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Por que os alienígenas saíram do foco da nova temporada de "Arquivo X"?

Alexandre Matias

28/01/2016 22h11

mulder-scully

A volta de Arquivo X provocou duas reações não propriamente improváveis, mas inesperadas. A primeira diz respeito ao sucesso de sua audiência: treze milhões e meio de norte-americanos assistiram ao episódio de estreia da décima temporada da série, que estreou no domingo na Fox norte-americana. O segundo episódio foi exibido na segunda-feira e não fez feio: quase dez milhões de telespectadores fizeram um programa com quase vinte e cinco anos ser o hit da temporada da emissora em 2016.

A segunda, no entanto, diz respeito à história da nova temporada e se você não assistiu a nenhum dos dois episódios exibidos este ano e não quer saber do que acontece na série, esta é a sua deixa para se retirar do texto. Mas antes de sair saiba que a Fox brasileira exibiu os dois primeiros episódios na segunda passada e planeja transmitir os próximos episódios simultaneamente com a Fox americana, toda segunda.

Se você continua no texto até aqui é porque ou já assistiu aos dois primeiros episódios dessa minitemporada, que só pelo sucesso de audiência já garantiu o contrato para mais episódios. E a outra grande reação inesperada dizia respeito à trama. Ao conseguir fechar contrato com quase todos os envolvidos da fase clássica da série, seu criador Chris Carter deixou claro que iria trabalhar com a nostalgia no talo. O melhor exemplo disso está na abertura da série, que é exatamente a mesma dos anos 90 – igualmente brega, feita com baixo orçamento e com efeitos de vídeo que já eram risíveis e datados em 1993. O subtexto é claro e o autor dizia que iria trabalhar com os mesmos valores da série quando ela foi cancelada, em 2002.

O problema é que logo no primeiro episódio descobrimos que tudo – tudo! – que era a motivação central da grande conspiração do seriado era uma farsa. Mesmo recriando espetacularmente (como ninguém havia feito antes, como pode?) o famoso incidente de Rosswell, considerado o marco zero da ufologia, a décima temporada de Arquivo X começa dizendo que os alienígenas não estão invadindo a Terra para nos escravizar.

rosswell

A primeira "grande revelação" do novo seriado, no entanto, não faz tudo voltar à estaca zero. Há sim uma conspiração em andamento para controlar toda a civilização e sim existe vida inteligente fora da Terra – e o governo sabe disso há muito tempo. Mas a trama original dizia que os alienígenas estavam em nosso planeta desde antes da aurora da civilização, planejando a hora em que se mostrariam para nós com o apoio de uma elite sinistra de humanos traidores. A invasão alienígena aconteceria na fatídica data de 2012, quando todos os humanos seriam escravizados para fornecer energia para os extraterrestres.

A conspiração, como ficamos sabendo logo no primeiro capítulo, envolvia apenas humanos querendo controlar humanos – e assim não apenas não fica invalidada a ideia de "governo das sombras" como envidencia-se que este tal governo secreto é o mesmo que dá a cara todos os dias. Os mesmos que negam a existência de vida inteligente fora da Terra pelo simples fato de usar tecnologia alienígena para conseguir manter-se no controle.

A revelação foi rejeitada pela maioria dos fãs da série por simplesmente passar uma borracha em uma década que mudou a história da televisão.

Porque Arquivo X é o protótipo das séries desta era de ouro que vivemos na dramaturgia televisiva norte-americana. Ela desenvolve uma série de ideias carburadas por Twin Peaks, de David Lynch, na virada dos anos 80 para os 90, e as coloca em prática em larga escala. Como Twin Peaks, Arquivo X também começou como uma série cult, assistida por poucos fãs – poucos mas fervorosos. Mas Twin Peaks não passou da segunda temporada, enquanto a série protagonizada por Fox Mulder e Dana Scully virou um dos maiores fenômenos pop da TV nos anos 90, ao lado de clássicos modernos como Seinfeld, Simpsons e Friends.

