Blog do Matias

O perturbador final de Twin Peaks abre margem para todo tipo de teoria

Alexandre Matias

11/09/2017 09h20

A saga de Twin Peaks foi encerrada no fim de semana passado num episódio duplo que pegou a todos de surpresa. O filme de dezoito horas imaginado por David Lynch e Mark Frost chegou ao final deixando fãs impressionados e divididos, ao cogitar um final ainda mais surpreendente do que todo o impacto da temporada, que já tinha garantido seu espaço como o grande feito cultural deste ano. Com a conclusão apresentada nos episódios 17 e 18, a série avança ainda mais em sua ousadia narrativa ao convidar o público para montar o quebra-cabeças a partir das peças oferecidas durante toda a temporada. E em menos de uma semana, inúmeras teorias surgiram explicando como o encerramento enigmático tinha finalmente resolvido toda a trama sobre a morte de Laura Palmer. A partir daqui o texto vem cheio de spoilers, por isso vire os olhos para outro lado se não quiser saber de algo sobre o final da temporada.

Ao contrário do que muitos poderiam prever, o penúltimo episódio da temporada trouxe várias explicações e conclusões para o seriado. Que Naido era, na verdade, Diane num disfarce. Que Judy era, na verdade, uma entidade maligna – e Gordon sempre soube disso. O tão esperado confronto entre o agente Cooper e Mr. C não aconteceu, deixando para Lucy a tarefa de liquidar com o doppelganger de nosso protagonista, numa cena tão inusitada quanto ágil. E, claro, a luva mágica do novato Freddie foi a arma usada para acabar com Bob, o espírito do mal responsável pelo sofrimento e morte da outra protagonista da série, Laura Palmer.

O mais impressionante do episódio, no entanto, foi o encontro entre estes dois personagens principais, separados inevitavelmente por suas condições básicas: o agente Cooper nunca poderia encontrar Laura Palmer pessoalmente pois ele só soube de sua existência – como nós – devido ao fato de ela ter sido morta. Mas eis que a mágica de Twin Peaks transforma o personagem de David Bowie (o agente Philip Jeffreys, agora encarnado em uma espécie de chaleira) em uma espécie de máquina do tempo e leva Cooper para 1989, fazendo com que o agente do FBI encontre a adolescente perturbada minutos antes de seu assassinato, puxando-a pela mão e lhe trazendo de volta para “casa”.

Em mais uma das várias referências que David Lynch faz ao Mágico de Oz, um de seus filmes favoritos, Cooper a retira de sua realidade mundana – espertamente revisitada em preto e branco, a estética escolhida por Lynch para representar o passado no já clássico episódio 8 desta temporada – e a cena se colore, dando uma profundidade à situação que mostra a gravidade dos acontecimentos. Como o próprio Jeffreys havia mencionado ao mostrar o número 8 para Cooper e como todo fã de ficção científica sabe, não dá para mudar o passado sem que necessariamente se afete o futuro. “O passado dita o futuro”, explica Cooper em um dos últimos momentos do penúltimo episódio, na frase que o batiza.

Ao salvar Laura Palmer, Cooper deleta seu cadáver de sua realidade, mudando todo o curso da história. Sem o assassinato de Laura, o próprio Cooper não precisa ir para Twin Peaks, o que torna sua despedida de todos os personagens logo após a destruição de Bob ainda mais dramática. Ele sabia que ao fazer o que estava fazendo necessariamente mudaria seu passado e assim ele esqueceria que um dia teria conhecido todas aquelas pessoas.

