Blog do Matias

Às vésperas de lançar seu trabalho solo ao vivo, Mano Brown avisa que os Racionais lançam disco novo ainda este ano

Alexandre Matias

23/03/2017 11h32

“Muito funk, muito soul, grandes músicos, convidados da pesada nessa festa de lançamento dia 12. É um lance que eu sempre sonhei fazer, construir os próprios arranjos, mudar no meio do percurso, solo, teclado, produção… A arte pela arte”, Mano Brown empolga-se ao telefone quando fala sobre os shows de lançamento de seu primeiro disco solo, Boogie Naipe, lançado no ano passado, e que terá suas primeiras apresentações ao vivo em maio. São três datas até agora: dia 12 de maio em São Paulo, no Citibank Hall (com abertura de Rael e Rincón Sapiência), dia 14 no Festival Bananada, em Goiânia, e dia 20 no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Mano Brown subirá ao palco com o parceiro Lino Krizz e uma banda com baixo, guitarra, bateria, teclados, sopro, percussão e backing vocals – doze músicos ajudando-o a buscar uma sonoridade que ele é afeito muito antes de conhecer o rap. Mas isso não quer dizer que ele deixou o rap – ou os Racionais MCs, grupo que lhe deu fama – em segundo plano, pelo contrário: “Os Racionais têm plano de lançar disco esse ano ainda.”

“Esse termo ‘boogie’ é utilizado há muito tempo pela música negra, desde o jazz. E também na raiz do hip hop, na época do break dance, das danças, na disco… É uma linhagem de som que eu gosto desde criança”, ele explica. Musicalmente, Boogie Naipe situa-se no final dos anos 70 e começo dos anos 80, naquela época em que a disco music começava a se metamorfosear em electrofunk, quando os teclados e pedais de efeito levavam o funk para a era digital – época em que Mano Brown saía da infância rumo à adolescência. “Eu comecei com essa sonoridade soul e funk antes do rap, eu comecei nisso. Antes do rap chegar no Brasil eu já tava na pista, acompanhando a cultura, a raça, o cabelo, a roupa, o comportamento… Mesmo sem saber da mensagem, eu já acompanhava. Pelas pessoas que me cercavam. Eu sempre sonhei em fazer música romântica desde lá. Eu queria saber tocar guitarra como o Jorge Ben, sempre gostei daquelas músicas, dos temas, das harmonias… Mas no final dos anos 80 tinha esse lance da música do protesto, tinha a necessidade de protestar, de reivindicar e eu aderi. Era prioridade pra raça, pro pessoal e eu aderi”, explica, justificando a criação dos Racionais.

“Na real, nunca tive ideia de fazer um trabalho solo, em momento nenhum da minha carreira. Sempre me perguntavam, desde lá de trás, 94, do ‘Homem na Estrada’, ‘Diário de um Detento’, ‘pô, Brown, quando é que você vai sair solo?’ Eu nunca quis sair solo em formato de hip hop como nos Racionais. Mesmo porque nos Racionais sempre fui livre pra fazer tudo que quis e fiz tudo que quis, não fui impedido por nada: por nenhuma filosofia, ideologia, por fã, nada. Sempre fiz o que quis, o Racionais sempre me deu liberdade”, ele continua.

Nova sonoridade
“O lance de fazer um disco sem os Racionais veio desse aprofundamento na soul music, na temática sobre relacionamento, sobre relações humanas, homem, mulher, família… Coisa que os Racionais também citam, mas de leve. Essa ideia começou há oito anos, quando fiz a música ‘Mulher Elétrica’, que nem é uma música romântica, mas é uma outra abordagem. Fala com o lance da Cinderela negra, que trabalha na semana e no fim de semana vai pra pista, brilha e quebra tudo… Uma Cinderela hi-tech, flertando com a fantasia, mas sem perder o engajamento. A segunda música foi ‘Dance Dance Dance’, a música que tem a participação do Seu Jorge, que aí já era um tema mais humana, a realidade de um romance… Um cara na balada, bêbado, pensando em alguém que não tá com ele, pedindo pra resgatar ele na saída da festa, que ele não queria estar lá, queria estar com ela. E depois veio ‘Lois Lane’, uma música que também flerta com a fantasia, mas sem perder o elo com a realidade, que fala de um amor de uma mulher que ele elegeu como a ‘Lois Lane’, ‘Se você quiser ser a Lois Lane eu sou seu Superman, por você eu paro um trem…’ e pá. E por aí vai tendo essas ideias…”

