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Mais do que gênio musical, Prince era um artista completo

Alexandre Matias

21/04/2016 17h59

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A morte de Prince só não é tão impactante quanto a de David Bowie no início deste ano pois o artista inglês havia acabado de lançar um novo disco dias antes do anúncio de sua passagem. Prince até tinha voltado ao noticiário devido a um incidente médico na semana passada que deixou seus fãs apreensivos, mas parecia ter sido apenas um susto. Até a trágica notícia desta quinta-feira.

Não é exagero dizer que Prince seja um artista equivalente à importância do próprio Bowie. Ele também rompeu barreiras entre gêneros musicais, artísticos e sociais, expandindo os limites de sua obra para outras mídias enquanto criava uma personalidade masculina andrógina dona de todas as etapas de sua extensa produção. Como Bowie também era um compositor e intérprete brilhante, emotivo e perigoso na mesma medida. Mais que Bowie, era um monstro da produção musical, um multiinstrumentista virtuoso, dançarino irresistível – um gênio musical que roçava ombros com James Brown, Marvin Gaye, Aretha Franklin, Stevie Wonder e Michael Jackson, sempre mirando em entidades de uma dimensão superior, como Miles Davis, Duke Ellington, Nina Simone.

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Era uma versão masculina da Madonna que tocava todos os instrumentos que queria aprender, um George Clinton que pilotava uma espaçonave sexual, inventor de um funk sintético recheado de soul music e coberto pela estética do rock. Ele ajudou a soul music e a discoteca a se transformarem no R&B moderno ao acompanhar a evolução apontada pelo hip hop tocando instrumentos em vez de discos. Um explorador sônico que usava timbres eletrônicos como desculpa para desbravar ambientes musicais improváveis – e grudentos.

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Porque além de tudo, ele era um senhor hitmaker. Daqueles compositores com o toque de Midas, que transformam uma frase de efeito e um riff de guitarra em uma canção memorável, que todos sabemos assobiar, que cantarolamos sem saber a letra ou balbuciamos as partes instrumentais. Da disco music minimalista de "Kiss" (que sozinha pariu praticamente toda a cena eletrônica francesa dos anos 90, Daft Punk incluso) ao R&B guitarreiro de "When Doves Cry", da monumental balada "Purple Rain" ao o rap apocalíptico de "Sign O'the Times", do gospel new wave de "Let's Go Crazy" ao soul funk de "I Wanna Be Your Lover". É um rosário de dezenas de músicas que impregnam nas entranhas do cérebro ao mesmo tempo em que movimentam pés e quadris quase involuntariamente.

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Também desafiou o showbusiness e pagou um alto preço por isso. Quando descobriu que os originais de suas gravações não lhe pertenciam, resolveu encerrar seu contrato entregando suas piores músicas em discos fracos no início dos anos 90, para apenas cumprir tabela. Quando percebeu que o mercado podia faturar até mesmo com discos que ele não considerava suficientemente bons, resolveu trocar de nome e batizou-se com um símbolo impronunciável apenas para dificultar o trabalho de sua gravadora para vendê-lo. O resultado foi a transformação da personalidade do artista em uma figura excêntrica que queria ser chamada por um imagem que não podia ser pronunciada, rotulando aquele desafio comercial de maluquice e vendendo aquele novo Prince para seu velho público como se ele tivesse apenas sendo exigente. A partir daí resolveu radicalizar e tirar fotos com a palavra "escravo" em inglês escrita no rosto. Não era só uma metáfora: Prince se considerava escravo de um sistema que era dono de suas próprias composições. Quando o contrato terminou, no fim dos anos 90, ele desafogou toda sua produção do período em um disco triplo chamado Emancipation, cuja capa exibia duas mãos quebrando uma corrente, numa imagem didática do acontecimento para seu público. Mas aí o estrago já estava feito e parte de seus antigos fãs acharam que o artista havia mesmo perdido a noção.

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Essa desconfiança com o sistema também o deixou reticente com a internet e vez por outra surgia uma notícia de que o artista pedia para que suas músicas fossem retiradas de algum serviço online. Ele não tem conta em redes sociais, tem pouquíssimas músicas em aplicativos de streaming, é dificílimo de ser encontrado no YouTube e até mesmo em sites de download de torrents. Sua histórica aversão ao meio digital como plataforma de distribuição acabou impedindo que ele atingisse um público ainda maior.

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Mas isso não diminui sua importância. Um artista completo, um gênio musical, um homem da renascença, um popstar – Prince fará falta e é importante que seu legado continue vivo.

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Sobre o Autor

Alexandre Matias cobre cultura, comportamento e tecnologia há mais de duas décadas e sua produção está centralizada no site Trabalho Sujo (www.trabalhosujo.com.br), desde 1995 (@trabalhosujo nas rede sociais). É curador de música do Centro Cultural São Paulo e do Centro da Terra, do ciclo de debates Spotify Talks, colunista da revista Caros Amigos, e produtor da festa Noites Trabalho Sujo.

Sobre o Blog

A cultura do século 21 é muito mais ampla que a cultura pop, a vida digital ou o mercado de massas. Inclui comportamento, hypes, ciência, nostalgia e tecnologia traduzidos diariamente em livros, discos, sites, revistas, blogs, HQs, séries, filmes e programas de TV. Um lugar para discussões aprofundadas, paralelos entre diferentes áreas e velhos assuntos à tona, tudo ao mesmo tempo.