Blog do Matias

Há 25 anos, os Beastie Boys abriam a cabeça de toda uma geração

Alexandre Matias

21/04/2017 06h56

É difícil pensar num mundo sem os Beastie Boys. O trio de punks nova-iorquinos largou o hardcore no meio dos anos 80 para surfar a onda do hip hop e se transformou no veículo perfeito para popularizar ainda mais a maior revolução cultural dos últimos trinta anos. A atitude foda-se típica da pós-adolescência combinava-se perfeitamente com a ostentação de galhofa que o Mike D, Ad-Rock e MCA assumiam ao se reinventarem rappers e os clipes das músicas de seus hits do disco de estreia (Licensed to Ill, de 1986, um disco que até hoje é o mais vendido da banda) eram versões pós-modernas dos filmes dos Irmãos Marx, com citações e referências (e samples) que os localizavam cronologicamente na história do rock.

Mas sua importância vai muito além do contexto hip hop – que não é pouco. O grupo ajudou a moldar a mente (e os quadris) de pelo menos duas gerações perdidas após a contracultura hippie e a contracultura punk. Usando o rap como idioma, os Beastie Boys ressignificaram toneladas de referências culturais, invertendo pontos de vista, comparando universos distintos, contrapondo gêneros musicais. Forçaram os fãs que os seguiram fiéis após o fracasso comercial do segundo disco (o mágico Paul’s Boutique, de 1989, um dos discos mais importantes da história do som gravado) a expandir horizontes, a sair da bolha, a olhar para os lados e abrir a cabeça. A consolidação desta personalidade musical aconteceu justamente em seu terceiro disco, o cúmplice Check Your Head, lançado exatamente há vinte e cinco anos, no dia 21 de abril de 1992.

Desde seu primeiro instante o disco é uma carta de propósitos. O primeiro som que escutamos no disco é a voz de Robin Zander, vocalista da banda de rock farofa Cheap Trick, extraída do meio do lado B do disco que a banda gravou ao vivo no teatro Budokan, no Japão: “A próxima é a primeira música no nosso disco novo”, brada o vocalista antes de sua “Surrender” entrar no disco original, cortada para a base de “Jimmy James”, esta sim a primeira música do então disco novo dos Beastie Boys. Em seguida, entra a bateria da música “I’m Chief Kamanawanalea (We’re The Royal Macadamia Nuts)”, uma paródia que o grupo americano Turtles fez para as músicas dos povos indígenas de seu país, encaixada no groove da versão de “Happy Birthday” de Jimi Hendrix, cuja guitarra de “Foxy Lady” ainda dá um rasante antes da entrada do vocal. São referências apenas para iniciados, piadas internas seríssimas que passam batido ao ouvinte casual – mas sem excluí-lo. O disco começa justamente com o trio saudando todos os ouvintes: “E aí pessoal, como estão, um novo dia está nascendo”, diz MCA. “Para a mãe terra é uma manhã novinha”, segue Mike D. “Por tanto tempo, houve tanta espera”, continua Ad-Rock, antes dos três dizerem juntos: “Mas agora que o sol está brilhando, vamos recolher o toldo!” É a mensagem explicitada no título do disco, referida mais uma vez no início de “Pass the Mic”, “se você pode sentir o que estou sentindo é uma obra-prima musical / Se você pode ouvir com o que estou lidando é no mínimo legal”.

Check Your Head é um parque de diversões de referências musicais, mas, principalmente, é um parque de diversões. Por ele os Beastie Boys perambulam despreocupados, andando de skate e voltando a tocar instrumentos (Ad-Rock na guitarra, MCA no baixo, Mike D na batera), acompanhados de perto de três seus novos compadres – o produtor brasileiro Mario Caldato, o DJ Hurricane e o tecladista nipo-mexicano Money Mark. Neste novo cenário, a banda começa a mergulhar em referências obscuras trazendo-as à tona em forma de canções que vão de raps diretos a jam sessions despreocupadas, colagens engraçadinhas e mensagens profundas. Tinham a favor o fato de ninguém estar nem aí para seu próximo disco.

