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Tom Petty, morto aos 66 anos, sintetizou a alma caipira norte-americana

Alexandre Matias

03/10/2017 07h21

A súbita e triste notícia da morte de Tom Petty, que foi encontrado inconsciente em sua casa na noite deste domingo e teve seu óbito decretado na noite desta segunda, vem apenas acelerar a importância de sua carreira para a música norte-americana. Popstar nato, roqueiro da velha guarda e com trânsito livre entre as celebridades musicais dos EUA, ele é uma peça-chave para entender não só a música nativa de seu país mas principalmente ao redefinir o conceito de country music após a vinda do rock.

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Nascido após a era de ouro do country e testemunha da chegada do rock às paradas de sucesso e ao inconsciente coletivo (ele conheceu Elvis pessoalmente aos dez anos de idade e pode assistir, três anos depois, à chegada dos Beatles aos EUA), ele conseguiu traçar um percurso entre o velho vaqueiro que não queria ir para a cidade grande e o jovem desempregado que foi dispensado por esta. Aos poucos foi criando um personagem que não era propriamente um perdedor, mas não estava interessado apenas em vencer. Fugindo dos estereótipos galvanizados pelo country e pelo rock, ele preferia ficar fora dos holofotes da vida real, cantando a vida comum de pessoas que não almejavam virar astros.

À frente dos Heartbreakers, ele foi tecendo um rosário de hits entre os anos 70 e 80 que conquistou lentamente o público que descrevia. "Até os perdedores têm sorte de vez em quando", cantava em um de seus primeiros hits, mirando em uma nova geração de caipiras que nunca esteve em uma fazenda ou cavalgou um cavalo. Eram moradores de trailers que viviam com suas famílias numerosas à margem de cidades de médio porte, em acampamentos que viravam vilas de casas com rodas, sem dinheiro para fazer nada mais do que comer, beber, transar e ir para shows. Um perfil que ficou mais tarde conhecido como "white trash". Tom Petty entendia que aqueles eram os novos vaqueiros, os novos caubóis, pilotando motos ou dirigindo carros caindo aos pedaços, cruzando o país em busca de algum sentido para a própria vida, mesmo que este sentido fosse apenas uma letra de música.

Assim foi construindo sua reputação não apenas artística, mas também pessoal: era visto como um dos caras mais gente boa do rock dos anos 80 e 90, além de um compositor de hits inconfundíveis e um músico de timbre próprio e facilmente reconhecível. A textura de sua voz, doce, grave e levemente rasgada, ia moldando-se cada vez mais à guitarra clara e sem efeitos que puxava sequências de acordes memoráveis, criando uma assinatura musical que pariu hits do calibre de "Free Fallin"', "Breakdown", "Listen to Her Heart", "I Won't Back Down", "The Waiting", "You Got Lucky", "Here Comes My Girl" e "Learning to Fly", sintetizando assim a essência de uma nova alma caipira norte-americana.

A amplitude de sua influência pode ser medida de inúmeras formas – desde sua participação no supergrupo Travelling Willburys (ao lado de ninguém menos que Bob Dylan, George Harrison, Roy Orbison e Jeff Lynne) até a inevitável influência que exerceu nas bandas que ganharam notoriedade depois que o grunge ajudou a revelar este novo caipira norte-americano – de grupos diretamente influenciados por aquela cena alternativa (como Pearl Jam, Screaming Trees, Temple of the Dog e até os Foo Fighters) até outros que só conseguiram espaço graças à explosão daquela cena (como Goo Goo Dolls, Third Eye Blind, Wallflowers, Counting Crows, Black Crowes, Matchbox Twenty, Hootie & the Blowfish e Blues Travellers, entre várias outras bandas dos anos 90 e além).

Sua influência é tão grande que embrenhou-se inclusive em artistas que, aparentemente, não têm nada a ver com seu legado ou com o próprio conceito de caipira norte-americano. Compare "Mary Jane's Last Dance"…

…com "Dani California" dos Red Hot Chili Peppers.

Ou "I Won't Back Down"…

…com "Stay With Me" do Sam Smith.

Ou "American Girl"…

…com "Last Nite" dos Strokes.

Mais um monstro sagrado que se vai. Quem sabe agora o reconheçam como tal.

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.