Blog do Matias

Lô Borges recria seu mítico "disco do tênis" pela primeira vez ao vivo

Alexandre Matias

13/01/2017 07h15

loborges-72

“A coisa mais certa que eu podia fazer foi a largar a indústria fonográfica aos vinte anos de idade depois de compor 25 músicas para dois álbuns, para o Clube da Esquina e pro disco do tênis”, lembra o mineiro Lô Borges, em entrevista por telefone, sobre o início de sua carreira em 1972. “Foi a melhor coisa que eu fiz! Se eu continuasse gravando um disco a cada seis meses, eu ia enlouquecer! Eu não queria sobreviver de música, eu queria que a música sobrevivesse em mim!”

Um dos principais nomes da cena mineira que se revelou no disco Clube da Esquina, Lô Borges era o segundo autor do disco que reunia músicos e compositores que hoje são bastiões da música brasileira, como Flávio Venturini, Toninho Horta, Fernando Brant, Beto Gudes, Wagner Tiso e Milton Nascimento. Creditado a ele e Milton, o disco apresentava uma nova cara para o pop mineiro, recriando-o a partir de influências da então novíssima MPB e do rock contemporâneo à época, hoje reverenciado como clássico. E após o lançamento do disco, Lô seguiu a boa fase lançando seu primeiro disco solo quase em seguida. Batizado apenas com seu próprio nome, o disco de 1972 é conhecido pelo par de tênis em sua capa e por aprofundar-se ainda mais nas profusões musicais daquela cena criando um registro que hoje é clássico da psicodelia brasileira. Um disco que nunca foi tocado ao vivo por seu autor, falha que será corrigida a partir deste fim de semana, quando Lô recria o clássico disco em três shows – já com ingressos esgotados – no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

“O disco do tênis nunca se misturou ao meu repertório ao longo dessas décadas todas. Ele ficou preservado. Nunca toquei músicas do tênis nos setlists dos meus shows, que contemplam quase todos discos meus, mas nunca entraram músicas do tênis”, explica o músico e compositor. O motivo é tão simples quanto revelador: uma vez submetido às pressões do showbusiness, Lô teve que tirar um disco que se comprometeu a lançar por contrato a fórceps e depois de terminado, decidiu abandonar tudo para viver a vida.

“Esse disco não teve lançamento. Quando eu acabei de gravar o disco, eu era um pouco mais que um adolescente, eu tinha vinte anos. Tinha feito o Clube da Esquina no começo de 72 e o disco do tênis no meio de 72 e ele foi feito como se fosse uma oficina criativa instrumental e poética, mas também feita no sufoco”, continua relembrando. “Eu tinha um contrato com uma gravadora que dizia que eu fizesse um disco logo depois do Clube da Esquina. Sabe o que eu tinha? Eu não tinha música nenhuma! Eu assinei o contrato sem ter música nenhuma! O processo do disco do tênis era o seguinte: eu fazia a música de manhã, meu irmão (Márcio Borges) fazia as letras à tarde e à noite ia pro estúdio, fazia os arranjos e gravava tudo valendo! Foi um disco muito urgente! Eu não tinha vinte, quinze anos de composição, eu tava compondo há dois anos e minhas músicas foram canalizadas pro Clube da Esquina. Então foi uma loucura! A música ‘Pensa Você’, por exemplo, eu cheguei no estúdio sem ter nada e compus a música no estúdio, no dia de gravar.”

A pressão responsável pelo processo de criação do disco também lhe deu uma aura colaborativa, em que todos entraram no ritmo em que criação, composição, arranjos e gravação faziam parte de um mesmo processo, nada linear. “Eu acho que uma das características mais legais do disco do tênis é a coisa de ele ter sido feito caoticamente. Eu não tinha as músicas e tinha que criar. Isso botou minha cabeça pra funcionar de um jeito que ela nunca funcionou”, continua Lô. “Eu tive a curiosidade de ver a ficha técnica desse disco anos depois e vi que a produção é do Milton Miranda e Maestro Gaia, que já devem ter falecido há mais de trinta anos, mas eu nunca vi nem o Milton Miranda nem o Maestro Gaia no estúdio quando estávamos gravando. A gente produziu tudo sozinho. Eu ficava meio na direção musical, apresentando as músicas e as ideias e os meus amigos, os músicos, acrescentavam as ideias delas às minhas. Foi uma oficina de cooperação criativa. Agradeço demais a todos que contribuíram na gravação, porque se não fossem eles, não teria acontecido esse disco.”

