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"The Martian": um sucesso digital, o novo Ridley Scott e a volta ao espaço

Alexandre Matias

08/06/2015 19h55

The-Martian

Antes de voltar a cutucar velhos clássicos (além de reanimar a história de seu Alien com o prequel Prometheus e flertar com uma continuação para o imortal Blade Runner), o inglês Ridley Scott resolveu se aventurar pelo espaço adaptando o best-seller recente The Martian, que teve sua máquina de hype ligada nesta segunda-feira, quando foram lançados um trailer e um teaser, cada um dando um ponto de vista para o filme. Primeiro, o trailer, que conta a história bem mastigadinha:

Depois vem o teaser, que começa a instigar uma espécie de reality show sobre a missão que termina com o náufrago espacial. Esse ainda não tem versão legendada:

A expectativa em torno deste The Martian, que deve estrear em novembro deste ano, é resultado de uma mistura de diferentes expectativas, que confluem para a avalanche de marketing que começa essa semana.

O livro The Martian, do norte-americano Andy Weir, foi recusado por todas as editoras para quem o autor o ofereceu. Contrariado, decidiu escrever o livro de graça em seu blog, capítulo por capítulo, em 2011. O livro começou a crescer com base no boca a boca online e logo ele estava vendendo seu livro em edições para o Kindle, o aparelho eletrônico de leitura da loja online Amazon, pelo menor preço possível: 99 centavos de dólar. Em três meses havia vendido 35 mil cópias e estava no topo dos mais vendidos da categoria ficção científica. O sucesso continuou crescendo e Weir vendeu os direitos para uma editora de audiolivros (Podium) em 2013 e depois para uma editora de livros impressos (Crown) em 2014, mesmo ano em que vendeu os direitos do livro (que já foi publicado em 21 países) para ser adaptado num filme.

Outra fonte de expectativa é mais um projeto de ficção científica de Ridley Scott. O diretor inglês deixou sua marca na história do cinema ao emendar dois clássicos do gênero – o primeiro Alien (1979) e Blade Runner (1982) – e sobrevive dessa moral até hoje, empilhando filmes que funcionam como relógios mas são completamente sem alma. É o sabor favorito de Hollywood: épicos genéricos sobre qualquer assunto feitos para ganhar Oscars, mas que contam histórias completamente esquecíveis em que personagens sem graça pouco exigem de grandes atores. Tirando um Thelma & Louise (1991) aqui, um Chuva Negra (1989) e um Os Vigaristas (2003) acolá, a filmografia de Scott depois de Blade Runner é uma sequência de histórias bobas contadas como se fossem marcos da história da humanidade. Até o Limite da Honra (1997), Tormenta (1997), Gladiador (2000), Falcão Negro em Perigo (2001), Cruzada (2005), Um Bom Ano (2006), O Gângster (2007), Robin Hood (2010)… São filmes bem realizados, bem produzidos, mas que não dizem nada demais, servem apenas pra esvaziar a cabeça dos espectadores, até quando ele filma épicos de verdade (como 1492, de 1992, e Êxodo: Deuses e Reis, do ano passado – duas piadas de mau gosto).

Isso começou a mudar quando Scott voltou a fazer ficção científica, remexendo na mitologia do primeiro Alien que o consagrou depois de sua estreia arrebatadora, Os Duelistas (1977). Prometheus (2012) não chega aos pés de seus três primeiros filmes, mas tem mais substância do que grande parte de sua filmografia e quase acerta no ponto. O que talvez nos faça acreditar que Ridley Scott possa se sair bem se continuar neste território (daí toda conversa sobre uma continuação de Blade Runner, um assunto que vou falar dia desses). Eis a segunda dose de expectativa sobre The Martian – mais uma ficção científica dirigida pelo inglês.

Mas talvez a principal onda de expectativa seja relacionada a mais uma grande obra cinematográfica sobre o espaço. Com a digitalização dos filmes e a chegada das enormes telas planas aos lares do planeta, a escala desproporcional da sala de cinema perdeu muito de seu impacto e quem melhor tem sobrevivido neste ambiente são filmes que mexem com o gigantismo da tela e o rugido das caixas de som (além das piadinhas que funcionam como alívio cômico coletivo). E enquanto os super-heróis deitam e rolam neste formato, o espaço sideral vem se esgueirando cada vez mais em nosso inconsciente coletivo.

The Martian é o terceiro grande filme sobre espaço sideral em três anos seguidos: primeiro veio Gravidade, do mexicano Alfonso Cuarón em 2013; depois veio Interestelar do inglês Christopher Nolan no ano passado e agora vem esse filme com Matt Damon que estranhamente lembra uma das histórias do filme de Nolan em 2014. É interessante observar como Hollywood vem aos poucos incutindo em nossa curiosidade em relação ao espaço para além da Terra para aproveitar a caixa de luz e som da sala de cinema (usando esse impacto também de forma poética, não apenas épica) mas também para que voltemos a nos acostumar com a ideia de viagens espaciais, um tema que também saiu de moda na vida fora das telas mas que aos poucos vai voltar a fazer parte do nosso noticiário.

Porque Marte nos espera.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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