Blog do Matias

18 discos clássicos que fizeram aniversário em 2017

Alexandre Matias

29/12/2017 18h15

Quem acompanha este blog sabe que reservo um lugar especial para discos clássicos que comemoram aniversário redondos (a saber: 50 anos, 40 anos e 25 anos de idade, critérios arbitrários definidos por este que vos escreve) e neste fim de 2017 resolvi reunir os 18 discos que celebrei durante o ano em um único post, contemplando tanto obras cruciais do ano psicodélico de 1967, outros pilares do 1977 que viu o punk acontecer e duas obras que ajudaram o rap a amadurecer em 1992. Claro que é inevitável que alguns discos passassem batido e lamento a ausência de obras brasileiras (cujas datas precisas de lançamento são quase impossível de se descobrir), mas acho importante olhar para o passado para saber como é que chegamos até aqui. 2018 promete o aniversário de tantos outros clássicos – e quero ver se consigo incluir discos nacionais neste nada modesto panteão. O texto comemorativo original está no link do título de cada disco. Boa viagem.


David Bowie – Low (1977)
Gravado em sua maioria no Castelo de Hérouville, na França (onde Bowie havia gravado, em julho de 1973, o disco de versões Pin Ups e produzido o primeiro disco solo de Iggy Pop, The Idiot), e parte no Hansa Studio em Berlim, Low é um disco cujas raízes já podem ser encontradas em Station to Station. O disco do ano anterior funciona como um preâmbulo à trilogia Berlim e a paixão de Bowie pela sonoridade alemã daquele período – de grupos de rock progressivo tortos como Neu!, Can, Tangerine Dream e o essencialmente eletrônico Kraftwerk – já podia ser ouvida nas composições da fase Thin White Duke. É aquele tipo de som – sintético, metronômico, intenso e absorto que os alemães chamavam de Kosmiche Musik e os ingleses de krautrock – que faz Bowie escolher Berlim como sua visão de futuro – ou pelo menos de seu próprio futuro.


Television – Marquee Moon (1977)
E do moquifo que deu origem ao punk, do sovaco elétrico da boemia nova-iorquina, surgia um disco épico e heróico, mas ao mesmo tempo introspectivo e existencialista, que questionava não apenas o niilismo da cidade que viu aquele novo movimento cultural nascer mas também o próprio papel do rock nesta nova fase. Consciente de sua importância, Marquee Moon é o divisor de águas que encerra a fase clássica do rock e abre o novo testamento pós-punk, mas sem precisar tripudiar ou negar o passado. E mesmo assim segue à miúda, em segredo, quase como um código que vai sendo transferido de geração em geração.


The Velvet Underground and Nico (1967)
The Velvet Underground and Nico também é o disco cult em essência, aquele antissucesso comercial que ganhou fama e força com o passar dos anos. Mas, mais do que isso, é a obra que fez a cultura pop e a grande arte olharem uma para a outra com um estranhamento que tornou-se encanto, principalmente quando uma percebeu que pode tornar-se a outra, mudando assim o curso da cultura ocidental.


Beastie Boys – Check Your Head (1992)
Check Your Head é um parque de diversões de referências musicais, mas, principalmente, é um parque de diversões. Por ele os Beastie Boys perambulam despreocupados, andando de skate e voltando a tocar instrumentos (Ad-Rock na guitarra, MCA no baixo, Mike D na batera), acompanhados de perto de três seus novos compadres – o produtor brasileiro Mario Caldato, o DJ Hurricane e o tecladista nipo-mexicano Money Mark. Neste novo cenário, a banda começa a mergulhar em referências obscuras trazendo-as à tona em forma de canções que vão de raps diretos a jam sessions despreocupadas, colagens engraçadinhas e mensagens profundas. Tinham a favor o fato de ninguém estar nem aí para seu próximo disco.


