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Não dá para imaginar um mundo sem David Bowie

Alexandre Matias

11/01/2016 07h51

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É difícil imaginar um mundo sem David Bowie – ainda mais agora, à luz da notícia de sua morte. Mas o fato é que o mundo seria um lugar bem pior se David Bowie não tivesse existido.

Bowie transformou a sensação de estranhamento que todos nós sentimos – em maior ou menos escala – em grande arte. Estranhamento em relação ao mundo, à sociedade, à vida, a si mesmo. Contemporâneo da geração de ouro da história do rock (era cinco anos mais novo que Paul McCartney, dois anos mais novo que Pete Townshend e Eric Clapton), ele chegou tarde nos anos 60 para garantir presença no panteão que mudou a história da cultura ocidental. Mas não sem motivo. Ao lançar a própria carreira no final da década do rock clássico, ele a sincronizou com um momento único na história da humanidade e fez-se notar pela primeira vez lançando uma música sobre a solidão no espaço sideral e o olhar frio e distante sobre o planeta, a Terra, o mundo, nós mesmos.

"Space Oddity" não era apenas o hit que a BBC escolheu como trilha sonora para a chegada do homem à Lua em 1969. Ela lançava questionamentos num tom solene para uma geração que ainda iria acordar do sonho hippie. O festival de Woodstock aconteceria um mês após aquele momento e em menos de seis meses os Rolling Stones trariam – no fatídico festival de Altamont – para a realidade o temor pressentido por Dennis Hopper em seu filme Easy Rider – Sem Destino. A era da paz e do amor terminaria com nervos à flor da pele e ao lançar sua carreira naquele exato momento Bowie se desprendia da geração que achava que deveria pertencer – a dos Beatles e dos Rolling Stones – para criar a sua própria era.

E sempre à sombra do estranhamento. Usar o espaço sideral como trampolim para sua carreira foi providencial para seu segundo ato, quando criou o alienígena Ziggy Stardust, no início dos anos 70. Aquele personagem era tudo que a década de 70 precisava antes de virar uma enorme caricatura de si mesma: andrógino, de cabelos vermelhos, tapa-olho e guitarra em punho, o conto de fadas glam rock contado em um de suas obras-primas (o mítico The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de 1972) era uma celebração e uma crítica ao status atingido pelo rock, em que Bowie se vendia como um híbrido de deus inatingível e item de consumo, na melhor definição do que é um popstar.

Ziggy também foi uma fórmula para as diferentes personas que Bowie assumiu desde então – o exilado em Berlim, o outsider, o líder do Tin Machine, o pierrô new romantic, o Thin White Duke -, bem como para outros personagens que viveu graças à moda, ao comportamento e ao cinema (como o senhor cool, o Rei Goblin, o marido da supermodelo, Nikolai Tesla, o gay chique, o pacificador em Zoolander). Gravou com John Lennon e Mick Jagger, apresentou ao mundo Lou Reed (e, de brinde, o Velvet Underground), Iggy Pop (e, de brinde, os Stooges), o Kraftwerk (e, de brinde, a música eletrônica) e chancelou Brian Eno como produtor. Culpe-o também pela popularização do saxofone, instrumento que tocava – e o que pode ser mais cool do que David Bowie tocando sax?

Apesar de ícone do rock e autor de riffs e refrões memoráveis, ele era um artista clássico e classudo que usou o rock como veículo para voos mais audazes e foi um dos popstars que melhor souberam lidar com o jetset, sempre em voga. Transitou entre a ficção científica e a música eletrônica, entre a atuação e a moda, entre discussões sobre sexualidade e drogas. E que compositor – suas maiores canções são baladas tristes e contemplativas que o alinham a compositores como Cole Porter, Noël Coward, Scott Walker, Leonard Cohen.

Nestas canções sempre cantou sobre as transformações que viveu e quase sempre contemplava a morte – até em seu último disco, Blackstar, repleto de referências ao seu capítulo final. Ela não parecia tão próxima porque já pareceu estar mais próxima – na virada da década passada, auge do período de reclusão do artista, os boatos sobre sua morte vinham e voltavam com frequência (a ponto até dos Flaming Lips terem composto uma canção que perguntava se ele estava morrendo). Por isso sua persona mais recente (começada com o disco The Next Day, no início de 2013) parecia anunciar uma nova vida – e confesso que escrevi sobre a reinvenção de seu envelhecimento à luz de seu novo disco com uma ponta de felicidade, ao perceber, como todos nós, que ele ainda tinha muito o que dar.

Hoje, como todos, engulo em seco ao lembrar que uma possibilidade que temia há cinco anos, finalmente se materializou. Vivemos agora em um mundo sem David Bowie – mais careta, menos cool, menos sexy, mais chato. As imagens e sons voltam pela memória (e a minha melhor lembrança é tê-lo visto de pertinho no show que ele fez em São Paulo em 1997 – assisti ao show inteiro do fosso dos fotógrafos), mas fica o legado de uma carreira em constante movimento, uma prova de que é possível envelhecer sem se conformar e uma lição contida no refrão de uma das minhas canções favoritas, "Changes": "Vire-se e encare o estranho".

Hora de encarar um mundo sem David Bowie. Boa sorte para nós.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.