Blog do Matias

Há 50 anos, o primeiro disco dos Doors transformava o rock em mitologia

Alexandre Matias

04/01/2017 19h11

doors

No dia 4 de janeiro de 1967 um segredo bem guardado pela cena rock de Los Angeles tornou-se público. Gravado em apenas uma semana em agosto de 1966, o primeiro disco dos Doors abriu a sequência de álbuns que transformaria aquele ano num dos pilares centrais da cultura pop, mesmo cinquenta anos depois (Sgt. Pepper’s e Magical Mystery Tour dos Beatles, Between the Buttons e Their Satanic Majesties Request dos Rolling Stones, O Bidú: Silêncio no Brooklin de Jorge Ben, Younger than Yesterday dos Byrds, os dois primeiros do trio Jimi Hendrix Experience, o primeiro do Captain Beefheart, Something Else dos Kinks, o primeiro dos Mutantes, o Sell Out do Who). E por mais que os outros discos que compõem esta safra fizessem parte de uma lenta e perceptível evolução da música popular que começara dois anos antes, ninguém na época estava preparado para o choque que foi aquele disco gravado praticamente ao vivo. Só outros dois discos de estreia têm o peso deste primeiro registro da banda californiana – a impressionante estreia do Pink Floyd e o ousado primeiro disco do Velvet Underground. Contudo, a estreia dos Doors elevaria o rock a um outro nível, costurando um impensável cânone que incluía teatro grego, música de cabaré alemão, música erudita, bossa nova, blues elétrico, poesia, blasfêmias e jazz.

Os Doors eram um produto natural da evolução pela qual o rock’n’roll atravessou em seus primeiros anos de vida. Ele já havia abandonado suas tradições iniciais – a cruza de country com rhythm’n’blues forjada por jovens brancos e negros nos EUA – quando os Beatles conquistaram os Estados Unidos e depois o mundo transformando aquela novidade que Elvis Presley difundira nos anos 50 na trilha sonora de uma juventude consciente de seu próprio movimento (abandonando quase sem querer o sufixo “‘n’roll” da nomenclatura do gênero). À medida em que ganhava mais territórios vendendo uma nova abordagem musical para os anos 60, o rock passava a explorar novos territórios artísticos e musicais que o elevaram para sua terceira fase, a psicodelia. Iniciada por outra banda inglesa – o Pink Floyd – mas difundida mundialmente pelos Beatles, a exploração das fronteiras estéticas e linguísticas desta nova etapa funcionaria como uma carta branca de possibilidades para jovens músicos e compositores espalhados pelo planeta.

A Califórnia, que seria o polo norte-americano da psicodelia, buscava uma sociedade alternativa e cunhou o conceito do hippie como conhecemos hoje. A mítica esquina das ruas Haight e Ashbury, em São Francisco, logo tornaria-se a o centro de tração de hippies de todo o planeta, transformando a cidade que anos depois sediaria o Vale do Silício na meca do zen-hippismo nos EUA. Da fundação do clube The Matrix (inaugurado com o primeiro show do Jefferson Airplane) à transformação da banda Warlock no Grateful Dead, São Francisco viu nascer uma cena essencialmente hippie, que pariria nomes fundamentais para a psicodelia norte-americana como Santana, Big Brother & the Holding Company (liderado por uma jovem vocalista chamada Janis Joplin), Moby Grape, Flamin’ Groovies, Quicksilver Messenger Service, Country Joe and the Fish, entre outros.

Em Los Angeles, ao sul daquele estado, as coisas eram diferentes. A plasticidade da jovem metrópole concebida para simbolizar o tesouro no fim do arco-íris da busca pelo extremo oeste da época dos caubóis – em parte desenhada pelas nascentes indústrias do disco e do cinema, esta última mais forte que a primeira -, tornava sua cena cultural em busca de uma identidade própria, mesmo em seu próprio rock’n’roll, ainda visto como subgênero do entretenimento local, mesmo que tenha firmado-se nacionalmente ao lançar toda a cena surf que surgiu na esteira dos Beach Boys, como Jan and Dean, Bel-Airs e Surfaris, que pavimentaram o caminho para bandas de garagem como Seeds, Leaves e Music Machine. A cena local girava em torno de uma rua chamada Sunset Strip, uma das principais da cidade, lar para algumas das principais casas de shows de lá (especificamente o Whisky a Go Go, o Roxy, o Pandora’s Box e o London Fog). Porém, enquanto a cena de São Francisco poderia ser vagamente rotulada como “acid rock”, devido à influência do ácido lisérgico nas letras e na sonoridade das bandas, que aos poucos ficava cada vez mais parecida, em Los Angeles não havia uma tendência musical que prevalessesse, reunindo bandas tão diferentes quanto os Byrds, o Love, Buffalo Springfield, Strawberry Alarm Clock e os forasteiros Frank Zappa e Captain Beefheart – e cada uma delas soava completamente diferente das outras.