Jimi Hendrix Experience – Are You Experienced? (1967)
Em frente a uma plateia progressista e sem preconceitos, o guitarrista explorava todos os limites de sua performance, assumindo o holofote como Linda Keith havia profetizado, não apenas como instrumentista, mas como showman, líder carismático no palco. Ele e sua guitarra Fender Stratocaster eram um só e ele ficava cada vez mais consciente e confiante de sua força artística, seja cuspindo frases de apresentação no começo de suas músicas ou narrativas melódicas completas nos intervalos entre os refrões. A guitarra também era a batuta com a qual regia a microfonia, o barulho dissonante dos instrumentos elétricos que Hendrix aos poucos domou. Hércules sonoro, desafiava bestas sonoras inomináveis e transformava estas lutas em solos memoráveis, deslumbrantes, transcendentais. Era uma força ancestral. O que Hendrix mostrava para os ingleses era a versão atual da geração de músicos norte-americanos que a Swinging London venerava. Uma geração que surgiu com o rock’n’roll de Elvis Presley, Chuck Berry, Buddy Holly e Little Richards, mas que logo foi atrás dos discos anteriores, dos primeiros bluesmen elétricos, dos discos da gravadora Chess. Hendrix era um daqueles monstros sagrados, só que não vivia no passado, mas no presente, apontando para o futuro.


Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967)
A quantidade de trunfos de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club é imensurável. Sem ele, a cultura perderia o impacto global e os Beatles não seriam uma das principais forças artísticas do mundo até hoje. Seu cinquentenário vem apenas reforçar sua importância, tanto em termos criativos quanto mercadológicos. Nenhuma outra obra de arte foi tão influente e transgressora em tão pouco tempo – nem antes, nem depois.


Bob Marley & The Wailers – Exodus (1977)
Foi uma sacada de gênio, ao dividir o álbum entre política e amor, Bob Marley deixava claro que sua política era a do amor e que uma coisa era indistinguível da outra, mesmo separando-as cada uma em um dos lados do disco. Uma visão que nasceu motivada por um atentado à sua vida, consolidada na capital do antigo império que havia colonizado a ilha em que havia nascido e envernizada com as cores do novíssimo movimento punk. Exodus é a obra-prima de Bob Marley – seu melhor e mais importante disco – e, em 1999, foi eleito pela revista Time como o melhor disco do século passado. Vamos acender as velas para parabenizar este disco por quatro décadas de eternidade musical – e saudar Bob Marley como um dos artistas mais importantes de nossa era. Tuff Gong, indeed.


Pink Floyd – The Piper at the Gates of Dawn (1967)
Talvez não tivessem os recursos que os Beatles tinham, mas isso não tornava suas viagens mais tímidas. Ia do espaço sideral (com a faixa de abertura “Astronomy Domine” e o longo improviso instrumental de “Interstellar Overdrive”) ao I Ching (“Chapter 24”), da visita de seres míticos (“The Gnome”) à infância (“Bike”), sempre ao som de progressões de acordes incomuns, solos melancólicos, riffs destrambelhados, fractais em teclados elétricos, bateria desenfreada, baixo melódico e duro, efeitos eletrônicos e sonoplastia. The Piper at the Gates of Dawn é quase um OVNI que pousa no meio daquilo que hoje conhecemos como rock clássico, acendendo luzes que apontam para rumos que nunca haviam sido cogitados.


Talking Heads – ’77 (1977)
Talking Heads: 77 é o registro de uma banda em ponto de bala, no exato momento em que ela deveria ter gravado seu primeiro disco. Se seu álbum de estreia fosse lançado no 1975 cogitado pela CBS talvez o grupo tivesse incorporado características – que depois se tornariam clichês – do punk na primeira hora. Parido dois anos depois, o debut dos Talking Heads assiste sua apresentação mais centrada, mais decidida e convicta, o que fez que ela se tornasse uma das grandes bandas daquele período e crescesse sua moral na década seguinte. Moral que permanece intacta, principalmente pelo fato de que eles são uma das únicas bandas – num recorte que inclui nomes pesados como os Beatles, os Sex Pistols e o Velvet Underground – que nunca voltaram a tocar juntos, salvo uma ou outra ocasião. Poderiam voltar a fazer turnês e ganhar rios de dinheiro, mas preferem explorar novos rumos individualmente, uma sabedoria estética assumida ainda nos tempos do punk rock.