A busca por essa sonoridade fez inclusive que ela entrasse no disco mais recente dos Racionais, Cores e Valores, lançado sem aviso no fina de 2014, depois de mais de uma década de espera. “Tem duas músicas que foram lançados no disco Cores e Valores, ‘Corações Barrabás’ e ‘Eu Te Proponho’, que são a cara do Boogie Naipe. E eu coloquei no Racionais e pra mim foi estrategicamente bom porque abriu espaço pra essa nova abordagem que eu faço com a música. Essas músicas dentro dos Racionais abriram espaço e não causou tanto estranhamento.”

“É interessante, eu tô curtindo muito esse momento da minha vida, porque os Racionais é tudo na minha vida, foi o que abriu o espaço, é a força, o peso, mas agora eu tenho esse lado que eu posso me divertir. Eu tô me divertindo fazendo isso, tô sendo feliz, fazendo músicas com essa temática. Eu tô curtindo”, comemora. Mas isso não quer dizer que os Racionais estão parados enquanto o Brown está solo.

“Não tem como parar os Racionais”
“Racionais é uma potência. Não tem como parar os Racionais. E você sabe que os Racionais tem esse povo que acompanha que é mais dono dos Racionais do que eu. Hoje em dia os Racionais já não me pertence, se um dia pertenceu, já não é mais meu. Hoje em dia as pessoas dão palpite na roupa que eu tenho que usar, no que eu tenho que falar, no que eu tenho que cantar e eu às vezes discordo, tenho minha liberdade acima de qualquer coisa. Mas com o Boogie Naipe eu quebrei as correntes. As pessoas não sabiam o que eu ia fazer, não sabia nem por onde começar, então não podiam opinar muito. Nos Racionais, as pessoas têm as músicas mais antigas, querem tudo aquilo de novo, repetir aquele discurso de novo, querem que o Brasil volte a 1996, que o Brown volte a ter vinte e cinco anos. Mas você tem que acompanhar o mundo, senão ele te engole.”

Foi justamente o que o grupo fez ao lançar Cores e Valors. “Esse disco nasceu no meio de uma entressafra nossa, porque a gente acabou de entrar na época moderna – das mídias sociais, dos videoclipes, dessas coisas – agora. A gente não ligava para isso. Os Racionais era mais uma gangue do que um grupo de música. A música era o vento que levava, a gente não divulgava. Hoje em dia mudou muito, todo mundo quer cantar, o meio artístico é concorrido, competitivo e a gente entende isso e tivemos que aderir. O disco Cores e Valores é uma transição inclusive para o Boogie Naipe.” Brown inclusive diz que não irá mais realizar os clipes que pretendia fazer das músicas anteriores, sendo que o primeiro deles foi feito em parceria com o produtor Kondzilla. O foco agora é o novo trabalho.

“Edy Rock já tá fazendo música, eu tô fazendo música, o (Ice) Blue tem muitas músicas…”, enumera. “O lance dessa nova época é porque também a gente tem bem mais condições de fazer música, antigamente era mais difícil produzir, montar um estúdio, tudo era muito caro, restrito, para poucos. Você só podia entrar em estúdio na época de gravação mesmo, era tudo caro, você tinha que agendar muito antes. Hoje em dia todo mundo tem estúdio em casa, a gente tem os nossos, a gente faz as pré-produções na nossa quebrada mesmo pra depois ir pra finalização… Tem mais condições. As músicas estão saindo em série, tem muita música saindo aí, entendeu? Nos últimos quatro anos se somar Boogie Naipe com Racionais são trinta e sete músicas novas na música. Fora dezesseis faixas que já estão prontas e poderiam ter entrado no Boogie Naipe. Tenho um outro disco praticamente pronto.”

Fora a expectativa pelo próximo disco e pelos shows, Brown também anda atento sobre a atual situação política do Brasil, principalmente no que diz respeito à polarização entre as pessoas. “Ainda estamos entendendo o que é democracia. Democracia é você saber que tem gente que pensa diferente de você! Pra que time você torce? Você poderia ter um irmão palmeirense, mas você não ia expulsar o cara da sua casa. Você agride as pessoas que votam em um partido diferente? Essa radicalização é mais desespero e medo, o Brasil tem que amadurecer essa democracia.” Se isso pode virar tema de música é outra história. Mas Brown está de olho.

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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