Blog do Matias

Passado ou futuro? O final de Twin Peaks é tão brilhante quanto assustador

Alexandre Matias

04/09/2017 09h01

Que viagem. Que sonho. Que pesadelo. Os dois episódios que encerraram a terceira temporada de Twin Peaks mantiveram o nível que David Lynch e Mark Frost estabeleceram durante toda a narrativa deste ano. Tão assustador quanto brilhante, foram dois capítulos que trouxeram o que muitos fãs esperavam e que ao mesmo tempo tirou o chão de todo mundo que achava que tinha alguma ideia para onde a série estava rumando. Se você não assistiu aos dois episódios, hora de virar os olhos para cima, porque lá baixo virão os spoilers.

O season finale foi dividido didaticamente em duas partes. Na primeira, o episódio 17 batizado de “O passado dita o futuro”, inúmeras respostas vieram à tona, em um episódio cheio de revelações e surpresas como o anterior, feito para os fãs aplaudir entusiasmados a reencontros, reviravoltas e vitórias. Descobrimos quem é Judy (“uma força extremamente negativa”, explica Gordon Cole) e quem é Naido (Diane, vejam só), personagens secundários como Chad e Freddie tiveram seus momentos, Mr. C e Bob parecem ter encontrado seus destinos finais. Reencontramos o Gigante e o major Briggs no cinema que ainda não sabemos se é o white lodge. Vemos a grande cena redentora do fim de Bob, uma luta que só pode ser assistida – pois ao ser descrita revela-se ridícula.

Ao mesmo tempo, o agente Cooper e a equipe do FBI finalmente chegam a Twin Peaks – em grande estilo – e Cooper pode visitar o andar de cima da loja de conveniência, onde ele pode se reencontrar com Philip Jeffreys, que lhe permitiu assistir a eventos que aconteceram antes do início da primeira temporada. Uma estranha sensação, no entanto, atravessa todo esse decorrer dos fatos quando David Lynch superpõe um close extremo do rosto preocupado do agente Cooper sobre as cenas que acontecem na delegacia. É mais uma referência que Lynch faz ao final de 2001 (o rosto do astronauta encarando o espectador de frente enquanto assistimos a uma transformação completa da realidade. Será que Cooper é o sonhador? Um observador externo da própria vida? Parece um estranho presságio do que irá acontecer em seguida.

De volta a 1989, Cooper assiste ao encontro dos jovens Laura e James poucas horas antes do assassinato da primeira em uma cena em preto e branco, conseguindo resgatar Laura de seu destino final ao puxar-lhe pela mão através da floresta – e a cena passa a ganhar cores. “Onde vamos?”, pergunta Laura a Cooper, que responde que eles estão indo para casa. Esse gesto faz o cadáver de Laura envolto em plástico desaparecer da história e voltamos para o início da primeira temporada, quando o personagem Pete Martell (vivido pelo falecido Jack Nance) avisa à esposa que irá sair para pescar – e, ao contrário do que sabemos, ele não acha mais o corpo de Laura. Pouco antes do fim do episódio, a estranhos gemidos na casa dos Palmer pouco antes de vermos uma raivosa versão de Sarah, a mãe de Laura, sucumbir à loucura e a atacar violentamente o retrato da filha com uma garrafa, aos berros.

Na floresta, Cooper conduz Laura pela mão no escuro até ouvir o estranho ruído que saía do gramofone do Gigante na primeira cena da temporada e perceber que ela sumiu, não sem antes ouvir o mesmo grito assustador que ela deu ao desaparecer do black lodge no início do primeiro episódio. A cena da floresta se desfaz com a imagem do Roadhouse, onde encontramos Julee Cruise vinte e cinco anos mais velha cantando a mesma “The World Spins” que ela cantou no episódio 14 da primeira safra de episódios da série, quando o Gigante anunciava que estava acontecendo de novo. Assim termina o décimo sétimo episódio e confortavelmente satisfeitos com as revelações e as respostas que soubemos, nos preparamos para a última hora do seriado, onde provavelmente veríamos as últimas respostas surgir.