“É um disco totalmente inspirado que aponta pra vários lados: tem baião, tem canção, tem música que eu canto quase chorando…”, ri. “Acho que ele sugere muitas tendências que estavam contidas na minha cabeça. É meio psicodélico, meio progressivo, tem uma coisa meio Hermeto Pascoal.” A tônica do disco foi embalada pela expansão da consciência típica do período. “As drogas tiveram total influência nisso, porque o mundo estava vivendo em estados alterados de consciência. Todos os artistas, os ingleses, os americanos, Jimi Hendrix, os Beatles, os Rolling Stones, os Emerson Lake & Palmer, os Crosby Stills Nash & Young… O mundo inteiro usavam substâncias alteradoras de consciência, como eu e a turma que gravou comigo também. Todo mundo o tempo todo com o estado de consciência alterado. Eu gostava muito das lisérgicas, tinha gente que gostava mais de álcool, tinha gente que gostava mais de maconha e tinha gente que gostava de tudo o tempo todo”, lembra.

E depois de gravar o disco, em vez de colocá-lo na rua, ele preferiu largar tudo. “Sabe quem foi pra rua? O Lô Borges”, continua. “Eu fiz o disco e larguei tudo. Falei que não queria saber mais de gravadora, não queria saber mais de carreira, de disco, vou voltar pra Belo Horizonte e fazer as coisas que as pessoas da minha geração estão fazendo. Eu virei hippie! Fui pra Arembepe na Bahia, pra Porto Alegre, não sei onde mais, viajando pelo Brasil de ônibus com alguns exemplares do disco que eu entregava pras pessoas nas rodinhas de violão. Eu praticamente abandonei minha carreira.”

Lô não se arrepende do surto, que considera a melhor decisão que fez em sua carreira, retomada quase seis anos depois, com o disco A Via Láctea, de 1979. “Passei cinco anos na vida libertária de hippie e me estruturando como compositor. Quando eu voltei, seis anos depois, eu tinha música pra caramba!”, recorda-se. “Não tinha que fazer música de manhã, letra de tarde e gravar à noite. Quando eu voltei com o Via Láctea em 78 eu tinha música pra caramba, eu ensaiei o disco, que foi produzido pelo Milton, foi muito mais relaxado.”

A decisão de abandonar o meio artístico surgiu logo após ele ter finalizado seu disco de estreia, por isso em vez de seu rosto, há o par de tênis na capa. “A ideia do tênis da capa é minha. Quando o disco ficou pronto e fomos discutir a capa, eu disse que estava saindo da indústria fonográfica e queria colocar o tênis pra simbolizar isso. Não ter colocado a minha cara e sim um tênis, que era eu dizendo que ia pegar a estrada: eu vou pegar a estrada e tô saindo do Rio de Janeiro, tô saindo do showbusiness, tô saindo do circuito. Eu tenho vinte anos apenas e não quero essa obrigação de gravar um disco a cada seis meses. Até hoje eu autografo o disco do tênis dizendo ‘com um pé na estrada’.”

Lô Borges (em frente, ao centro) em frente à banda montada por Pablo Castro (segundo à esquerda) para reproduzir o clássico disco de 1972

Lô Borges (em frente, ao centro) em frente à banda montada por Pablo Castro (segundo à esquerda) para reproduzir o clássico disco de 1972

Trancado na própria memória de Lô, o disco nunca mais voltou aos palcos ao mesmo tempo em que criava sua reputação de forma paralela, tanto no Brasil quanto no exterior. Até que, no ano passado, após um show, alguns músicos haviam lhe perguntado sobre a importância do disco, o que lhe fez voltar a pensar no álbum. Mas a decisão de voltar ao disco surgiu quando ele conheceu o músico mineiro Pablo Castro. “Ele é um cara que escreveu dez páginas do meu songbook e que fui conhecer num show que eu fiz com o Samuel Rosa num festival aqui em Belo Horizonte quando ele tocou antes de mim e do Samuel. Eu fiquei interessado no som dele, trocamos ideias ali no camarim. Depois eu convidei ele pra minha casa, gostei muito do disco dele, e qual a minha surpresa quando ele pegou um violão e começou a tocar todas as músicas do disco do tênis! E tocou todas as músicas dos lados Bs dos discos meus, ele era um especialista em lados B de Lô Borges.”

