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Documentário, festival e coletânea mantêm Prince vivo
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Alexandre Matias

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Era inevitável que a morte prematura de Prince em abril deste ano desse início a uma série de homenagens e reverências à obra do gênio da soul music moderna e o final de 2016 já trouxe três destas novidades. A primeira delas é a coletânea Prince 4Ever, lançada no fim de novembro e que tornou-se o 40° disco do artista a estar entre os mais vendidos.

Lançada como um CD duplo, 4Ever reúne a nata dos hits de Princee nquanto ele ainda era um artista da Warner e vão de sua fase inicial na virada dos anos 70 para os 80 (''I Wanna Be Your Lover'', ''Soft and Wet'', ''Why You Wanna Treat Me So Bad?'', ''Uptown'', ''When You Were Mine'', ''Controversy'', ''Let's Work''), até seu auge durante os anos 80 e 90 (''1999″, ''Little Red Corvette'', ''When Doves Cry'', ''Let's Go Crazy'', ''Raspberry Beret'', ''Kiss'', ''Sign o' the Times'', ''Alphabet St.'', ''Batdance'', ''Cream'', ''Girls & Boys'', ''If I Was Your Girlfriend'', ''U Got the Look'', ''I Could Never Take the Place of Your Man'', ''Diamonds and Pearls'', ''Gett Off'', ''Sexy MF'', ''Nothing Compares 2 U'', entre outras). Mas a grande novidade é a faixa inédita ''Moonbeam Levels'', gravada em 1982, que só agora vê a luz do dia. É o comecinho da abertura do baú de Prince, que é enorme.

Outra homenagem já havia acontecido em outubro, quando a mansão do artista, o lendário Pasley Park, foi convertido em um museu. A Graceland de Prince é uma mansão avaliada em 10 milhões de dólares e conta com vários estúdios, salas de ensaio, uma enorme casa de shows, além do escritório particular de Prince, com suas três camas cercadas por espelhos. Poucos conheceram o lugar quando Prince era vivo devido à sua personalidade reclusa e foi lá que ele gravou alguns de seus grandes discos, como Sign o’ the Times, Parade e Diamonds and Pearls. O Pasley Park fica na cidade de Chanhassen, no estado de Minnesota, nos EUA, e as visitas (que custam US$ 38,50) já podem ser feitas desde outubro.

A novidade é que o lugar anunciou um grande evento para o aniversário da morte de Prince. Celebration 2017 acontecerá no Pasley Park entre os dias 20 e 23 de abril do ano que vem e contará com shows das diferentes bandas com quem Prince tocou durante sua carreira, como a Revolution, Morris Day & The Time, a New Power Generation, além de Liv Warfield e Shelby, que tocarão com a 3RDEYEGIRL, banda que o acompanhou em suas últimas apresentações. Os ingressos para os quatro dias custam entre 500 e mil dólares (mais informações no site do festival) e não serão permitidas fotos ou filmagens durante o evento.

E o documentário Prince: R U Listening?, acaba de ser anunciado para o ano que vem. Segundo o site Screen Daily, o diretor Michael Kirk (dos documentários Find Your Groove e Crescendo) contará a história da ascensão de Prince no início dos anos 80 a partir de entrevistas com músicos que o acompanharam na época (como Dez Dickerson, seu primeiro guitarrista, Andre Cymone, seu amigo pessoal e primeiro baixista e a baterista Sheila E), bem como seus contemporâneos famosos, tais como Bono, Mick Jagger, Lenny Kravitz e Billy Idol. A previsão de lançamento do documentário é para o segundo bimestre do ano que vem, para coincidir com o aniversário de morte do artista.

Tags : Prince


Os Smiths começam a abrir o seu baú de raridades
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Alexandre Matias

The_Smiths

Outro dia o guitarrista Johnny Marr comentou que o grupo que lhe deu fama, os Smiths, quase voltaram à ativa na década passada, quando o vocalista e líder do grupo, Morrissey, empolgou-se em uma conversa de bar sobre os bons tempos. O relato do encontro é parte da recém-lançada biografia de Marr e o interesse por este quase encontro, mesmo tendo sido revelado quase uma década depois, mostra como o grupo inglês ainda é influente e popular. Deve ter sido uma das motivações para a gravadora Warner anunciar o primeiro compacto do grupo em décadas, como antecipou o site True to You, conhecido por ter, entre suas fontes, o próprio Morrissey.

