Blog do Matias

Um ótimo documentário sobre uma das cenas mais menosprezadas da música brasileira: a axé music

Alexandre Matias

19/01/2017 07h52

Luiz Caldas

Luiz Caldas

A força da axé music pode ser medida tanto pela forma como ela foi aceita como quanto ela foi rejeitada. O próprio rótulo que a batiza foi criado de forma irônica, desmerecendo pejorativamente a vontade daquela cena musical ser consumida fora do Brasil. Na pesquisa que fiz para o especial de 30 anos da axé music para o UOLdois anos, as menções à axé music se dividiam em dois grandes grupos: reportagens criticando a ascensão popular daquela sonoridade como um entrave que a indústria fonográfica havia criado para a “boa música” – em sua grande maioria reclamações feitas por bandas e produtores de rock – e anúncios sobre a realização de inúmeros shows com todos os artistas que hoje formam o panteão da axé. Não havia uma tentativa de entender ou contextualizar aquela enorme transformação musical baiana e seu impacto na cultura brasileira ou entrevistas com seus protagonistas para que eles falassem sobre tudo aquilo.

O documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar, de Chico Kertész, que estreia neste fim de semana em circuito comercial, vem suprir esta lacuna. É um filme que mergulha na origem daquela cena musical, acompanha seu desenvolvimento e seu apogeu a partir de entrevistas com todos os nomes que fizeram sua história. Ouvimos as histórias sendo contadas em primeira mão por seus grandes ícones (Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Luiz Caldas, Chiclete com Banana, Olodum, Ivete Sangalo), os coadjuvantes mais conhecidos (Araketu, Asa de Águia, Banda Mel, Claudia Leitte, Netinho, Sarajane), sempre enfatizando a influência dos blocos afro. Ainda há entrevistas com as vacas sagradas Gilberto Gil e Caetano Veloso, que entram menos como padrinhos musicais e mais como testemunha de alguns momentos desta história, e com produtores e empresários, que explicam uma questão abraçada pelos artistas e pelo próprio documentário: axé music não é um gênero musical, e sim uma forma de fazer música pop de sucesso em escala industrial a partir de Salvador.

Mas o Axé: Canto do Povo de um Lugar vai além da fórmula básica do documentário sobre música produzido no Brasil neste século, que enfileira entrevistas e as alterna com fotos e reproduções de manchetes e páginas de jornais e revistas. A pesquisa audiovisual do filme mergulha na gênese histórica da axé e volta com cenas em movimento dos primeiros trios elétricos, do embate dos blocos afro com os trios no início dos anos 80 e apresentações do início de carreira – e entrevistas – de quase todos os artistas mencionados. Em vários momentos, a cena descrita pelos entrevistados é exibida logo em seguida, provocando pequenas revelações visuais no decorrer do filme.

Este nem é seu grande mérito. A força do documentário persiste justamente em contextualizar uma movimentação cultural que começou a sacudir Salvador para além do carnaval na virada dos anos 70 para os 80 e como esta movimentação foi percebida por uma nova geração de artistas que entendeu que poderia conquistar o Brasil sem precisair da Bahia. Até então, se um artista quisesse atingir sucesso nacional, teria que se mudar para São Paulo ou, principalmente, para o Rio de Janeiro, que até os anos 80 era a capital cultural brasileira. A axé music inverte esse paradigma e obriga Rio e São Paulo a olharem para a capital baiana sempre em busca do próximo sucesso do verão.

Tanto que todos os protagonistas são categóricos ao afirmar que o pai da axé music não é um músico, um compositor ou um intérprete, e sim um produtor musical. Wesley Rangel, falecido no início do ano passado, foi quem viu a viabilidade comercial daquela música e transformou seu Estúdio WR no coração de mãe que reunia todos artistas, novatos e veteranos. Foi ele também quem estabeleceu a ponte entre Salvador e o Rio de Janeiro, tornando possível a explosão nacional de Luiz Caldas, o Elvis Presley daquele rock’n’roll baiano.

Carnaval em Salvador

Carnaval em Salvador

O filme também é didático ao explicar as diferenças entre os gêneros musicais de cada artista, falando em samba-reggae, fricote, galope, pagode. Na matriz de todos eles está o chamado “samba duro”, gênero musical característico da região do recôncavo baiano, menos malemolente que o samba carioca, mais pronunciado e empolgante. Alguns dos grandes momentos do documentário estão quando pioneiro Gerônimo (autor de “Eu Sou Negão”) e o maestro Letieres Leite fazem a genealogia musical daquela cena – ou quando vemos a história da criação do repique de percussão característico do samba-reggae. E, claro, a clássica passagem sobre como Daniela Mercury parou São Paulo no histórico show sob o vão do Masp, na Avenida Paulista, em 1992 – e com imagens deste show.

A presença dos artistas – e seu aprofundamento pessoal para além dos personagens que eles criaram no palco – é outra grande qualidade do documentário. Da sempre inspiradora Daniela Mercury ao hilário Gerônimo, passando pelo senso comercial do Cumpadi Washington e de Beto Jamaica e por depoimentos inspirados de heróis locais desconhecidos no resto do país como Vovô do Ilê, Márcio Vitor, Lazinho, Tatau e Tonho Matéria, a forma como as entrevistas são conduzidas permite entender melhor a manha baiana, um jeitinho específico que está nas entrelinhas dos hits e dos refrões.

Axé só peca por sua extensão, mas isso não é propriamente um defeito. Ao querer ser o filme definitivo sobre esta cena, ele debruça-se sobre a história de cada bloco, dando atenção a atrações menores do ponto de vista histórico como a Banda Mel, Banda Beijo e o Harmonia do Samba. Num dado momento estamos assistindo Ricardo Chaves (do hit “É o Bicho”) contar sobre sua trajetória ou ouvindo falar sobre a importância atual de Saulo Fernandes (ex-Banda Eva), o que destoa da história principal, mas não chega a incomodar.

axe-canto

No fim das contas, Axé: Canto do Povo de um Lugar é uma aula de história mais do que um filme sobre uma cena musical. Insiste em buscar a nascente e explicar como a música pop produzida em Salvador entre os anos 80 e 90 dominou o país e chamou atenção do resto do mundo, levando o Olodum ao Central Park em Nova York e Michael Jackson ao Pelourinho. É um filme obrigatório para quem gosta de música brasileira, mesmo aos que repudiam a axé.

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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