Blog do Matias

David Bowie, 69 anos, está reinventando a forma como um artista envelhece

Alexandre Matias

08/01/2016 07h11

bowie-blackstar

David Bowie faz aniversário nessa sexta-feira, dia 8, e usa a data como desculpa para mais um passo em sua longa carreira. O dia em que completa 69 anos foi escolhido como o dia de lançamento oficial de seu mais novo disco, batizado com um ícone – ★ – pronunciado como Blackstar. O disco faz parte de uma nova e inesperada fase da carreira do artista inglês que pode ajudar mais uma vez a redefinir a paisagem da cultura pop, como Bowie fez em algumas oportunidades.

Esta nova fase começa a partir do desaparecimento do cantor no meio da década passada. A partir de um dos incidentes mais bizarros de sua carreira – quando foi atingido por um pirulito em forma de coração no olho esquerdo, num show em Oslo, na Noruega, em 2004, e continuou o show tocando uma música dos Pixies! -, Bowie começou a diminuir suas aparições públicas. Na verdade o incidente na Noruega antecipou o final abrupto da turnê Reality que o cantor realizava naquele ano e três shows mais tarde, quando se apresentava no Hurricane Festival, na Alemanha, encurtou o setlist da noite porque estava sentindo dores no peito. Do palco ele foi para o hospital onde submeteu-se a uma cirurgia cardíaca, fazendo-o cancelar o resto da turnê e desaparecendo lentamente do olho público. Desde 2004, ele realizou apenas poucos shows – uma participação no show de David Gilmour em 2006, quando “Arnold Layne”, em homenagem a Syd Barrett, um de seus ídolos, que morreria naquele mesmo ano, uma participação em um programa de TV com a banda indie canadense Arcade Fire – e pendurou as chuteiras discretamente. Desde 2005, ele praticamente sumiu, fazendo o papel de Nikolai Tesla num filme de Christopher Nolan, gravando com Scarlett Johansson e dublando um personagem no filme do Bob Esponja – e só. E mais de uma vez surgiram boatos de que o cantor estava em péssimas condições de saúde – e que teria até falecido. Até 2013.

É quando ele inicia sua atual fase, em que o artista parece ter entendido que sua produção cultural não requer a sua presença, seja em apresentações ao vivo ou em entrevistas. Ele comunica-se igualmente com fãs e mídia, usando suas redes e seus contatos para anunciar uma nova produção e uma nova aventura. A primeira delas foi The Next Day, seu vigésimo quarto disco, lançado no início de 2013 e anunciado de súbito, sem o menor alarde. Bowie se alinhava a outros artistas mais novos – como Radiohead, My Bloody Valentine, Aphex Twin, Boards of Canada, Daft Punk e Beyoncé – ao lançar um disco quase que simultaneamente com seu o anúncio, sem criar expectativa nos meses anteriores. Essa espera anterior era necessária quando a indústria fonográfica precisava de tempo para produzir discos e deslocá-los até os pontos de venda. Com a música digital isso tornou-se secundário e Bowie precisou de menos de dois meses para colocar seu novo disco à venda, após o anúncio em janeiro daquele ano. A capa era um indício da nova fase – ele reutilizava a capa de seu clássico “Heroes”, seu décimo segundo disco, lançado em 1977, só que ele encobria o próprio rosto com um quadrado branco, uma explicação que, apesar de sua ausência física, ele continuará lá.

E ele continua – e embora não apareça fora de sua obra, ele está lá, em pessoa, em todos seus clipes, como no da faixa-título que anunciou seu vigésimo quinto disco, chamado de ★ (Blackstar), no ano passado, ou no recém-divulgado “Lazarus“.

O novo disco é sombrio e desafiador. Gravado ao lado de um quarteto de jazz (o Donny McCaslin Quartet), ★ traz ecos do disco Outside, que Bowie lançou em 1995, em que flertava com a ficção científica e o início da era digital, além de forte influência de música eletrônica. ★ também é influenciado pelas distopias da nossa época atual – o saxofonista McCaslin disse que a faixa-título teve o Estado Islâmico como inspiração – e pelo disco mais recente do rapper Kendrick Lamar, To Pimp a Butterfly e tem uma música (“Girl Loves Me”) composta no inglês torto inventado por Anthony Burguess em Laranja Mecânica. É um disco que fala de morte de uma forma estranha e sem pessimismo, como se o cantor e compositor estivesse preparando a forma como quer ficar conhecido.

Mas Bowie não está só na música, como é característico de sua própria persona. O próprio clipe de “Blackstar” é um curta de ficção científica – de dez minutos, dirigido por Johan Renck – e foi apresentado pela primeira vez num cinema no Brooklyn, em Nova York. Supervisionou pessoalmente a adaptação para o teatro do filme O Homem Que Caiu na Terra, rebatizada como Lazarus, e estrelada por Michael C. Hall (o protagonista da série Dexter), com músicas novas do próprio Bowie na trilha sonora. A peça estreou no fim do ano passado e continua em cartaz. E no ano passado ele também colaborou com a série de TV The Last Panthers, para a qual compôs a música de abertura.

Pode ser que estejamos no início de uma das fases mais ousadas do velho inglês: quando entende que sua presença pode ser percebida mais virtual do que fisicamente. O que pode ampliar sua carreira cinematográfica (★ parece pedir um filme) e sua relação com os fãs. Não é difícil supor um show transmitido online a partir de um local inusitado escolhido pelo cantor num futuro próximo. Mas o mais legal é que Bowie é mestre em lançar novas tendências e novos formatos – e com as novas tecnologias disponíveis, ele pode pirar num nível ainda maior.

Ironicamente sua última aparição em público foi ao lado da cantora Alicia Keys, quando cantou um de seus primeiros hits, a balada “Changes” no Hammerstein Ballroom, em Nova York, em novembro de 2006. “Changes” fala da necessidade de mudanças em sua própria vida e seu refrão traz uma advertência para quem vive de rock – e portanto para ele mesmo. “Cuidado, roqueiros, logo logo vocês vão ficar velhos.”

E assim, parando de fazer shows e de fazer aparições em público, Bowie reinventa o paradigma do roqueiro velho almadiçoado por Mick Jagger que, ainda nos anos 60, disse que não queria envelhecer cantando “Satisfaction”. Bowie, que nitidamente gostava de exibir o próprio repertório ao vivo, recolhe-se à sua produção atual como uma forma de envelhecer sem trair seu passado. Como cantava na mesma “Changes”: “Time may change me / But I can’t trace time.”

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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