O single, que ainda não tem data prevista para ser lançado, reúne versões inéditas para faixas conhecidas pelos fãs do grupo: uma mixagem demo para o hit ''The Boy With The Thorn In His Side'' com uma versão inédita da faixa ''Rubber Ring'', uma das favoritas dos fãs.

A capa do single foi feita pelo próprio Morrissey e segue o padrão das clássicas capas do grupo, desta vez com um retrato do ator Albert Finney, de filmes como Assassinato no Expresso Oriente (1974), Os Duelistas (1977) e À Sombra do Vulcão (1984).

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Tags : Smiths


O que Renato Russo acharia do Brasil de 2016?
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Alexandre Matias

RenatoRusso, na Asa Sul, em Brasília

Renato Russo, na Asa Sul, em Brasília

''Acho que, além da insatisfação com a manutenção das desigualdades sociais, certamente ele reagiria ao avanço da cultura do ódio, da escalada de violência – virtual e real'', me explica o jornalista Carlos Marcelo, autor da biografia Renato Russo – O Filho da Revolução (Ed. Planeta), quando pergunto o que o vocalista do Legião Urbana, que morreu há vinte anos, acharia do clima belicoso que tomou conta do Brasil em 2016. ''Renato sempre fazia questão de condenar de forma veemente o fascismo, e acredito que estamos vivendo tempos de comportamentos que se aproximam desse ideário pernicioso. Em síntese: ele não precisaria atualizar a letra de 'Perfeição', tudo que está lá continua valendo.''

Realmente, a letra da canção de 1993, carro-chefe do disco O Descobrimento do Brasil, conversa bastante com os ânimos acirrados e a frustração com o status quo deste ano:

''Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.

Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso – com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção''

A nova edição da biografia, lançada originalmente em 2009 e reeditada com mais informações este semestre, conversa de forma bizarra com o país deste ano, especificamente ao revelar que Renato era colega de classe do ex-ministro Geddel Vieira, pivô da saída do ministro da cultura do governo Temer, Marcelo Calero. O livro conta que Geddel queria entrar para o grupo de estudos de Renato Russo para conseguir uma nota melhor, mas o futuro vocalista do Legião vetou o futuro político, na época conhecido pelos colegas pelo apelido de ''Suíno'', no mesmo instante, reforçando que ''ele é in-su-por-tá-vel!'' (leia a íntegra deste trecho no final do post).

Renato Russo em peça encenada com um grupo de teatro amador na Cultura Inglesa, ainda nos anos 70

Renato Russo em peça amadora de teatro na Cultura Inglesa, ainda nos anos 70

Pelo que o biógrafo lembra, era o único futuro político com quem Renato conviveu quando ainda morava em Brasíia. ''Outras personalidades da música brasileira passaram por Brasília e, mesmo sem ter convivido diretamente com Renato quando moraram lá, também passaram por um processo de transformação na capital: caso de Sergio Britto, dos Titãs e, especialmente, de Ney Matogrosso e Paulo Ricardo. No livro, eu narro a passagem dos três por Brasília. Sem contar, claro, Herbert Vianna, Bi Ribeiro, toda a Turma da Colina'', como era referido o grupo que deu origem à primeira geração de bandas de rock da cidade.

A nova edição do livro aprofunda-se, principalmente, nos últimos anos de vida de Renato Russo, que morreu em 1996. ''Me impressionou o processo de criação de seus dois discos solo, ambos meticulosamente planejados por Renato, a dificuldade para finalização do disco A Tempestade, quando Renato já estava bem doente, e também algumas canções que passaram meio batidas quando foram lançadas, a exemplo de “Celeste” – parceria com Marisa Monte, gravada pela Legião em A Tempestade como ''Soul Parsifal” – e “La Maison Dieu”, uma das faixas do disco Uma Outra Estação, de letra fortíssima – 'Eu sou a pátria que lhe esqueceu/ O carrasco que lhe torturou…' – , cantada em cima de uma base de blues em mais uma interpretação antológica do Renato. A entrevista com Marisa Monte, na qual ela fala que adora o disco póstumo O Trovador Solitário e relembra passagens de sua amizade com Renato, me impressionou. E o depoimento da mãe dele, que entrevistei novamente e me narrou como soube da morte do único filho, me emocionou. Tentei passar essa emoção no último capítulo da nova edição.'' Além disso, há vasta iconografia sobre o artista, como algumas das imagens neste post.