David Bowie – “Heroes” (1977)
E por mais que Low tenha iniciado a relação de Bowie com Eno de forma avassaladora, a colaboração entre os dois foi selada de fato no disco seguinte, lançado no dia 14 de outubro de 1977. “Heroes” – entre aspas mesmo – não é tão importante quanto o disco anterior, mas é o álbum que consagra não apenas a nova fase da carreira do compositor como o eterniza como um dos principais nomes da música pop do século passado, forjando parâmetros que ajudaram a moldar o pop deste século. É o ponto de amadurecimento de um compositor seguro de si mas disposto a correr riscos e o disco que traga aquela que é considerada sua canção mais emblemática.


Sex Pistols – Never Mind the Bollocks (1977)
O primeiro disco dos Sex Pistols apresentava a banda para o mundo além dos factoides criados pela imprensa marrom inglesa e dos dois singles que a colocaram no mapa. É um disco sólido e conciso, uma carta de intensões bem clara e também uma obra de arte, como queria Malcolm McLaren, discípulo de Andy Warhol. Seu teor político é niilista, suas ambições estéticas são autodestrutivas, a mensagem era de que não havia futuro para nada. Mesmo que soando careta quase um século depois (são músicas criadas com acordes descendentes do blues e do country e que ajudaram a moldar um formato que tornou-se estanque com o passar dos anos – o próprio conceito de punk rock), Never Mind the Bollocks ainda soa forte e agressivo como em seus primeiros dias, o suficiente para não soar datado.


Cream – Disraeli Gears (1967)
Foi o disco que mostrou a toda uma geração de jovens músicos ingleses que a devoção para com a música norte-americana de décadas anteriores poderia ajudá-los a reinventar o próprio cenário musical contemporâneo sem ser saudosista e atingindo um público menos elitista e selecionado do que a panelinha que eles formavam.


Ramones – Rocket to Russia (1977)
Porque Rocket to Russia, ao contrário de Never Mind the Bollocks, não era um disco de ruptura, muito pelo contrário. É o disco em que os Ramones sublinham que sua sonoridade tosca e agressiva não era negação do som que haviam crescido ouvindo e sim uma forma de retomar valores essenciais do cânone clássico do rock’n’roll que haviam se perdendo entre sinfonias de rock progressivo, solos virtuosos de bandas de hard rock e baladas adocicadas cantaroladas por cantores-compositores. Ao mesmo tempo é o disco que melhor captura a dinâmica sonora do grupo, consagrando seu formato para a eternidade – e reúne um cardápio repleto de canções clássicas a ponto de rotineiramente ser confundido com uma coletânea de melhores músicas da banda.


Brian Eno – Before and After Science (1977)
Before and After Science é o disco que marca o fim de sua carreira como popstar e sela seu destino como tutor para bandas em ascensão, além de experimentalista conceitual. A partir deste disco, Brian Eno passa a usar sua discografia como exercícios de estética ao mesmo tempo em que auxiliava artistas como Devo, James, Slowdive, Laurie Anderson, Grace Jones, Coldplay e, principalmente, o U2 a explorar novos territórios musicais. É o produtor da coletânea de noise vanguarda No New York e gravou ao lado de nomes como John Cale, David Byrne, Robert Fripp, Cluster e Harold Budd, entre outros. É o álbum que demonstra para os anos 70 como seria a música pop do futuro ao mesmo tempo em que consolida sua reputação, tornando-o livre para fazer o que quiser sem precisar dar nenhuma satisfação – comercial ou não.


