Blog do Matias

Carrie Fisher criou o ícone feminista definitivo

Alexandre Matias

27/12/2016 17h04

carriefisher

Infelizmente não foi apenas um susto. O ataque cardíaco que Carrie Fisher sofreu em um voo entre Londres e Los Angeles na última sexta-feira a vitimou definitivamente nesta terça-feira, encerrando uma curta mas intensa biografia de uma atriz que tornou-se um dos principais rostos da história do cinema devido a um único papel. Mas por mais que a princesa Leia possa ter sido um fardo em sua própria carreira, ela sempre soube da importância da nobre imaginada por George Lucas. Mais do que um símbolo cultural incontestável, ela foi o ícone definitivo do feminismo para as massas.

Porque a princesa Leia é a grande novidade da primeira trilogia Guerra nas Estrelas. Como Matrix trinta anos depois, o terceiro longa-metragem de George Lucas não era uma história original e sim um imenso mashup de referências e iconografias de ícones pop do passado. O cenário era semelhantes às das aventuras de Buck Rogers e Flash Gordon nos anos 30, Luke Skywalker tinha um quê de Príncipe Valente, Han Solo era um caubói reimaginado no espaço sideral, Obi-Wan Kenobi um novo Gandalf e Darth Vader e o Império ecoavam as tropas nazistas. George Lucas escreveu o filme com a Jornada do Herói de Joseph Campbell debaixo do braço, mas um elemento especifico neste amálgama de citações era completamente novo: a princesa.

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Não era mais uma donzela em pânico esperando ser salva por seu herói, mas ela mesma era uma heroína e fazia parte da gangue. E em Carrie Fisher a personagem cresceu significamente – ao ser interpretada por uma atriz nascida no showbusiness (filha do cantor Eddie Fisher e da atriz Debbie Reynolds), a personagem ganhava uma dose de cinismo, arrogância e despeito que nunca estiveram em uma personagem mulher num filme que atingira um público tão grande. Ela era herdeira direta das protagonistas dos filmes da nouvelle vague francesa: Luke, Leia e Han Solo pareciam ser uma versão norte-americana do trio protagonista do Jules e Jim de Truffaut e uma frase do próprio Godard (“Tudo que você precisa em um filme é de uma garota com uma arma”) é a base para sua presença na tela durante os três primeiros filmes da saga Skywalker. E, claro, assistir as transformações sociais do mundo nos anos 60 ainda criança fez que ela levasse aqueles valores para um personagem que iria mudar a forma como as mulheres se viam fora do cinema.

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Por isso não entendo o mimimi de machistas desmamados que reclamam da forte presença feminina nos dois filmes mais recentes da Lucasfilm. Rey (do Episódio VII) e Jyn (de Rogue One) são herdeiras diretas do vigor da princesa Leia, de um feminismo que não apenas reivindica a igualdade entre os gêneros, mas que proclama sua autossuficiência, e que ensinou para gerações de meninas que ser princesa (ou melhor, ser mulher) não era sinônimo de uma fragilidade indefesa. E que ensinou para gerações de meninos que as princesas não estão apenas esperando serem salvas passivamente, mas que são parceiras no sentido literal da palavra – alguém com quem você pode contar.

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E isso sem abrir mão da beleza e da delicadeza femininas, embora a Leia de Fisher sempre também tenha deixado claro o quanto ficava desconfortável no papel de mulher-objeto. Uma das principais revelações da primeira trilogia é a revelação que Luke e Leia são irmãos – e o filme do final de 2015 deixa no ar a possibilidade de Leia (e talvez Rey) também poder ser Jedi. O Episódio VIII já foi filmado e estreará daqui um ano – e é bem possivel que teremos uma confirmação deste tipo durante o filme. E que deve ser a confirmação do grande legado da atriz: que a mulher pode ser o que ela quiser, pois a Força também está com ela.

Sobre o Autor

Alexandre Matias, 41, nasceu em Brasília e mudou-se para Campinas em 1993. Começou a trabalhar como jornalista no Diário do Povo, em Campinas, e em 1995 criou a coluna Trabalho Sujo (http://trabalhosujo.com.br/), que manteve em papel pelo tempo que ele trabalhou no jornal, até 1999, quando a transformou em um site, que mantém até hoje. Atualmente mantém o podcast Vida Fodona (http://fubap.org/vidafodona/) e uma coluna sobre música brasileira na revista Caros Amigos. Também produz a festa semanal Noites Trabalho Sujo na Trackers, no centro de São Paulo, onde mora desde 2001. Trabalhou ainda como tradutor de HQs, editor-executivo da Conrad Editora e editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário, da gravadora Trama. Também editou o caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e foi diretor de redação da revista Galileu, da editora Globo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.

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