Reprodução da censura do veto a "Heroína", do repertório do grupo Aborto Elétrico (anterior ao Legião Urbana), e que faz o Renato Russo ser fichado na Polícia Federal

Reprodução da censura do veto à canção ''Heroína'', que fez o Renato ser fichado na PFl

Carlos Marcelo concorda quando comento sobre a singularidade de Renato Russo na história de nossa cultura. ''É uma figura ímpar na música pop brasileira – não consigo recordar de ninguém, com exceção de Roberto Carlos, que tenha permanecido no topo por tanto tempo. Mesmo os dois grandes roqueiros brasileiros – Raul Seixas e Rita Lee – e os grandes medalhões da MPB – Gil, Chico, Caetano, Milton – tiveram seus altos e baixos'', conta o jornalista. ''Renato conseguiu algumas façanhas inigualáveis: emplacar uma canção – 'Faroeste caboclo' – de nove minutos no topo das paradas, fazer o Brasil redescobrir a música italiana depois do lançamento do disco Equilíbrio Distante, fazer de uma regravação do Menudo – 'Hoje à Noite Não Tem Luar' – mais um sucesso radiofônico, apresentar às novas gerações o 14 Bis com a música 'Mais Uma Vez'… E isso aconteceu pela combinação única de lirismo e energia, performance e espontaneidade. Como ele cantava, 'é sangue mesmo, não é mertiolate'''.

Manuscrito de Renato com uma das primeiras referências ao nome Legião Urbana

Manuscrito de Renato com uma das primeiras referências ao nome Legião Urbana

Pergunto sobre o material do grupo que ainda não foi lançado oficialmente: entre músicas inéditas a íntegras de shows, ensaios e versões alternativas, é farto o material do grupo que circulava em fitas cassete desde os anos 80 até em sites de download atualmente. ''Existem muitas gravações que circulam pela internet'', lembra Carlos Marcelo, Há, por exemplo, registros de jams durante ensaios no Rio para as turnês dos discos As Quatro Estações e V que são bem interessantes. Mas, mais do que os registros piratas, acho que seria interessante assistir a um documentário apenas com imagens de shows da Legião. Seria uma experiência muito forte.''

Renato e integrantes de outras bandas na Temporada de Rock na ABO, um show que foi um marco da geração dos anos 80

Renato e integrantes de outras bandas no show Temporada de Rock na ABO, marco na cidade

Renato Russo – O Filho da Revolução seria uma ótima base para este material, Carlos Marcelo inclusive foi consultor de roteiro do filme Somos Tão Jovens, sobre os anos de Renato Russo antes do surgimento da banda. ''Acho que o meu livro não comporta uma versão audiovisual nos moldes de um longa-metragem – como disse o próprio Vladimir Carvalho, diretor do documentário Rock Brasília – A Era de Ouro, depois de ler a primeira edição: 'Carlos, você não escreveu um livro, fez um documentário de seis horas de duração'. Mas ainda acho que falta um documentário exclusivamente sobre Renato e a Legião, com ênfase no resgate da visceralidade das performances ao vivo. Mostrar na tela a tensão do inesperado, pois nenhum show da Legião foi igual a outro. Quem viu um show da Legião passou por uma experiência única. E intensa, às vezes perturbadora. E as novas gerações de fãs, lamentavelmente, não tiveram essa chance.''

Abaixo, o trecho da biografia em que Renato Russo veta o futuro político Geddel Vieira de participar de um grupo de trabalho na escola:

''A turma do Marista tem que preparar apresentação relacionada à música. De imediato, Renato avisa:

— O tema do meu grupo vai ser a história do rock.