Mas em vez disso, o episódio chamado “Qual Seu Nome?” zera todas as expectativas. O único momento confortável é o reencontro de um novo Dougie Jones com sua família em Las Vegas, a única conclusão apresentada em todo o episódio. Logo em seguida, Mike entra mais uma vez em cena para perguntar se estamos vivendo o passado ou o futuro, antes do galho seco que atende por Braço perguntar sobre a história da garotinha que vive na alameda de baixo. Mais uma vez Laura reaparece no black lodge apenas para sussurrar algo assustador no ouvido de Cooper e desaparecer aos gritos mais uma vez. Cooper reencontra o pai de Laura, Leland, que fala para ele procurar por sua filha e ele sai das cortinas vermelhas direto para a floresta, onde encontra Diane.

Pelo resto do capítulo, assistimos Cooper e a renascida Diane – de cabelos vermelhos e unhas pintadas de preto e branco, como o black lodge – atravessar de carro uma zona sem volta, 430 milhas de distância de Twin Peaks (“Quatro. Três. Zero” era uma das dicas que o Gigante deu no início da temporada). O próprio carro que Cooper dirige é um carro antigo e a cena parece saída de um filme de Hitchcock, de tão correta. Eles cruzam a tal zona e o dia vira noite. Logo depois, param num hotel de beira de estrada onde vão se hospedar, não sem antes Diane ver a si mesma à distância. No quarto, eles transam ao som da mesma “My Prayer” que tocava no rádio quando os Woodsman atacaram o Novo México no episódio 8, numa cena de sexo com ares macabros. No dia seguinte, Cooper acorda sozinho no quarto de hotel apenas para encontrar uma carta de uma certa Linda endereçada a um certo Richard. Os mesmos personagens citados pelo Gigante no início da temporada.

A essa altura, todos os espectadores já estão coçando a cabeça sem saber para onde o seriado vai. Sozinho, Cooper sai do hotel e o hotel é um outro hotel. Entra no carro e seu carro é outro carro. Sem reconhecer onde está, para em um café na beira de estrada chamado Judy’s e depois de ver três caubóis importunarem uma garçonete, ele dá um jeito nos três, põe suas armas no óleo de batatas fritas, se identifica como agente do FBI e pede para a garçonete o endereço da outra funcionária do local, que não está lá. “O que diabos acabou de acontecer?”, pergunta-se um dos caubóis ao se levantar do chão.

E nós perguntamos o mesmo. Cooper vai para o endereço e encontra-se com Laura Palmer, envelhecida. Mas ela não é Laura Palmer e sim Carrie Page, não sabe quem é Laura Palmer, seus pais não se chamam Leland e Sarah e há um cadáver em sua casa. Quando Cooper pergunta se ela não quer ir para Twin Peaks, em Washington (que ela acha que é a capital norte-americana), ela topa no mesmo instante. Os dois vão de carro para a cidade fictícia do noroeste dos EUA, chegam à casa em que Laura Palmer morava e nenhum Palmer mora lá. Perturbado como todos os espectadores, Cooper vai em direção ao carro, até que para e se pergunta:

– Que ano é esse?

Carrie olha fixamente para a casa e ouve o nome “Laura” ser chamado à distância. Ela começa a tremer e dá o mesmo grito característico de seu desaparecimento. Cooper assusta-se. As luzes da casa se apagam. A tela se apaga. Fica tudo preto, apenas com o som do grito de Laura se espalhando no ar. Meio minuto de tela escura e nos encontramos novamente com o rosto assustado do agente Cooper no black lodge, ouvindo algo sussurrado por Laura. Uma imagem estática – e assim sobem os créditos finais.

O que aconteceu? Em que ano estamos? A história de Laura desapareceu? Isso muda alguma coisa? Quem gritou “Laura”? E o que aconteceu com Diane? E a história de Audrey? E Tina, e Billy, e Charlie, e Linda? Bob morreu? Fomos para uma realidade paralela?

Depois de um episódio didático e feito para os fãs (o terceiro de uma série), Lynch e Frost terminam seu seriado apagando a luz, deixando o mistério no ar e, talvez, suas pistas espalhadas pela temporada. Um final imprevisível, violento, assustador, surreal e brilhante, como toda a história de Twin Peaks.

Se é que é um final.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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