Wire – Pink Flag (1977)
Pink Flag sintetizava todo o espírito da banda de forma definitiva. Eram vinte e uma canções em pouco mais de meia hora de disco, com músicas que nem mesmo um minuto tinham, em alguns casos. Os temas eram muito mais diversos que os explorados pelo punk: a tensa “Reuters”, que abria o álbum, descrevia uma zona de conflito do ponto de vista de um correspondente de guerra; a urgência de “Start to Move”, “It’s So Obvious” e “12XU” contrastava com o ar contemplativo de canções sentimentais como “Fragile”, “Strange”, “Lowdown” e “Feeling Called Love”, questões políticas fugiam de discussões partidárias em faixas como “Mr. Suit”, “The Commercial”, “Brazil” e a faixa-título. Todas as canções pareciam pequenos manifestos modernistas e poderiam ter suas letras sido escritas no início do século 20, com frases de efeito que tinham origens futuristas, dadaístas, situacionistas e pós-modernistas. A novidade estética era a urgência dos sons e palavras, quase sempre indo além do que se esperava de um disco de punk rock.


Doors (1967)
As que ficaram são a matéria que compõe a lenda. O grupo emplacou três hits logo de saída: “Break On Through (To the Other Side)”, “Light My Fire” e “The End”, sendo que as duas últimas eram das jam sessions intermináveis que deram fama à banda. “Break on Through” abre o disco misturando o teclado grave de “What I’d Say” de Ray Charles com a levada de bossa nova, apresentando formidavelmente a banda. “Light My Fire”, a primeira canção composta por Krieger, teve de ter sua letra mudada em apresentações ao vivo para evitar problemas com a moral e os bons costumes norte-americanos, que não aceitavam que se cantasse sobre ficar chapado àquela época. E a épica “The End”, em que Jim Morrison encarnava o Édipo Rei para maldizer seus próprios pais, teve o verso “fuck” soterrado nas gravações.


Dr. Dre – The Chronic (1992)
O disco também sacramentou Dr. Dre como um dos principais nomes da indústria fonográfica, sendo cada vez mais requisitado para produzir novos artistas enquanto diminuía suas próprias produções. Desde este lançamento, Dr. Dre lançou apenas dois discos (2001, em 1999, e Compton, em 2015), mas lançou a carreira de vários artistas – especificamente Eminem e 50 Cent -, além de produzir discos e singles de Eve, G-Unit, Gwen Stefani, Mary J. Blige, Missy Elliott, Busta Rhymes e Alicia Keys. Lançou a grife de fones de ouvidos Beats by Dre em 2008, que foi comprada pela Apple em 2014, por três bilhões de dólares, tornando Dre executivo da empresa criada por Steve Jobs e o primeiro bilionário do rap.


Beatles – Magical Mystery Tour (1967)
Sozinho, Magical Mystery Tour é o que o filme original tentava ser: uma viagem psicodélica misteriosa, em que os Beatles, como mágicos, recebiam o ouvinte tentando emular a sensação lisérgica em letras e melodias – dos “roll up” que abrem a faixa-título ao clima nebuloso da hipnótica “Blue Jay Way” de George Harrison, da viagem instrumental de “Flying” (a primeira faixa assinada pelos quatro Beatles) ao delírio jocoso de “I Am the Walrus” (que Lennon compôs arbitrariamente de forma dúbia, apenas para atiçar a curiosidade dos que interpretavam demais suas letras), passando pela viagem à infância em Liverpool de “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane”, pelas baladas nostálgicas “The Fool on the Hill” e “Your Mother Should Know” e pelas letras simples, otimistas e diretas de “Hello Goodbye” e “All You Need is Love”. Um disco impecável que encerraria um ano mágico para os Beatles e os preparava para o início do fim de suas carreiras.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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