Rigoroso na hora de selecionar os colegas de grupo, ele convida Maria Inês Serra e mais dois ou três felizardos que se mostraram dispostos a executar a tarefa como ele planejaria. Tinha gostado de trabalhar com Inês em uma pesquisa sobre cantigas de roda — o esforço alheio representava fator decisivo para a escolha. Deixa claro (a ponto de despertar antipatia e criar fama de chato) que não carregaria ninguém nas costas. Apesar dos pedidos de colegas como Geddel Quadros Vieira Lima para entrar no seu grupo pela garantia de notas altas na avaliação final. Filho do político baiano Afrísio Vieira Lima, o gordinho Geddel era um dos palhaços da turma. Chegava no colégio dirigindo um Opala verde, o que despertava atenção das meninas e a inveja dos meninos — que davam o troco chamando-o de “Suíno”. Tinha sempre uma piada na ponta da língua; as matérias, nem sempre.

— Eu vou ser político!

O jeitão expansivo garantia popularidade entre os colegas, mas não unanimidade. “Ele é in-su-por-tá-vel!”, justifica Renato para Maria Inês, dividindo as sílabas de forma enfática, ao sentenciar a proibição da entrada de Geddel em seu grupo.

A preparação do trabalho consome semanas. A pesquisa, concentrada no acervo guardado por Renato em seu quarto, inclui o detalhamento de aspectos controversos da biografia de ídolos do rock. Ao estudar a trágica trajetória de Janis Joplin e Jimi Hendrix, Renato comenta com Inês:

— Como é que pode alguém se drogar para fazer música?

As tardes de pesquisa, porém, não resultam apenas em fonte de inquietação sobre os destinos erráticos das estrelas do rock. Na parte mais divertida da preparação do trabalho, Inês observa o amigo escolher um disco, colocá-lo na vitrola e iniciar o show particular. Renato canta junto, faz solos imaginários de guitarra, dedilha violão, imita os artistas que se revezam no toca-discos. Reproduz o falsete de Elton John. “And I think it’s gonna be a long, long time…”, dubla o refrão de “Rocket Man”, do cantor e pianista inglês. Também capricha no tom grave da voz para imitar Elvis Presley — sem êxito. A amiga achou que estava escutando Jerry Adriani.

Mesmo sem a parte da dublagem, estrategicamente esquecida na 303 Sul, Renato e Inês recebem nota máxima pelo trabalho. Mais: são convidados a bisar a apresentação, dessa vez no auditório do Marista, diante de alunos de outras turmas do segundo grau. Além da explanação verbal, proporcionam aos colegas uma experiência audiovisual. Coladas em cartolinas, fotografias de ídolos do rock (selecionadas do acervo particular do líder do grupo) são exibidas enquanto o auditório é sacudido por trechos de clássicos do gênero, cuidadosamente pinçados e gravados em fitas cassete. Para aumentar a dramaticidade, Renato faz questão de resumir em frases de efeito, pronunciadas em tom incisivo, os pontos-chave das ideias defendidas no trabalho. Terminada a apresentação, começa o debate. Uma das colegas critica o rock e defende a MPB como porta-voz dos anseios da juventude brasileira. Diante do auditório lotado, Renato rebate:

— O rock é um movimento musical que revolucionou a música popular porque é o único gênero feito por jovens e para os jovens. Por isso, se tornou sinônimo de rebeldia.

Aplausos dos colegas e dos professores. Graças à convicção e ao conhecimento de rock, Renato passa com louvor no primeiro teste de popularidade diante de uma audiência imprevisível. Nada mau para um aluno até então notado nos corredores apenas pelas espinhas e muletas. Com ajuda de Inês, Elvis, Janis e Hendrix, Renato não era apenas mais um entre as centenas de alunos do segundo grau do Marista. Tinha deixado de ser invisível.''

O jornalista Carlos Marcelo (foto: Maria Alice Messias/Divulgação)

O jornalista Carlos Marcelo (foto: Maria Alice Messias/Divulgação)


“Westworld” é a melhor série de 2016? Vamos falar sobre ela – sem spoilers
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Alexandre Matias

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E a HBO conseguiu mais uma vez. Westworld vem superando todas as expectativas, episódio a episódio, e caminha para se tornar o grande evento da TV em 2016, fazendo a emissora recuperar-se do fiasco que foi a primeira temporada de Vinyl e a promissora mas fria The Night Of. Um enorme quebra-cabeças magistralmente montado em frente aos nossos olhos, intercalando a frieza de máquinas com o calor do velho oeste norte-americano, reinventando completamente uma premissa simples de um filme dos anos 70 para o século 21 e enfileirando monólogos magistrais, atuações impecáveis, cenas intensas, diálogos esclarecedores, teorias complexas e revelações sensacionais.