Num gesto simples e mágico, o agente do FBI simplesmente apaga todas as temporadas de Twin Peaks da existência – tanto as duas primeiras exibidas há um quarto de século quanto a que estava terminando. A única realidade daquele universo que existiria seria a do filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (Fire Walk With Me, que Lynch dirigiu após o cancelamento da série original), que mostra o ponto de vista da garota que seria assassinada. Cooper parece finalmente ter derrotado Judy, que descobrimos naquele mesmo episódio ser uma entidade mais poderosa que Bob, e assim as peças exibidas durante a temporada – a caixa de vidro do primeiro episódio, o monstro que “vomita” o ovo de Bob no oitavo e a possessão de Sarah Palmer, explicada lentamente em outros três capítulos – vão formando o quebra-cabeças. A constatação final acontece com a cena em que a mãe de Laura, Sarah, sai de seu quarto em direção à sala depois de passar alguns segundos gemendo de forma horripilante. Ela entra no cômodo, pega o retrato da filha sorridente, um dos principais ícones representativos da série, atira no chão e passa a agredi-la com garrafadas. É ali que descobrimos que Sarah estava possessa por Judy, que não aceitava que Cooper tivesse mudado o curso da história. O fato da cena em si não evoluir – a imagem fica indo e voltando repetidas vezes, o vidro da garrafa e do porta-retrato sendo estilhaçado e voltando a se recompor num loop que pode ser eterno – mostra que aquele era o final da série e daquela realidade. Sem o assassinato de Laura Palmer, aquela realidade não existiria. Mas Judy estaria disposta a perder tudo de uma forma tão simples?

E é aí que entra o último episódio. O décimo oitavo episódio. O episódio que certamente mais dividiu os fãs de Twin Peaks e que mais encantou os fãs de David Lynch – mais até que o oitavo. E é aí que começam as teorias imaginadas por fãs da série em todo o mundo, cogitando possibilidades para explicar o que acontece a partir do momento em que Cooper salva Laura.

A principal delas – e que ganha mais adeptos e mais pistas para justificar sua existência – é a de que Cooper e Diane foram para uma outra realidade para aprisionar Judy nela. Sendo uma força tão maligna, ela só seria contida com a destruição de todo o universo em que ela habitava. E é isso que Diane e Cooper fazem ao mudarem de realidade segundo as pistas dadas pelo Gigante logo no início da temporada – depois de quatrocentas e trinta milhas, eles cruzam de uma realidade para outra e se transformam em Richard e Linda. A incômoda cena de sexo entre os dois faz parte deste ritual de mudança de realidade e quando Cooper – ou Richard? – se descobre sozinho em um quarto de um outro motel, ele sabe exatamente o que fazer. Descobre o paradeiro de Laura Palmer nesta nova realidade – Carrie Page é seu novo nome – depois de passar por um café chamado Judy’s e a leva de volta para Twin Peaks. Ao confrontá-la com seu antigo endereço e não tirar nenhum tipo de reação, na última cena, o agente do FBI parece hesitante, como se perdesse o equilíbrio e o rumo de tudo que estava fazendo. Pergunta então a questão que ecoará para sempre nas cabeças dos fãs da série: “Que ano é esse?”

Logo em seguida, ouvimos a voz da mãe de Laura chamar seu nome exatamente como no primeiro episódio da série, o que faz que ela reconheça e lembre-se de tudo, dando o grito que também já é um clássico para a série. Vemos então a casa dos Palmer, que fica sem energia e a luz acaba, deixando a tela em preto por uns bons segundos (como outro final controverso de outra série clássica, que não vou mencionar o nome aqui para não estragar a diversão de quem não sabe do que estou falando). Segundo esta mesma teoria que menciona a possibilidade de aprisionar Judy em uma realidade alternativa para depois destruí-la, as luzes se apagando na casa dos Palmer são a prova que Judy foi derrotada e que aquela nova realidade parou de existir. Laura e Cooper voltariam então para o Black Lodge não mais como pessoas e sim como entidades – e a cena final, dos créditos, é quando Laura explica para Cooper o plano (que é do dele mesmo, de Gordon Cole, Major Briggs e Philip Jeffreys – com a ajuda do Gigante) para deter Judy – um plano kamikaze em que os dois se sacrificariam para conter aquela presença maligna.

De carona nesta mesma teoria, outra cogita a possibilidade dos dois últimos episódios serem espelhos um do outro, sendo feitos para serem assistidos simultaneamente. A principal pista para essa sincronização seria a imagem do rosto de Cooper superposta sobre quase toda a cena após a batalha final do episódio 17, quando ele diz com a voz distorcida que “vivemos dentro de um sonho”. A sincronia inclusive justificaria o ritmo de cada episódio – enquanto o 17 (que seria o final pensado por Mark Frost) é cheio de situações, de reviravoltas e de explicações, o 18 (que seria o final pensado por David Lynch) é lento, sem diálogos e quase sem texto, com pouca ação e muita dúvida no ar. É claro que esse tipo de sincronia é sempre suscetível à aceitação do espectador – e talvez aí esteja o recado dado aos espectadores da série. É claro que alguém já sincronizou os dois episódios e os colocou juntos como um só online (“duas aves com uma só pedra” então não significaria apenas o fim de Bob e Judy com uma só tacada como os dois episódios sendo vistos como um só):