O sucesso do álbum de estreia colocou as expectativas em relação ao segundo disco muito altas – o que permitiu que a banda fizesse o que estivesse a fim de fazer. Os três mudaram-se para Los Angeles e começaram a andar com os Dust Brothers, produtores que estavam ganhando fama com as colagens musicais que faziam usando o recém-inventado sampler – gravador que permitia disparar trechos de músicas pré-gravadas como se elas fossem notas em um teclado. O novo instrumento provocou uma pequena revolução fonográfica ao permitir que discos inteiros fossem gravados usando trechos de músicas alheias sem que fosse preciso pagar pelo direito autoral. Isso permitiu que uma geração inteira de artistas ingleses reinventasse a dance music, enquanto nos Estados Unidos esta época foi abraçada pelo hip hop – sendo que Paul’s Boutique, o disco que os Beastie Boys gravaram com os Dust Brothers, é seu principal exemplar.

Mike D, Ad-Rock e MCA

O disco, no entanto, foi recebido friamente pelo público. Ao misturar o dedo na cara do hip hop com riffs de hard rock e de rock clássico, os Beastie Boys atingiram ouvintes que nunca haviam imaginado – principalmente o tipo de playboy que ridicularizavam em “Fight for Your Right to Party”. Foi este público que transformou o grupo de uma novidade peculiar da cena de rap nova-iorquino em novos popstars (a ponto de tocarem como banda de abertura da Madonna) e que depois o abandonou quando lançaram seu disco mais ousado. O fracasso comercial de Paul’s Boutique, no entanto, foi uma benção para o trio. Longe das pressões da gravadora, fizeram seu próximo disco do jeito que queriam – sem pressão.

Em vez de alugar um estúdio, transformaram um salão de festas num estúdio que, graças às habilidades do novo tecladista como carpinteiro, também tinha uma tabela de basquete que eles todos usavam nos intervalos de gravação. Quando estavam gravando, discos estavam por toda a parte – Isaac Hayes, Bad Brains, James Brown, “Scratch” Lee Perry, A Tribe Called Quest, Alice Coltrane, Jazz Cruzaders, Stevie Wonder, De La Soul. Quando gravavam seus instrumentais queriam soar como a banda de James Brown, os JB’s, ou os Meters e a limitação técnica de serem músicos nascidos pelo faça-você-mesmo do punk rock não os impedia de embalarem grooves irresistíveis.

Era a época em que MCA viaja para o Tibet e volta nitidamente influenciado pela cultura oriental (não por acaso a última faixa do disco chama-se “Namasté”) e aquela nova consciência influenciaria o grupo cada vez mais. Mas naquele terceiro álbum ainda era um elemento incipiente e misturava-se ao hardcore instrumental da banda nova-iorquina Front Line recuperado por MCA enquanto Mike D recitava letras que lia na contracapa de um disco de Sly Stone. “Live at PJ’s” não disfarçava a referência do disco do Kool & the Gang, enquanto “Groove Holmes” era uma tentativa descarada de soar como o tecladista Richard “Groove” Holmes – mas o fato de isso vir assumido no título da música era mais uma prova de que os Beastie Boys haviam crescido.

Foi naquele disco que eles se tornaram os Beastie Boys que amamos até hoje. Licensed to Ill era um disco de festa tão eterno quanto perecível. Paul’s Boutique era uma biblioteca em forma de disco, o Sgt. Pepper’s implodido para dentro de uma geração, que deu origem a gêneros musicais inteiros, como o trip hop e o big beat. Em Check Your Head os três equilibraram estes pontos distintos de duas suas personalidades, assumindo o papel de líderes de um novo tipo de comportamento, que lhes permitiu abrir sua própria gravadora (a Grand Royal, que também era uma revista, e lançou artistas como Luscious Jackson e Sean Lennon), ter uma grife de roupas próprias (a X-Large), dirigir seus próprios clipes, lançar discos instrumentais e EPs de hardcore, fazer um festival a favor do Tibet, gerir a própria carreira e a própria vida sem precisar fazer diferente do que faziam em disco.

Músicas como “So What’cha Want”, “Finger Lickin’ Good”, “Something’s Got to Give” e “Gratitude”são clássicos de uma época em que gêneros musicais eram separados muros altos, demolidos carinhosamente pelo rolo compressor pilotado pelo trio. Os limites entre o rap, o rock, o soul, o funk, o jazz e o punk foram devastados por três moleques que descobriram que podiam crescer sem perder a juventude, que envelhecer não era sinônimo de esmaecer, que dá para amadurecer brincando. Com Check Your Head os Beastie Boys fizeram jus ao que parecia ser uma heresia em seus primeiros dias – estar posicionado alfabeticamente entre os Beach Boys e os Beatles. Mais do que uma grande banda de rap, eles são um dos grupos mais importantes da história da cultura – e não apenas da música – popular recente.

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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