Blog do Matias

Punho de Ferro é indefensável

Alexandre Matias

31/03/2017 12h59

Não sei se Punho de Ferro é o pior produto da Marvel em sua recente conquista do inconsciente coletivo pop através de seu universo cinematográfico, porque o terceiro filme do Homem de Ferro e o segundo filme do Thor brigam bem por esse posto. Mas é, sem pestanejar, a pior série produzida pelo estúdio – e não apenas a pior da safra realizada em parceria com o Netflix. O argumento de que a coadjuvância do personagem no universo Marvel é o motivo para o fracasso do seriado não funciona, afinal o estúdio conseguiu fazer bons filmes com personagens completamente desconhecidos do público, como Guardiões das Galáxias, Homem Formiga e Doutor Estranho. Os defeitos de Punho de Ferro são todos da série. Se você não assistiu a série e não quer saber de (poucos) spoilers, segue a clássica série de gifs animados para que você não leia algo que não queira. Não que isso importe.

O principal problema de Punho de Ferro está em seu elenco. Especificamente no elenco masculino. E por pior que seja Finn Jones, o ator que vive o personagem-título (já falo mais sobre isso), nada na série consegue superar a ruindade da dinâmica dos dois “atores” que interpretam os únicos homens da família Meachum – o pai Harold vivido por David Wenham e o filho Ward vivido por Tom Pelphrey. Não importa sua participação na história (que é importante), todas as cenas em que os dois têm de contracenar transformam imediatamente a série em algo que pior do que os piores telefilmes dos anos 80 que passavam de madrugada. Não importa sobre o que eles estão falando, as péssimas atuações transformam todos os treze episódios da primeira temporada em sessões de tortura. Some isso ao fato do pai ter feito um pacto sobrenatural que lhe tornou imortal, mas o obriga viver isolado em um apartamento frequentado apenas por seu filho, o único que sabe que não forjou a própria morte, o que faz a série ter vários destes momentos que misturam o tédio e o desespero.

Perto dos dois, o Danny Rand vivido por Finn Jones até convence – mas, na verdade, ele não convence. Em nada. Seu Punho de Ferro é um chorão egoísta preocupado apenas em descobrir o que aconteceu com seus pais e cujo superpoder é explicado de forma bem preguiçosa. Por vários momentos da série, Danny tenta explicar o que é o Punho de Ferro, uma tradição asiática milenar que foi passada para um menino ocidental que sobreviveu a um acidente aéreo nos Himalaias e foi parar em um monastério em uma cidade de outra dimensão. Em várias passagens, ele sofre para traduzir a sensação do que é ser o Punho de Ferro:

– Mas então você foi escolhido…?
– Não, não é isso… Eu mereci.
– Hein?

E fica por isso mesmo. Enquanto todas as histórias de origem da Marvel deixam claro porque aquelas pessoas se tornaram super-heróis, Punho de Ferro faz o superpoder parecer uma alergia, um condição, um entrave. Mesmo porque ele nem sabe controlar direito o poder – o tempo todo (O TEMPO TODO) ele nos lembra que só consegue convocar o Punho de Ferro quando seu “chi” está equilbrado. E tudo isso é dito com muito sofrimento, com muito sentimento, com uma atuação patética para parecer que aquela situação é muito séria. Isso sem contar como o superpoder é ridículo: apenas uma das mãos fica dourada e ganha força para derrubar portas de ferro, segurar balas ou nocautear supervilões. Algo que tanto Jessica Jones quanto Luke Cage – outros heróis das séries Marvel com o Netflix – fazem sem precisar equilibrar “chi” nenhum. Quero ver quando eles se encontrarem na próxima série, os Defensores, Jessica e Luke olhando um pro outro, cúmplices, rindo do novato: “Xi…”

O elenco feminino é um pouco melhor. A Joy Meachum vivida por Jessica Stroup sofre mais pelo fraco personagens – falas ridículas, reações bobas – do que por sua atuação em si. A Claire Temple de Rosario Dawson segue o bom desempenho de todas outras séries – sua personagem passou por todos os quatro seriados Marvel/Netflix e inevitavelmente provocará a união dos heróis – e quase engole o resto do elenco sem precisar fazer o menor esforço. E a Colleen Wing vivida por Jessica Henwick destoa completamente do resto do elenco, assumindo o protagonismo da série em alguns momentos só por sua boa atuação.

Mas mesmo um bom elenco teria dificuldade com o roteiro apresentado. A série é vaga como sua definição do poder do Punho de Ferro e tateia entre reuniões de corporações e o submundo do narcotráfico, gangues orientais e hospitais psiquiátricos (sem contar as risíveis subdivisões do Tentáculo), velhos clichês repetidos sem alma, sem vontade, sem a menor personalidade. Nem o lado da ação ajuda – as lutas podem até ser bem coreografadas, mas são mal filmadas e os cortes em todas as cenas de ação parecem ser mais ágeis do que toda a ação ao redor. Entre trocas de câmeras e golpes desferidos, o excesso de velocidade só consegue provocar preguiça.

Foi difícil atravessar todos os episódios da série e nada se salva a ponto de recomendá-la para alguém. É uma enorme perda de tempo que não chega propriamente a abalar o futuro da Marvel, embora tenha comprometido o viés narrativo místico, que foi começado com a captura das Joias do Infinito, a motivação básica de todo o universo cinematográfico até aqui, e escancarado com o ótimo Doutor Estranho do ano passado. Mas abala a relação da Marvel com o Netflix, que pode até se recuperar com os Defensores, mas não apresentará um novo herói com tanta facilidade, como já havia feito com Jessica Jones e até mesmo Luke Cage (ambas infinitamente melhores que Punho de Ferro, mesmo que Luke Cage seja a segunda ou terceira pior série da Marvel até agora).

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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