Uma outra teoria ainda diz que a realidade paralela visitada por Cooper e Diane no episódio 18 é, na verdade, a nossa realidade (confirmado por uma série de detalhes – desde a população da cidade de Odessa ao fato de que a dona da casa dos Palmer ser vivida pela própria moradora da casa atualmente). Isso conversaria com o sonho de Gordon Cole com Monica Belucci, em que ele (vivido pelo próprio David Lynch) é confrontado com a pergunta sobre quem é o sonhador do sonho em que vivemos, pouco antes de ele olhar para trás e quebrar a quarta parede, olhando para o espectador!

Mas quem é o sonhador? Esta versão diz que somos nós mesmos, que sonhamos com Twin Peaks: o episódio 17 seria o final de sonho, com tudo do jeito que a gente imaginava (o final do confronto entre Freddie e Bob parece um desenho do Scooby-Doo) e o episódio 18 seria o pesadelo, enigmático, hermético, sem respostas. Outra versão diz que o sonhador é Laura, que teria sonhado todas as três temporadas da série, acordando com a voz de sua mãe no primeiro e no último episódio. Outra versão diz que o sonhador é Cooper, preso até hoje no Black Lodge e imaginando como seria voltar e colocar as coisas em ordem (daí a cena final seria Laura Palmer sussurrando ao seu ouvido que “é tudo um sonho”).

Há ainda os que leram a terceira temporada da série como a despedida cinematográfica de Lynch, aproximando seu maior momento de popularidade com sua filmografia, nada popular. Assim, o discurso final de Cooper poderia ser entendido como o adeus de Lynch a todos seus fãs, tanto os de seus filmes como o de Twin Peaks.

Inúmeras outras versões circulam online (a maioria delas enraizada no subdiretório da rede social Reddit dedicado ao tema), cada uma delas pegando pontas soltas e pistas aleatórias que surgiram nos dezoito episódios da temporada, nas duas primeiras temporadas e no filme Fire Walk With Me. Da mesma forma tantos outros brigam sobre a quantidade de histórias deixadas em aberto, especificamente a de Audrey, bem como o fato de que a temporada não avança muito na história e acrescenta uma série de personagens que são irrelevantes para o desfecho final. Mas alguém consegue imaginar Twin Peaks: O Retorno sem os irmãos Mitchum? Sem os diálogos berrados de Cole? Sem Dougie Jones? Sem Janey-E? Sem Chad e Red? Sem Hutch e Chantall? Sem o ataque na caixa de vidro, a senhorita Dido, as discussões de Audrey com Charlie, a tulpa de Diane, os diálogos sem pé nem cabeça e os shows do Roadhouse? Sem a trama envolvendo as investigações sobrenaturais de Bill Hastings? Sem os Woodsmen, a bomba atômica, o andar de cima da loja de conveniência ou o besouro-sapo?

Nem tudo na vida é explicado. Muitas de nossas dúvidas existenciais são sanadas simplesmente pelo fato de serem esquecidas. Pessoas vêm e vão em nossas vidas e é a sensação que sentimos ao atravessá-las é o que realmente importa. Uma das teorias mais legais sobre o final de Twin Peaks diz respeito ao nome original de Judy, que pode ser entendido como “jiāo dài”. O termo (交代 em mandarim) quer dizer “explicar”, “conceder”, “ilustrar”. Ao cogitar a possibilidade de que a explicação seja uma “força extremamente negativa”, Lynch e Frost optam pelo mistério como o sentido da vida, deixando-o no ar para que o nome de sua maior obra atravesse o tempo, em vez de ser consumida rapidamente numa simples reviravolta definitiva. Um final em aberto, raro no mercado de entretenimento atual, mas não raro nas melhores produções de TV recente (The Wire, Sopranos, as primeiras temporadas de True Detective e Westworld e Lost), uma lista que parece ser encabeçada por esta última temporada de Twin Peaks, a melhor série deste século.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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