Só que ela determinou uma série de novos parâmetros que eram ignorados ou repelidos pelas emissoras de TV. Assuntos complexos, temas herméticos, cenas de causavam nojo, tramas paralelas, personagens sombrios, heróis reticentes – Arquivo X exigiu um pouquinho mais do público, que assistia a seriados bobos e repetitivos, e o público respondeu bem. O seriado subiu o nível da narrativa e trouxe o público para a discussão, sendo um dos primeiros produtos pop a saber utilizar a internet. Tudo isso por conta de outra mudança que seria crucial para a atual ótima fase da TV – a série pertencia a um autor, um escritor/produtor que tomava conta da qualidade do seriado. Uma figura que hoje é conhecida como "showrunner", o autor da série.

Tudo isso não existia até os anos 90 (salvo pontuais exceções) e o seriado aproveitou-se disso tudo para criar todo um universo particular, com a ajuda dos fãs. E assim construiu uma mitologia sólida como as que a Marvel e a DC criaram nos quadrinhos ou que George Lucas criou no cinema.

E aí chega a nova temporada e diz que toda essa mitologia era… uma farsa?

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Mas talvez Chris Carter, que novamente colocou sua série de pé, esteja querendo nos dizer algo com isso.

Arquivo X foi cancelado um ano após o atentado ao World Trade Center e mesmo que continuasse sendo produzido, não duraria muito tempo. Os Estados Unidos entraram numa onda de paranoia inversa à do seriado e logo os americanos passaram a temer tudo que não fosse norte-americano. E, principalmente, a venerar o próprio governo. Se a série primava por desenvolver um pé atrás em relação a toda espécie de verdade oficial emitida por quaisquer dos presidentes norte-americanos, a realidade pós-11 de setembro tornava mandatório não desconfiar do governo.

Este movimento aconteceu simultaneamente à popularização em massa do acesso via banda larga à internet, que permitiu o crescimento e expansão de empresas de tecnologia que passaram a ter completo controle sobre o que seus usuários faziam. Sites de busca, redes sociais, empresas de telefonia, de sistemas operacionais e de acessórios portáteis de acesso à internet passaram a monitorar os passos de milhões de usuários, cada vez mais, permitindo que o acesso a estes dados pudessem cair nas mãos de outras empresas e do próprio governo. Um documentário no Netflix chamado Terms and Condition May Apply explica detalhadamente esta mudança, em que os cidadãos norte-americanos abriram mão dos seus direitos civis em troca de poder usar "gratuitamente" serviços online e aparelhos com acesso à internet.

É muito fácil e ilusório transferir esse controle das massas para as mãos de alienígenas malvados que vieram de outro planeta para nos dominar. Parece que, sem os extraterrestres, estas preocupações não aconteceriam, como se todos os homens – inclusive os que têm muito dinheiro e poder – fossem bonzinhos e só quisessem o bem da humanidade. Ao tirar os aliens do papel de vilão no novo Arquivo X, Chris Carter está nos chamando atenção para os verdadeiros perigos e problemas de 2016: empresas e governos que monitoram todos os nossos passos e podem fazer o que bem quiserem com estas informações. Pro bem… e pro mal.

O primeiro episódio patinou sem sair do lugar repetindo a ladainha sobre a "luta" de Mulder mais para explicar o que é a série para um novo público e fazer velhos espectadores retomarem o fio da meada. Já o segundo aprofunda-se um pouco mais na nova realidade, apresentando um "monstro da semana" que conecta-se com uma atividade governamental secreta que conversa tanto com os velhos episódios de Além da Imaginação, filmes de terror psicológico e várias histórias de super-herói. E aos poucos nos apresentam os velhos personagens contrapostos ao novo tempo: Scully orgulha-se de ser "pré-Google", Mulder faz questão de se dizer "old school" e até o Fumante (que antes era conhecido como Canceroso) deu as caras de novo, possivelmente revivido graças a alguma mutação com DNA alienígena. Ou é um clone, vai saber.

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E ainda há a história do filho do casal principal… Aquelas cenas no final do segundo episódio são flashbacks ou sonhos – e pesadelos – que nunca se realizarão? Algo me diz que veremos o hoje adolescente William em um próximo episódio…

O fato é que esta curta volta de Arquivo X pode prometer uma sobrevida bem interessante a uma série que já foi uma das melhores de seu tempo. O talvez seja isso que eu, como outros fãs da velha série, quero acreditar…

Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.