A ideia de recriar o disco começou a ser gestava, mas havia um agravante: “Refazer o disco do tênis é um processo tão complexo, porque o disco é uma engenharia, uma oficina instrumental, em que a gente botou cravo, Hammond, pedais, pianos acústicos… E pra reconstruir o disco do tênis teria um trabalho muito grande. Mas ele disse, ‘Lô, eu sou um cara que teve por anos bandas cover de Beatles, além de ser cantor e compositor eu sou especializado em reconstituir discos, toquei no Cavern Club em Liverpool, em Nova York. Se você quiser eu faço isso com a minha banda!'”

Pablo, que além do próprio trabalho autoral, também teve três bandas cover de Beatles em Minas Gerais, The Silver Beatles, Sgt. Pepper’s Band e Free as a Beatle, fala sobre esta experiência e como ela lhe aproximou ao disco do tênis. “É um estudo muito interessante reproduzir à risca um arranjo. Primeiro porque estimulamos o ouvido a memorizar e decodificar o som. Segundo porque é uma prática de banda muito específica, onde há um efeito preciso a se almejar, incluídos aí os vocais, sua timbragem, harmonização, jeito de interpretar, etc. Terceiro, porque os detalhes são importantes para a fruição dos aficcionados. É uma espécie de ‘música de concerto’, só que popular. E, em última instância, valorizar o arranjo, em vez de apenas a canção, é uma maneira de homenagear todos os músicos envolvidos criativamente na confecção de uma faixa, não apenas os compositores. Tudo isso foi uma experiência valiosa para meu trabalho de direção musical no show do disco do tênis. Evidentemente, as harmonias de Lô são mais complexas e arrojadas do que as dos Beatles. Mas a análise dos timbres, camadas de instrumentos, texturas, frases, tudo isso é importante nesse tipo de reconstituição. Penso que a experiência com os Beatles me ajudou nesse aspecto.”

“O mais difícil nesse tipo de reconstituição são as partes que, na gravação original, foram meio que improvisadas, não seguem um padrão definido, mas que abrilhantam a faixa”, continua Pablo. “Os solos de guitarra são o exemplo mais evidente disso, mas normalmente os solos estão em primeiro plano, de forma que não é tão difícil transcrevê-los. Mais complicados são aqueles detalhes de instrumentos não solistas mas cujas frases aparecem aqui e ali, e contribuem para o efeito geral da música. Além disso, o disco do tênis tem vários vocais de 4 vozes, às vezes mais, e não é tão simples fazer isso funcionar no palco. É preciso ensaiar bem pra timbrar, equilibrar e afinar tudo a contento no palco. Outro aspecto importante, e dos mais criativos nesse tipo de trabalho, são adaptações de finais para as músicas que originalmente terminam em fade-out. Isso quase nunca funciona no palco, de forma que fizemos finais completos para essas faixas no show. Tenho gostado de todas, mais acho que ‘Aos Barões’, por ser uma música tão inusitada, meio perturbadora, está entre as mais instigantes do disco e do show. ”

Lô deu a carta branca para Pablo tocar o disco e depois foi chamado para assistir à execução. “Comecei a participar dos ensaios em dezembro. No primeiro ensaio eu não acreditei, eu tava em 1972 e não sabia! Eu nem toquei, só escutei! Tudo igualzinho! As guitarras do Beto Guedes, as minhas guitarras, os Hammonds do Tenório Júnior, os violões do Nelson Ângelo, o baixo e a guitarra do Toninho Horta. Eles fizeram a reconstituição fidedigna igual. Aí eu entrei na história e virou o projeto e a história de tornar público nosso encontro.”

Pablo explica que manteve a concisão do disco que tem 15 músicas e pouco mais de meia hora de duração. “Há algumas canções com as formas expandidas, mas não muitas. Não queríamos descaracterizar o aspecto hai-cai dessas canções . É um charme uma composição incisiva que passa rápido como uma borboleta em vôo. Faremos também, na segunda metade do show, todas as canções de Lô do disco Clube da Esquina, igualmente em seus arranjos originais, de forma que o show, além de repleto de outras canções decisivas na obra de Lô, não será tão breve quanto o disco do tênis.”

Depois dos shows em São Paulo, o grupo quer rodar com o disco pelo país. “Cair na estrada!”, comemora Lô, que ainda não tem shows agendados para esta nova fase, embora a próxima apresentação deva acontecer em alguns meses, em Belo Horizonte.

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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