Para quem não está acompanhando, eis a breve premissa, sem spoilers: num futuro próximo existe um parque de diversões para adultos chamado Westword, em que você paga para viver como nos tempos mais selvagens do povo norte-americano, interagindo com robôs idênticos a seres humanos que ficam à disposição dos convidados. E esta disposição é degradante: os ''anfitriões'' (hosts, em inglês, como os androides são referidos na série) se tornam objetos para todo o tipo de humilhação que os convidados queiram praticar, e assim são tratados como meros objetos e quase sempre morrem mortes violentas – apenas para serem religados e voltar ao papel de escravo dos desejos alheios.

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Mas algo acontece: os robôs aos poucos começam a entender sua própria condição. Acumulando memórias de suas vidas passadas, alguns dos protagonistas da série vão lentamente entendendo o que vivem e, cada um à sua maneira, vai despertando sua consciência e aprendendo a lidar com aquela nova realidade. Alguns simplesmente entram em parafuso e dão tilt – logo no primeiro episódio da série há um destes -, mas outros conseguem ir além. E poucos humanos conseguem perceber isso.

Isso é apenas a premissa inicial, o tabuleiro armado em que seus produtores desdobram cenas ousadas, violentas e emblemáticas, criando uma mitologia específica enquanto mostram personagens rasos lentamente sendo aprofundados. A partir disso, há um enorme e complexo jogo narrativo que faz o espectador perder-se em histórias que parecem acontecer simultanemente, mas que ocorrem em épocas diferentes – um truque genial que parte do princípio de que os robôs não envelhecem.

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Sob esta premissa, há um duelo entre os criadores do parque, Arnold e Ford, que têm ideias distintas para aquele mundo robótico: enquanto o primeiro quer evoluir a inteligência artificial para a descoberta da consciência, o segundo considera isto perigoso e prefere apenas usar os seres sintéticos para ''contar novas histórias''. Ford ganha a disputa e Westworld passa para as mãos de uma empresa chamada Delos, cujo interesse no parque vai muito além da gerência dos lucros gerados pelos visitantes e segue desconhecido. A série de dilemas éticos e morais abertos a partir desta disputa seria assunto para uma série apenas sobre isso, mas Westworld vai além.

Personagens como a cândida Dolores Abernathy vivida por Evan Rachel Wood, o assustador e admirável Robert Ford de Anthony Hopkins, o intrincado Bernard Lowe de Jeffrey Wright, a impressionante Maeve Millay da Thandie Newton e o Homem de Preto de Ed Harris humanizam e emocionam a história com atuações grandiosas e exigentes, Eval Rachel Wood e Thandie Newton especificamente brilham como poucas atuações na TV nesta década e até coadjuvantes como Hector Escanton do nosso Rodrigo Santoro, o William de Jimmi Simpson e a Clementine de Angela Sarafyan desequilibram bastante o seriado.

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Tudo isso sendo orquestrado em cenas que transcendem gêneros e criam imagens impactantes para a cultura pop. Westworld consegue elevar o western para um patamar quase surreal, misturando orgias, canibalismo, religião e genocídios, aprofunda questões éticas tocadas apenas de forma superficial pela ficção científica moderna, atualiza os robôs para a era da impressão 3D e aposta na inteligência do espectador, proporcionando momentos de puro deleite narrativo (o final do oitavo episódio, por exemplo, já é um dos grandes momentos do ano na TV).

Os detalhes também são de tirar o fôlego: cenografia, direção de arte e trilha sonora mantém aquele padrão da emissora em que ela acerta mesmo quando as séries são ruins. A trilha especificamente é um achado: versões para músicas de Amy Winehouse, Radiohead, Rolling Stones, Animals, entre outros, tocadas naqueles pianos típicos de saloon (automatizados, como se fossem os primeiros robôs).

