecido na década anterior, nos anos 80.

Aos que cresceram nos anos 80, entre duas gerações de bandas que saíram primeiro do Rio de Janeiro e depois de São Paulo (levando algumas bandas de outras capitais neste processo), realmente havia uma ilusão de que o rock poderia entrar no gosto musical do brasileiro médio. Essa impressão era causada por um momento específico no mercado internacional – o nascimento daquelas que passamos a nos referir como gravadoras multinacionais, as majors.

Até os anos 70, o mercado fonográfico era um arquipélago de pequenas e grandes gravadoras, que podiam ser empresas com escritórios em vários países ou lojas que gostavam de lançar discos. Mas a partir daquela década, várias gravadoras começaram a se fundir e, principalmente, a comprar umas às outras. Isso fez que as grandes gravadoras começassem a investir no formato rock mais pelo respaldo que este tinha com um público mais velho (que havia sido adolescente no auge do gênero, nos anos 60), criando um híbrido de astro do rock com popstar, dois ícones que parecem a mesma coisa, mas são extremos opostos.

Um astro do rock é incômodo, intransigente, chato, pessimista, dá trabalho, cansa – apenas pelo fato de que, quando está no palco, gravando ou compondo, ele fica entre a nota acima da média e o sensacional. Já o popstar trabalha para ser aceito, atingir um público cada vez maior, sorrindo sempre prestativo – esforça-se em agradar mesmo sendo apenas mediano. Em alguns momentos estes personagens podem ser o mesmo – e aqui é mais uma das inúmeras vezes que os Beatles servem de exemplo -, mas normalmente são duas entidades separadas: os Rolling Stones ou os Carpenters, o Led Zeppelin ou o Abba.

Mas a partir dos anos 80, as grandes gravadoras commeçaram a transformar na marra o roqueiro no novo popstar e assim a estética rock se estabelece no topo das paradas até entre artistas que não faziam rock – lembre-se Michael Jackson gravando com Eddie Van Halen. Isso fez que as filiais brasileiras pudessem investir neste gênero musical, causando a explosão de interesse pelo gênero – o que fez muita gente montar bandas de rock para conseguir aparecer. Mas se você olha do primeiro momento em que o rock foi importante para o brasileiro médio – durante a Jovem Guarda – e o movimento do rock dos anos 80, há uma lacuna gigantesca para se referir como um cânone.

O próprio Roberto Carlos, que inaugurou aquela estética importada dos Beatles, pulou fora do gênero antes que a década acabasse. Até o fim dos anos 60, o Brasil viu a guitarra tendo um papel muito mais de contestação estética do que de força-motriz de um gênero – seja na passeata contra a guitarra elétrica (acreditem, isso aconteceu), seja na adoção das guitarras pelo Tropicalismo. Enquanto o rock rasgava eletricidade na troca de informações entre os Estados Unidos e a Europa, o Brasil seguia tocando violão. E o instrumento acústico seguiu pelos anos 70 como sendo o principal timbre da nossa musicalidade, seja na recém inventada MPB que nascia após ser plantada na bossa nova, no samba ou na música popular romântica, que aproximava a música brasileira da musicalidade da América Latina. Os poucos roqueiros dos anos 70 eram figuras incômodas e arruaceiras, sintetizados na imagem de Raul Seixas e Rita Lee.

O interesse popular brasileiro pelo rock volta à tona a partir dos anos 80 e o gênero entra pela sala de estar. Deixa de ser a ovelha negra e a mosca na sopa que Rita e Raul cantavam para virar trilha sonora do fim da ditadura militar e, como previu Humberto Gessinger, "uma banda em uma propaganda de refrigerantes". A partir daí vivemos anos em que o rock entrou no vocabulário popular brasileiro, carregada principalmente pela tríade de bandas Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso.

Mas a onda de rock dos anos 80 ensinou às grandes gravadoras que era possível vender gêneros a partir de grupos de artistas e do mesmo jeito que duas safras de bandas de rock foram apresentadas ao grande público, o mesmo ocorreu com a lambada, o sertanejo, a axé music e o pagode, entre o fim dos anos 80 e o meio dos anos 90. A própria axé music é, mais do que um gênero musical, uma fórmula que um grupo de produtores e artistas conseguiu inventar para entrar no showbusiness brasileiro. Fórmula essa que foi adaptada pelos atuais sertanejos que dominam o rádio atual.

O fato é que, a partir de um formato de venda de artistas lapidado nos anos 80, a indústria fonográfica brasileira deixou o rock a ver navios e este até hoje busca por um lugar ao sol. E aí que mora o perigo: o rock não tem que buscar lugar ao sol.

O rock mora nos becos sem saída, nas garagens, nos cantos escuros, tocando em moquifos para poucas pessoas. O senso de periculosidade original do rock se perdeu enquanto mais de uma geração de bandas segue chorando que não têm a visibilidade que gostaria, reclamando que perdeu o foco da discussão para gêneros mais populares.

O espaço para o rock não é entregue – ele é tomado. Enquanto dezenas de grupos lamentam não ter uma chance no rádio ou que a mídia (ou o sistema ou o governo ou as gravadoras, escolha seu "vilão") não lhes oferece oportunidades, outras tantas dezenas de artistas cavam seu caminho na marra. Tanto que você nunca vê ninguem lamentando a morte ou o fim do hardcore ou do heavy metal – nem fãs desses gêneros, ambos filhotes diretos do rock, às lamúrias para o espaço perdido para o sertanejo ou para o funk ostentação. Eles vão lá e fazem – sem se preocupar se irão tocar no rádio, aparecer na TV ou ter espaço no jornal.

Porque o rock deveria meter o pé na porta e não pedir licença. Quem pede espaço é a música pop, que foi feita para ser aceita. O rock tem que incomodar os vizinhos, fazer música alta, cogitar extremos tanto nas músicas quanto nas letras. Ficar choramingando as pitangas que o rock não tem mais espaço talvez seja a coisa menos rock a ser feita.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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