The Doors: John Densmore, Robbie Krieger, Jim Morrison e Ray Manzarek

The Doors: John Densmore, Robbie Krieger, Jim Morrison e Ray Manzarek

Como os Doors. Formado pelos dois irmãos do tecladista Ray Manzarek (que entrou depois), a banda Rick & the Ravens logo tornou-se o principal veículo do músico, que convidou dois amigos que conhecia de lugares diferentes para entrar para o grupo: Ray conhecia o baterista John Densmore, que tocava jazz, de aulas de meditação e o futuro vocalista Jim Morrison no curso de cinema da UCLA. Ainda com o antigo nome, a banda contava como Ray, Jim, John e os irmãos de Ray, Rick na guitarra e Jim na gaita, além da baixista Patty Sullivan. Como um sexteto, o grupo gravou uma demo, mas os irmãos de Ray não gostaram o resultado e saíram da banda, seguidos por Patty. Ray, pianista de formação erudita, não teve dificuldade de assumir o baixo da banda tocando-o com a mão esquerda em um teclado elétrico, enquanto convidou outro amigo, Rob Krieger, que estava começando a aprender a tocar violão flamenco para assumir a guitarra. A nova formação inspirou o vocalista a mudar o nome da banda para The Doors – nome tirado do título do livro As Portas da Percepção, de Aldous Huxley, sobre suas experiências com drogas psicodélicas, título que, por sua vez, havia saído de uma frase do poeta inglês William Blake que dizia que “quando as portas da percepção estiverem abertas, tudo parecerá como realmente é: infinito”.

Era uma outra banda. Por mais que ainda vagassem pelos standards de blues e garage rock em seu repertório (como “Louie, Louie”, “Money” e “Hoochie Coochie Man”), aos poucos eles começavam a compor suas próprias músicas e, ao contrário das bandas de São Francisco, iam para longe dos clichês do rock da época. Era um baterista de jazz, um guitarrista de flamenco, um tecladista de blues de formação erudita e um vocalista que, ainda tímido, cantava de costas para o público. Toda a psicodelia caía sobre as letras de Jim, que encarnava um trovador que improvisava versos surrealistas sobre as jam sessions cada vez mais extensas da banda, que chegavam a ultrapassar os dez minutos. Estas foram responsáveis por levar o grupo do London Fog, onde tocavam com mais frequência, para o palco do Whisky a Go Go, o principal da Sunset Strip. Foi ali que Jim finalmente conseguiu encarar o público e liberar seu lado performer, entregando-se às apresentações como um ator desesperado.

A banda assinou com a hoje mítica gravadora Elektra, que à época começava a apostar em música pop e abraçaria o rock do final dos anos 60 como sua principal bandeira (depois dos Doors, assinou com a Paul Butterfield Blues Band, o Love, os Stooges de Iggy Pop, o MC5, Tim Buckley e Bread, entre outros). O fundador da gravadora, Jac Holzman, chamou o produtor Paul A. Rothchild (que assumiria o papel de George Martin dos Doors, produzindo cinco de seus seis discos) para capturar a essência daqueles shows. E a gravação do disco de estreia da banda, que foi batizado apenas com seu nome, foi praticamente um show no estúdio Sunset Sound Recorders, com quase todas as músicas gravadas ao vivo em uma mesa de quatro canais (com apenas três usados). As duas primeiras canções gravadas (“Moonlight Drive” e “Indian Summer”) foram limadas da edição final e só foram aparecer nos discos seguintes da banda.

As que ficaram são a matéria que compõe a lenda. O grupo emplacou três hits logo de saída: “Break On Through (To the Other Side)”, “Light My Fire” e “The End”, sendo que as duas últimas eram das jam sessions intermináveis que deram fama à banda. “Break on Through” abre o disco misturando o teclado grave de “What I’d Say” de Ray Charles com a levada de bossa nova, apresentando formidavelmente a banda. “Light My Fire”, a primeira canção composta por Krieger, teve de ter sua letra mudada em apresentações ao vivo para evitar problemas com a moral e os bons costumes norte-americanos, que não aceitavam que se cantasse sobre ficar chapado àquela época. E a épica “The End”, em que Jim Morrison encarnava o Édipo Rei para maldizer seus próprios pais, teve o verso “fuck” soterrado nas gravações.

Além destas, o grupo mostrava-se hábil na composição de curtas músicas feitas para dançar – sem perder nem a poesia lisérgica, nem os devaneios lúdicos instrumentais. Faixas como “Soul Kitchen”, “Twentieth Century Fox”, “I Looked at You” e “Take It as It Comes” eram pérolas do rock de garagem norte-americano que fariam a fama de bandas de um hit só. As viajantes “The Crystal Ship” e “End of the Night” abriam as janelas para viagens mais transcendentais, enquanto as duas únicas versões do disco “Alabama Song (Whisky Bar)” (composta pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht e musicada por seu conterrâneo Kurt Weill na peça Mahagonny-Songspiel ,em 1927) e “Back Door Man” (composta pelo blueseiro Willie Dixon em 1960) esticavam as asas do grupo entre Chicago e Berlim, trazendo álcool e sexo anal para a mistura intensa de um surpreendente disco de estreia.

Depois disso, os Doors partiram para outras viagens, até que Jim encerrou a carreira da banda precocemente ao morrer em uma banheira em Paris no dia 3 de julho de 1971. O trio remanescente até que tentou continuar sem o vocalista original por dois discos, sem sucesso. Afinal, a essência da banda estava naquele disco mágico e improvável que inaugurou 1967 como um dos grandes anos da história da cultura pop, quando os quatro músicos conseguiram transformar o rock em parte de um mitologia ancestral.

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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