Blog do Matias

Sing Street é a injeção de otimismo que você precisa para começar 2017

Alexandre Matias

17/01/2017 12h41

singstreet

Quando Stranger Things foi lançada e tornou-se um fenômeno da noite pro dia no meio do ano passado, a reação à explosão de popularidade dizia que a série havia sido “fabricada” a partir de algoritmos de audiência do Netflix (sendo que ela tinha sido rejeitada mais de dez vezes por outras emissoras de TV, antes de ser descobertas pelo serviço de vídeo online) e que o sucesso da série estava intrinsecamente ligado ao acúmulo de referências a um recorte específico do cinema pop dos anos 80. A maioria dos críticos do sucesso da série simplesmente ignorou o fato do seriado ser um ponto de luz otimista no breu de pessimismo que domina o inconsciente coletivo do mercado de entretenimento.

Em Stranger Things, os personagens eram criados para que pudéssemos nos identificar com eles e só – e não para vê-los morrer de uma forma agressiva e súbita. A valorização da amizade, a preocupação com o outro, o fascínio pelo desconhecido, a segurança da retribuição, o prazer de agir coletivamente – debaixo de uma história de horror e ficção científica a respeito de uma ruptura na realidade que dá acesso a uma dimensão negativa, havia uma ode à camaradagem e à afeição, ao respeito e à ternura, itens raros no mercado pop nestes ríspidos anos 10. Todas as referências aos filmes de Spielberg, John Carpenter e Stephen King eram uma cobertura açucarada sobre uma história cujo lema é uma verdade pétrea que parece provocar o nível de relação pessoal das redes sociais: “Amigos não mentem.”

Se foi exatamente isso que lhe fez sorrir em Stranger Things, prepare-se para a dose de otimismo ideal para começar 2017. O musical Sing Stret escrito e dirigido pelo irlandês John Carney é um dos grandes filmes de 2016 e estreou sem muito alarde no Netflix brasileiro na virada do ano. A história é aquela velha conhecida de um cara que quer montar uma banda para conquistar uma garota, mas a forma como ela é conduzida, a relação que vai criando entre os diferentes personagens e uma trilha sonora de primeira garantem quase duas horas de um tipo raro de diversão atualmente.

A história se passa nos anos 80 e poderia tranquilamente ser contemporânea de outro musical que se passa no mesmo período e na mesma cidade, The Commitments, de 1991. Mas enquanto os Commitments miravam em seu futuro profissional, a banda que batiza o filme só quer fazer parte de uma turma fazendo música. São pré-adolescentes como os Goonies, mas como a história se passa em Dublin, as referências são bandas new wave e pós-punk como Duran Duran, The Cure, Joy Division e Simple Minds.

O filme começa quando Conor (o ótimo Ferdia Walsh-Peelo) muda de escola e tem que criar um círculo social. Entre brigas no refeitório e problemas com a direção católica do novo colégio, ele vê uma garota perto da escola (Raphina, vivida por Lucy Boyton) e para impressioná-la, diz que tem uma banda. A partir daí acompanhamos a história quase mítica de formação de uma banda, envolvendo diferentes clichês como a dupla de cantores e compositores, os lendários primeiros encontros, a mitologia sobre o surgimento das canções e as agruras em relação ao showbusiness.

Mas estas são as referências pop do filme, não seu cerne principal. A viga de sustentação da história acontece no vínculo de amizade entre os integrantes da banda e, principalmente, na relação entre Raphina e Conor, que desenvolve-se bem à medida em que o filme se desenrola, e entre Conor e seu irmão mais velho, Brendan (Jack Reynor), que age como mentor rock’n’roll, autor de frases lapidares como “rock’n’roll é um risco: o risco de ser ridicularizado”, “nenhuma mulher pode amar de verdade um homem que ouve Phil Collins” e “os Sex Pistols sabiam tocar? Você não precisa saber tocar. Quem é você, Steely Dan? Você precisa aprender a não tocar, Conor. Esse é o truque. Isso é rock’n’roll. E isso… requer prática.”

Fora isso há as ótimas músicas originais da banda Sing Street, além de músicas do Clash, Joe Jackson, The Jam, Hall & Oates e vários outros na trilha sonora. Um filme para sair assobiando após o final.

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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