E por cima de tudo há um labirinto. Uma mapa literal que pode ser percorrido geograficamente mas também um jogo lógico que amplia o teste de Turing para uma realidade em que a inteligência artificial evolui como um fractal. Um desafio posto no coração da série tanto para seus protagonistas quanto para seus espectadores, que vai recompensando a cada novo episódio.

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A primeira temporada da série termina no próximo domingo, quando seu décimo episódio vai ao ar (a HBO brasileira vem transmitindo os novos episódios exatamente à meia-noite entre o domingo e a segunda, com reprises na segunda às 21h) e tudo indica que teremos a conclusão de uma série de enigmas e mistérios abertos ao longo dos episódios anteriores – além de tantas outras perguntas que só serão respondidas na próxima temporada, já renovada para o ano que vem.

A esperteza da série vem do casamento de dois talentos: J.J. Abrams, o criador de Lost e Fringe, além de ter ressuscitado Jornada e Guerra nas Estrelas para o novo milênio, e Johnathan Nolan, responsável pelos roteiros dos filmes de seu irmão Christopher Nolan. O primeiro é mestre em instigar a curiosidade, provocar o espectador, abrir teorias e propor possibilidades. O segundo brinca com duplos sentidos, lineraridades temporais e sabe concluir bem as histórias. Os dois já haviam trabalhado juntos na ótima Person of Interest, uma série mais modesta em termos de produção e de narrativa, e agora podem ousar graças à liberdade dada pela HBO. Nolan chamou a esposa Lisa Joy (que já havia assinado as séries Pushing Dasies e Burn Notice) para ajudá-lo na criação daquele novo universo.

Até o fim da semana volto ao tema explicando ainda mais as teorias da série e mostrando como Westworld pode ser muito mais do que apenas a melhor série deste ano. Por enquanto recomendo que você que ainda não assistiu dê um jeito de ver os nove episódios antes do próximo domingo e você que está acompanhando comente a série abaixo. E já deixo de sobreaviso aos comentaristas incautos – por favor avisem sobre spoilers antes de fazer seus comentários sobre a série para não estragar a surpresa de quem não assistiu ainda.


Próximo disco da Nação Zumbi terá versões de Amy, Mutantes, Bowie e outros
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Alexandre Matias

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Principal atração do primeiro dia do festival BR 135, que começou nesta quinta-feira, dia 24, em São Luís, no Maranhão, a banda pernambucana Nação Zumbi está encerrando o ciclo de comemoração dos 20 anos do disco Afrociberdelia, segundo álbum da banda, lançado em 1996, para começar um novo projeto, ainda com título provisório de Radiola NZ. O novo álbum trará versões para músicas favoritas do grupo, tanto brasileiras quanto internacionais, e o repertório poderá ter faixas de Amy Winehouse, Last Shadow Puppets, Mutantes, Velvet Underground, Clash, Erasmo Carlos, David Bowie, Roxy Music, entre outros. ''Ainda estamos definindo tudo, mas já começamos a rascunhar algumas versões, como 'Ashes to Ashes' de David Bowie e 'Love is the Drug' do Roxy Music'', me contou o vocalista do grupo, Jorge Du Peixe.

O gatilho para este novo disco, que deve começar a ser gravado neste fim de semana, em Fortaleza, foi o show que o grupo fez no Festival da Cultura Inglesa deste ano, quando foram convidados a fazer versões de músicas em inglês. O grupo tocou versões para ''Tomorrow Never Knows'', dos Beatles, ''A Message To You Rudy'', dos Specials, ''Time of the Season'' dos Zombies e ''China Girl'', de Iggy Pop e David Bowie. A partir daí a banda começou a cogitar novas versões e o projeto ganhou título e forma, embora ainda esteja em seu estágio inicial.

Versões não são novidades para a Nação. Além de ter dois de seus maiores hits escritos por outros artistas (''Maracatu Atômico'' de Jorge Mautner e ''Quando a Maré Encher'' da banda olindense Eddie), o grupo já dividiu um disco com os conterrâneos e contemporâneos Mundo Livre S/A, quando um tocava músicas do outro, além de manter o projeto paralelo Los Sebosos Postizos, em que tocam músicas do período clássico de Jorge Ben. O novo álbum deve ser lançado no ano que vem, mas a banda não tem pressa. ''Temos nosso tempo e precisamos respeitá-lo'', conclui Jorge.