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Taylor Swift despede-se da Apple: "Não pedimos iPhones de graça para vocês"

Alexandre Matias

21/06/2015 20h19

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No início do mês, com todo o alarde habitual, a Apple anunciou seu serviço de streaming de música em sua conferência anual para desenvolvedores. Batizado sem criatividade apenas de Apple Music, o novo serviço é apenas uma resposta natural da empresa à ascensão de concorrentes como Spotify, Deezer, Rdio e Rhapsody, que aos poucos estão ensinando o público a pagar uma assinatura de música em vez de comprar músicas ou discos separadamente. Um lançamento da versão da Apple para o serviço já vinha sendo esperando desde o ano passado, graças às recentes aquisições da marca, como a empresa de fones de ouvido Beats, do produtor de rap Dr. Dre, e a contratação do principal apresentador de rádio da BBC, Zane Lowe.

O Apple Music, que estará disponível para o público no último dia deste mês, no entanto, não trouxe nenhuma novidade inesperada, seguindo apenas os padrões dos outros serviços, como o período gratuito para degustação (três meses), preço (US$ 9,99 por mês) e quantidade de canções no catálogo (30 milhões). Mas ao contrário de seu principal rival, o Spotify, o serviço podia se gabar de ter Taylor Swift, a maior popstar do mundo hoje, em seu catálogo.

Não mais.

Neste domingo, a garota prodígio escreveu uma longa e respeitosa carta pública à Apple em seu tumblr, agradecendo os anos de parceria e comemorando os feitos da empresa ao mesmo tempo em que retirava seu disco mais recente, 1989 – o único disco a receber a certificação de disco de platina nos Estados Unidos no ano passado -, do catálogo do serviço. Seu argumento é simples: ao oferecer três meses de música de graça aos novos usuários, a Apple resolveu não pagar aos artistas por este mesmo período. A solução é mais simples ainda: já que a empresa é tão bem sucedida, ela mesma que pague aos artistas para que seus novos usuários possam testar seu serviço gratuitamente. Ela diz falar não apenas em nome dos novos artistas, que mal têm condições de se manter, mas também em nome de vários de seus colegas, que não querem se expor em público sobre esta questão para não ficar mal com a empresa criada por Steve Jobs.

Abaixo, a íntegra de sua carta à Apple:

"Escrevo isso para explicar porque eu estarei retirando meu disco 1989 do novo serviço de streaming Apple Music. Sinto que devo uma explicação porque a Apple tem sido e continuará sendo uma das minhas parceiras favoritas ao vender música e a criar novas formas para que eu possa me conectar com meus fãs. Respeito a empresa e as mentes realmente engenhosas que criaram um legado baseado na inovação e na expansão das fronteiras certas.

Tenho certeza que você sabe que a Apple Music estará oferecendo um período de três meses de experiência para qualquer um que assine o serviço. Eu não tenho certeza se você sabe que a Apple Music não estará pagando aos autores, produtores ou artistas por estes três meses. Acho chocante, frustrante e completamente avesso a esta empresa historicamente generosa e progressiva.

Isso não diz respeito apenas a mim. Felizmente estou em meu quinto álbum e posso me sustentar, pagar minha banda, equipe e todo meu time de gerenciamento fazendo shows ao vivo. Isso diz respeito aos novos artistas e bandas que acabaram de lançar suas primeiras músicas e não serão pagos por seu sucesso. Isso é sobre jovens compositores que acabaram de receber sua parte e que achavam que os royalties que receberiam dali pagariam suas dívidas. Isso é sobre o produtor que trabalha incansavelmente para inovar e criar, tal como os inovadores e criadores da Apple que são pioneiros em sua área… Mas não receberá o equivalente ao que receberia pelo trimestre de suas canções que foram tocadas.

Isso não é uma reclamação de uma criança petulante e mimada. Estes são os sentimentos que ecoam em todo artista, autor e produtor em meus círculos sociais que têm medo de falar disso publicamente porque admiramos e respeitamos tanto a Apple. Nós simplesmente não respeitamos esse convite.

Eu entendo que a Apple trabalha rumo ao objetivo do streaming pago. Acho que é um belo progresso. Sabemos como a Apple tem sido astronomicamente bem sucedida e sabemos que essa incrível empresa tem dinheiro para pagar artistas, autores e produtores por esse período de testes de três meses… Mesmo que seja de graça para seus fãs testarem.

Três meses é muito tempo para trabalhar sem receber, é injusto pedir para qualquer um trabalhar de graça. Digo isso com amor, reverência e admiração por tudo que a Apple já fez. Espero que em breve possa unir-me a eles rumo a um modelo de streaming que parece justo para aqueles que criam esta música. Acho que essa pode ser a plataforma para fazer isso direito.

Mas digo isso a Apple com todo respeito, não é tarde para mudar esta política e mudar as cabeças daqueles que na indústria da música serão profundamente e seriamente afetados por isso. Não pedimos iPhones de graça para vocês. Por favor, não nos peça para que nós provenhamos nossa música sem nenhuma compensação.

Taylor."

Muito bem. Quando eu falo que ela é o Michael Jackson de nossos tempos, muita gente leva ao pé da letra…

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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